Filme resgata a saga dos mutantes em filme adulto e refinado
por Danilo Vasques
Um filmão. Mais do que
uma adaptação cinematográfica de quadrinhos, novo longa da
franquia evita excessos e no correr de aproximadamente 130 minutos
apresenta uma história para quem gosta ou não de gibis. Trata-se de
uma obra que, em meio a vilões e heróis mutantes, versa sobre
humanidade, descobertas e aceitação do próximo; necessariamente,
aceitação de si mesmo.
Com roteiro construído
para o cinema, reconta o início da saga dos X-Men. Com adaptações
e subversões ao universo das HQs, o filme consolida o encontro de
Charles Xavier e Eric Lehnsherr. A amizade de ambos e a trincheira
latente entre suas ideologias são pontuadas numa obra cujos efeitos
especiais somam sem atrapalhar, o que se faz um triunfo, afinal.
James
McAvoy (Xavier) contracena com Michael Fassbender (o jovem Magneto)
Dirigido por Matthew
Vaughn, que declinara do convite para o primeiro da série realizado
em 2000 por Bryan Singer, que contribui agora com o roteiro e a
produção, X-Men: Primeira Classe mergulha em profundidade no
universo psicológico de alguns personagens e permite uma releitura
primorosa sobre os protagonistas que há décadas pululam na
imaginação de milhares de leitores. Charles Xavier, jovem, enérgico é também um galante. Eric, carismático, poliglota e um forte. Serão
ambos os dois polos entre a luta mutante e a convivência pacífica
entre humanos. Eric, sem a carapuça de Magneto, arremeta: paz nunca
foi uma opção.
Cinemão
Trata-se de um filme de
ação, sofisticado e adulto que permite, por sua vez, espaço para
passagens comoventes. Uma delas quando observamos Xavier disputar corrida
com um jovem Hank McCoy (Nicholas Hoult), este, tímido sob os óculos, inicialmente leva um quê de Clark Kent. Xavier,
sabe-se, ficará refém de uma cadeira de rodas mais cedo ou mais
tarde. Outra: quando penetra a mente de Eric frente ao desafio de
vê-lo mover uma gigantesca antena a quilômetros de distância. Os
olhos marejados de ambos denotam a ligação que possuem.
O cinema é uma
experiência incomparável e por isso retomamos ainda uma cena
formidável para se ver na telona: um submarino içado aos ares pelos
poderes de Eric. A cena está recortada no trailer. Extrapolar
fronteiras, rever conceitos e rebater a forma aparente são algumas
das ideias que permeiam a trama que angariou mais de 55 milhões de
dólares na estreia norte-americana, em 3 de junho, segundo
estimativa da página do Box Office Mojo, grupo que anota as
bilheterias nos EUA e em outros países.
Mais do que a investida
em superpoderes, os quais estão lá, o filme lança mão de fortes
expressões faciais, interpretações arrassadoras e diálogos introspectivos.
Kevin Bacon encarna o vilão Sebastian Shaw com grandeza. James
McAvoy, já espetacular em Desejo e Reparação, emprega carisma a Xavier, que num momento cômico enfatiza ao jovem
McCoy: não toque em meus cabelos. Emma Frost, tão cultuada nos
quadrinhos, ganha força com January Jones no papel da poderosa vilã.
E por aí vai.
Jones interpreta a telepata Emma Frost
Magneto
Observo neste momento o
rosto de Magneto na terceira página da segunda edição de uma
minissérie em três partes lançada há dezesseis anos. “Tempestade
de Fogo” é o título da história escrita pelo inglês Chris
Claremont e desenhada pelo sul-coreano Jim Lee. Reencontrei o gibi
para sublinhar o que notei já nas primeiras cenas do novo longa:
Michael Fassbender mais do que fazer jus a um dos mais notáveis
personagens dos quadrinhos, sublinha-o com parcimônia e carrega com
esmero expressões que ora vão da raiva à comoção, da dor ao
ódio, da impaciência à empatia. É a face de Magneto.
O vilão em gibi de 1995
O jornal espanhol El
País chegou a anotar que Fassbender é “o melhor segredo guardado de X-Men”
(em espanhol). Para nós, ao passo que o filme reconta o início da saga dos mutantes, cometendo
revisões, alterações e traçando novos paralelos, torna-se também
o filme de Magneto. A construção do personagem, suas
contradições e as emblemáticas pinceladas de seu caráter são
trabalhadas com requinte. Por sua vez, o discurso do cruel Shaw, que
aos poucos é apresentado, faz às vezes do eco do pensamento de Eric Lehnsherr.
Diálogos
Caso não tenha visto o
filme, salte este tópico.
A sequência inicial é reveladora. O
jovem Eric é separado da mãe por nazistas em um campo de
concentração na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial. Sua
raiva tamanha e o poder latente de controlar metais o faz entortar os
portões do local. Trata-se da cena exibida em X-Men, o primeiro da
franquia, há onze anos. Aqui temos o desenrolar da passagem em que
se observa o primeiro contato de Eric com
Shaw.
A trama é intercalada
com momentos históricos reais. O ápice ocorre justamente no
decorrer de um episódio da Guerra Fria. A Crise dos Mísseis de
Cuba, a qual azedou ainda mais as rusgas entre a então União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas e os EUA, em outubro de 1962, por
isso também chamada pelos cubanos de “Crise de outubro”, é retratada aqui sob a tensão de uma disputa no Atlântico.
Os mutantes, na linha
de fogo, tornam-se, por meio de uma jogada política, o principal
alvo dos foguetes. A humanidade, representada nos militares, atacaria assim o grupo, alimentando a guinada
terrorista e ideológica de Magneto. O vilão se apresenta.
Fim de semana
Para quem gosta de
cinema, X-Men: Primeira Classe é uma opção encorpada entre os
atuais cartazes. Para quem acompanha a série de adaptações de
quadrinhos, também uma boa pedida; nada a dever aos fãs dos dois primeiros X-Men
assinados por Bryan Synger. Em nossa opinião, o
melhor filme da franquia.
Aparições
Duas pontas
interessantes. Hugh Jackman retoma o rosto mutante em um bar. Rebecca
Romijin, a Mística dos filmes anteriores, faz às vezes de si mesma
em uma breve cena, deitada à frente de Eric.
Bancas
A Marvel Comics informa
que em outubro deixará de publicar o gibi Os Fabulosos X-Men
(Uncanny X-Men, no original), segundo notícia publicada no jornal O
Estado de S. Paulo. Editada desde 1963 e reformulada em diversos
momentos, a série foi criada por Stan Lee e por Jack Kirby, dupla
que seguiu no comando direto até 1967. A prometida edição
derradeira será a de número 544. Os mutantes protagonizarão outros títulos.
X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class). De Matthew
Vaughn (EUA, 2011). Com James
McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon. Ação.
imagens: divulgação/reprodução
Se você gosta de
adaptações dos quadrinhos para o cinema, não deixe de reler crítica sobre o filme Thor.
Veja também matéria sobre o fim da série Smallville, após dez anos das aventuras do
jovem Superman.













