terça-feira, 17 de maio de 2011

Thor

A força do Deus do Trovão além do martelo:
reside em sua humanidade

por Danilo Vasques

Kenneth Branagh é dito como um ator profundo, homem chegado a Shakespeare e outros grandes. Talvez por esta razão, sua versão como diretor para Thor, o personagem criado por Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber, apoia-se na introspecção como caminho para o filho de Odin encontrar o herói que lhe cabe: é no lado de dentro que reside a força do guerreiro. O aprendizado acontece ao longo do novo cartaz dos estúdios Marvel.

No filme que estreou no final de abril (29), o bravo protagonista só compreende o poder que os deuses oferecem aos seus pares quando se aproxima da mortandade: para Thor, não basta o título, é preciso merecer. Ao trilhar por este universo cósmico que une e distancia divindades e mortais é que se observa o amadurecimento do homem que carrega o martelo. Branagh já comentou por aí que quando assumiu a cadeira de direção da megaprodução, algumas pessoas estranharam ouvi-lo dizer que conhecia em detalhes o herói dos gibis.

Deve ter sido o leitor por trás do diretor, consoante com a história para o longa escrita por J. Michael Straczynski e Mark Protosevich, que permitiu uma adaptação que transita com pertinência entre os dois mundos (ou os noves, de alguma forma, se preferir) do personagem: o reino de Asgard e a Terra. Um filme didático para conduzir novos espectadores ao personagem que teve sua estreia nos quadrinhos em 1962.

Mas deixemos claro: é um filme de ação, antes de tudo .

Dia do Trovão

Nesse campo é difícil escolher os momentos que melhor caracterizam o herói. Dois deles valem grifos: na primeira batalha, Thor e companhia desafiam os guerreiros de gelo, os aparentes vilões num universo paralelo ao reino comandado por Odin. Cortes secos, efeitos especiais, gravidade desafiada, nada de novo, mas o uso do martelo merece destaque. Sensacional. A arma que simboliza o herói tem quase vida própria – para ficar mais claro: energia própria. Lembrou quadrinhos quando Thor se ajoelhou e bateu o cabo da arma no chão ecoando assim a sua força. É a cena impressa num dos pôsteres de divulgação.

 
promocional do filme que estreou em abril

A segunda (se ainda não viu o filme, pule este parágrafo): o herói reavê seus poderes e manobra sua arma em frenética rotação. A partir do seu movimento, um enorme tornado o envolve e Thor voando se faz sublime em meio à eletricidade que reverbera das ondas de ventos e nuvens. O dono do trovão está ali redesenhado.

As sequências que se passam em Asgard são em grande escala coloridas e luminosas, numa tentativa de refletir a magia que envolve os deuses que lá se baseiam. Odin, o pai de todos, um Zeus nórdico, é o mandante do poderio que nutre a família real. Thor é o herdeiro do trono que perde a vez por sua arrogância e imprudência. Punido por atos que fazem romper a paz diplomática às cercanias do seu lar, é lançado pelo pai ao planeta dos humanos e aqui recai sobre ele uma série de provações. É o princípio da história que acena a revisão do mito e rubrica a imaginação.

Astros

Thor é um filme estelar. Não fosse o mundo astral que o envolve, alguns nomes ali já bastariam para aquecer a produção. A dupla dos experientes Anthony Hopkins e Rene Russo, os pais do herói, são dois chamarizes de peso. Hopkins desequilibra a balança. A impressão que fica é que ambos poderiam ter mais espaço no longa. Odin é grandioso, elegante, envelhecido e cansado: prato cheio para um ator do calibre que o interpreta.

Natalie Portman, a mocinha, ah, o que dizer de uma atriz como ela. Sem glamour ou glitter, carrega em entusiasmo e juventude – representados, claro – o papel da pesquisadora valente e esperançosa que não nega um universo maior do que as nossas fronteiras geográficas. Uma astrofísica que olha para o alto em busca de respostas que eminentemente convergirão à colisão com o guerreiro. Thor, o sedutor, tem vez.

fotos: divulgação
 
O Deus do Trovão (Chris Hemsworth) se encanta com uma mortal (Natalie Portman)

Chris Hemsworth, que já havia encorpado em 2009 o pai do capitão Kirk na atualização de Jornada nas Estrelas, faz às vezes do herói do martelo. Faz com parcimônia. Caracterizado sem exageros e com um tom mais sombrio em seu uniforme escurecido, emprega vigor ao personagem – e não me refiro as cenas em que aparece sem camisa, o que levantou suspiros de algumas pessoas. Falo do rosto barbado que vê sua arrogância inicial se dissipar ao permitir espaço para um olhar dramatizado. O papel cresce no decorrer da trama; o ator segura a bronca.

Companhia

Adaptação da vez da série que arregimenta a aguardada apresentação dos Vingadores prevista para 2012, Thor faz diversas referências a outros personagens do universo Marvel. O doutor Banner, Tony Stark, Nick Fury e por aí vai a série de citações já amarradas em títulos predecessores. A organização S.H.I.E.L.D. continua personalizada no agente Coulson (Clark Gregg) que ganha mais espaço neste longa. Aliás, a cena escondida após os créditos de O Homem de Ferro 2 e protagonizada por ele agora é reproduzida literalmente.

Por falar em créditos, lembremos que Marvel e DC são universos paralelos e ao mesmo tempo pares em um mundo de gigantes: os quadrinhos de superpoderosos. Em Thor, a assinatura da direção e os primeiros nomes após o longa são apresentados enquanto o espectador é conduzido para uma viagem entre galáxias espaço adentro (da imaginação, sobretudo). Belíssimo. Porém, não podemos ignorar as semelhanças com as sequências de abertura imortalizadas nos filmes do Superman (DC).

Segue em cartaz.

Gosta de adaptações de quadrinhos para os quadrões do cinema e da televisão? Então não deixe de ler matéria sobre o fim da série Smallville, releitura da história do jovem Superman para TV.

atualizado às 14h48 de 18.mai.2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Smallville

Clark Kent, finalmente, assume o papel do mítico herói

por Danilo Vasques

Chega ao fim Smallville. Após dez anos de aventuras do jovem Superman, a televisão norte-americana programou para a noite de hoje o último capítulo da série. Em episódio duplo, o destino de Kal-El será finalmente anunciado e o personagem findará a jornada que antecede os seus voos pela vida adulta. O homem de aço encara, enfim, o mito que lhe pertence.

Demorou uma década para que o antes estudante do Kansas, agora beirando os trinta e já repórter, vestisse para não mais abandonar o uniforme rubro-azulado que marca as histórias do mais famoso personagem dos quadrinhos. Para quem não conhece, a série estabeleceu uma narrativa dos anos adolescentes até o começo da vida adulta de Clark Kent, ressaltando os conflitos do seu alterego humanizado. Grande parte dos desafios tinham mais a ver com dramas que não precisavam de  superforça ou visão de raio-X para serem enfrentados.

Ser demasiadamente humano não sendo terrestre sempre foi uma das principais virtudes do Superman. Quando Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o personagem e publicaram sua primeira história em junho de 1938 iniciaram ali a saga de um herói que viveria angustiado e solitário, ao mesmo tempo em que a sua imagem estaria estampada em cada canto do planeta. Clark Kent, como bem citado nas adaptações para as telas, teria na solidão seu trunfo e sua tristeza; paradoxalmente, jamais estaria de fato sozinho: lição que os pais humanos, Jonathan e Martha Kent, sublinhariam com destreza.

Não à toa, o seu refúgio e principal escola levaria o nome de Fortaleza da Solidão. Na série, o memorável encontro do herói com o seu “iglu de quarenta andares”, nas palavras de uma simpática  Chloe Sullivan, a amiga repórter criada para o seriado, acontece no primeiro episódio da quinta temporada. Interessante relembrar que certa vez, Jonathan chamou pelo mesmo nome o celeiro onde o filho adotivo passou grande parte do seu tempo.

a espetacular Fortaleza da Solidão recriada em Smallville

Diálogo
 
Há dez anos, quando estreou, o mercado editorial dos gibis adaptava-se ao período pós-queda das vendas nos anos 1990. Smallville resgatou o herói para uma geração que cresceu em meio ao computador e não tinha o hábito das bancas. Por outro lado, os leitores de gibi (e também os espectadores multimídias) encontraram no seriado uma proposta inovadora para o S mais famoso do século XX. Os roteiros foram desenvolvidos com liberdade de interpretação do mito e as transformações por quais passou o protagonista mantiveram independência editorial.

Sem necessariamente recriação do material já conhecido, o seriado apresentou ao longo das temporadas uma variada gama de citações implícitas, explícitas ou até mesmo literais (como reprodução de trechos de filmes¹). A construção de histórias repletas de autorreferências e com menções constantes ao universo ao redor do herói foi um dos pontos mais bem sucedidos da adaptação para a televisão. Ao mesmo tempo, Smallville representou com independência um painel alternativo aos primeiros anos do Superman.

Para muita gente, principalmente às gerações que nasceram no final dos anos 1980 e começo dos 90, quando se fala em Clark Kent vem à mente o rosto carismático do ator Tom Welling, o protagonista da série.

Tom Welling como Clark Kent; ao fundo, a atriz Allison Mack

Desandada

Entretanto, se Smallville leva créditos por estabelecer o herói a um novo público, lembramos que o seriado não conseguiu acompanhar parte dos telespectadores iniciais. Com intenção de suprir uma crescente demanda que nos cinemas e nas livrarias assumia os lucros de um universo mítico, mágico, vampiresco e juvenil, a série limou suas arestas e voltou-se com ênfase após a sexta temporada a uma faixa etária particular em constante transformação, desagregando parcela do público adulto que insistia na madureza do herói e na evolução da trama. O lado sombrio de Clark Kent, tão bem explorado até meados do seriado, deu vazão a uma carapuça estilizada em um sobretudo preto que não combinava com as cores vivas que marcaram os primeiros anos de Smallville.

Luthors, pai e filho, foram postos de lado na trama. A pacata e forte Martha Kent, na série interpretada por Annette O' Toole,  tornou-se senadora e passou a atuar veladamente sob o apelido de Rainha Vermelha, título que poderia dialogar com o romance de Lewis Carroll. Clark virou um herói sombrio agindo às sombras e ficou ladeado pela crescente campanha de valorização da aclamada Liga da Justiça. O jovem Superman recebeu contornos obscuros que interagiam, de algum modo, com o sucesso global angariado pelo Batman de O Cavaleiro das Trevas, filme dirigido por Christopher Nolan.

Além disso, os episódios que correspondiam às descobertas do crescimento passaram a concorrer com uma vida madura fragmentada. De repente, a primeira namorada, aquela com que Clark perdera a virgindade e cujo passado lúdico já não garantia audiência, ganhou status de superespiã e, não pouco, na sexta temporada estava casada com o arquirrival, o amigo que se transforma em inimigo, Lex. Para completar, o Arqueiro Verde, um personagem secundário na carreira de Superman, passou a ser coadjuvante de peso no seriado. Ademais, o apelo sensual e tecnológico ganharam contornos exagerados no seriado. 

 Lois Lane na série interpretada pela atriz Erica Durance

Retomada

Até que no último capítulo da nona temporada, Clark libertou-se da febre ao mandar para o espaço a ameaça rediviva do General Zod, que já havia aparecido na quinta e na sexta temporada. A sequência começa em meio à chuva entrecortada por raios solares. Lois Lane salva, entre aspas, o herói e as cores ressurgem a partir daí. Inicia-se o turno ao futuro, como apontado num dos primeiros episódios da vez, quando o protagonista viaja anos a frente até se deparar consigo voando. Vê ainda a sua imagem impressa numa capa do Planeta Diário, o famoso jornal. A partir da décima temporada, sai o traje de  Neo, do Matrix, e volta o azul característico. No último episódio, Lex Luthor também retoma as feições que lhe cabem a despeito da insistência boba da presença de clones que marcaram as duas últimas temporadas: o ator Michael Rosenbaum retorna ao papel.

Da roupa do Superman, um recorte. A cena em que Clark recebe a fantasia presenteada pela mãe impressiona: vemos o símbolo vermelho e amarelo, as cores dos sóis que encimam Kal-EL, refletido nos seus olhos claros ao abrir o pacote deixado por ela. Não é somente o uniforme, é o destino do herói selado naquele momento. Uma curiosidade: o símbolo do Superman tem sido adaptado ao longo dos mais de setenta anos de sua história. No início trazia um S que mal cabia dentro de um triângulo amarelo. A última transformação de abrangência global foi acentuada em 2006 no filme dirigido por Bryan Singer com Brandon Routh no papel principal. Na ocasião, teve seu tamanho reduzido em comparação aos uniformes anteriores, o vermelho recebeu uma tonalidade mais escura e as formas ganharam relevo. É a versão reproduzida na vestimenta da série.


Jornada

Ao cabo de dez temporadas, o telespectador finalmente tende a encontrar o consagrado herói que pulula na imaginação. Havia um acordo tácito de que até o derradeiro episódio Kal-El não encorparia na totalidade o Superman que lhe é de direito. Os voos, tão tradicionais, foram raros e quando aconteciam eram motivados por questões específicas. Os demais poderes foram apresentados aos poucos. A construção do herói, apelidado nas últimas temporadas como Borrão (Blur, no original), foi paciente e repleta de inconsistências, dúvidas e certezas.

Porém, a essência benevolente e às vezes altruísta, a inclinação para a ética e a justiça antes de tudo, a valentia (“não é uma coisa que se aprenda”), além da força de um caráter inabalável foram destacadas desde o primeiro capítulo. Clark Kent, de Smallville, confirma, por fim, a grandeza do alienígena mais humanizado de todos. Excelente. Em meados da série, John, o marciano que entre outros nomes é conhecido como Ajax, arremata: enquanto a humanidade é a sua maior força, também é a sua maior vulnerabilidade.

Danilo Vasques/13.mai.2011
 modelo veste camiseta promocional da série

Smallville estreou em 16 de outubro de 2001 nos EUA. No Brasil é veiculada pelo SBT e está em recesso após a oitava temporada; o canal pago da Warner exibe a temporada final.

¹ Para ilustrar, ressaltamos aqui três cenas reproduzidas literalmente: A queda de Kripton, do Superman, o filme (1978); os disparos de mísseis nucleares no final de O Exterminador do Futuro III – a rebelião das máquinas (2003) e a zona baixa de Gothan City, de Batman Begins (2007).

fotos da série: reprodução de TV

Se você curte adaptações de HQ para os quadrões luminosos, não deixe de ler aqui, na próxima terça-feira, crítica sobre o filme Thor.


 


Marciano Vasques comentou:

“Danilo, gostei muito dessa série, embora, naturalmente, não tenha assistido a todos os episódios. Mas o Superman talvez seja o mais extraordinário personagem de HQ no repertório dos poderosos. A sua própria origem é por demais inspiradora. E essa série humanizou o personagem, o que talvez revele uma tendência nesse universo, tal como já ocorre com o Homem-Aranha. O personagem central de Smallville é carismático, com um viés de profunda sensibilidade filosófica e nada caricatural. Parabéns pelo artigo.”

“Um dos episódios que eu mais gostei e foi marcante para mim é aquele em que a jornalista adquire o 'dom' de adivinhar, de saber quando as pessoas estão mentindo, ocultando algo, e os entrevistados passam a falar sem controle, revelando coisas que causam as maiores confusões.” 

Smallville na avaliação dele: excelente. 

** 
Daniela Vasques comentou: 

"Grande série! Grande herói! Como curti Smallville, nossa! Pena ter parado de acompanhá-la com frequência após o quinto ano, acho que quando a série tomou rumos que me dispersaram um pouco. Talvez seja tempo de eu finalmente assistir as temporadas que faltam. Parabéns pela postagem! Achei um texto muito gostoso de ler, além de bem informativo."

"Tantos episódios marcantes, difícil escolher... mas vou citar três momentos: o final da 3ª temporada - incrível, a primeira "aparição" da Fortaleza da Solidão e um episódio em que o Lex está confinado numa sala, com camisa de força, sendo observado pelo Lionel através de um vidro, enquanto toca a música Hurt com Johnny Cash. Me-mo-rá-veis!" 

Smallville na avaliação dela: excelente. 

**

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correção ortográfica à 1h34 de 21.nov.2011
atualizado às 19h04 de 23.jun.2011

ops

Pedimos desculpas por eventuais transtornos: a plataforma Blogger está em manutenção desde a manhã de ontem (12/5).

Agradecemos a compreensão.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Jacuí

fotos: Danilo Vasques/26.out.2007

Continuamos com nossa proposta de documentar cenas de um cotidiano particular em São Paulo e, por vezes, em outras cidades. Aqui, duas fotografias realizadas na Vila Jacuí, zona leste paulistana, em 2007. Era o cair da tarde de uma sexta-feira.

Azul sobre a zona leste de São Paulo. Ao fundo, a avenida São Miguel.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Morre Bin Laden - parte III


Morte de Bin Laden não cessa terrorismo e ecoa justiça unilateral

por Danilo Vasques

O extermínio de um desarmado Osama Bin Laden tem repercutido mundialmente e desde as primeiras horas questiona-se o conceito de justiça agregado ao ato em fala do presidente norte-americano. Barack Obama, que assistiu a ação ao vivo diretamente de uma repartição da Casa Branca, a Sala de Situação, foi à televisão local no fim da noite de domingo (1° de maio) e anunciou a morte do terrorista em depoimento de aproximadamente nove minutos sob um tom sereno e com pouco entusiasmo. O pronunciamento aconteceu logo após ele ter avisado por telefone o presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari. A ação ocorreu ao norte do país arábe.

A tocada militar, chamada de assassinato seletivo, sinaliza a possibilidade de os EUA exterminarem inimigos públicos que constituem necessariamente ameaça de terrorismo, sem a possibilidade de julgamento sob um tribunal internacional ou mesmo local. Não há inocentes. Dificilmente o líder da Al-Qaeda apontado como um dos mentores dos atentados de 11 de setembro escaparia da morte em uma corte cuja sentença máxima fosse a execução do condenado, a exemplo do traumático processo do ex-líder iraquiano Saddam Hussein acompanhado em certa medida a olhos públicos. Contudo, a possibilidade de exposição e argumentação foi minada antes mesmo de qualquer possibilidade de manifestação no caso de Bin Laden.

Ainda que as autoridades norte-americanas apontem para as chances de haver atentados em resposta ao assassinato do terrorista e após a secretária de Estado, Hillary Clinton, reforçar que a Guerra ao Terror prossegue, a ação da força de elite da Marinha, que após o extermínio livrou-se do corpo, foi recebida com festejo nos interiores dos EUA. As comemorações vão ao encontro da aprovação que recebe o presidente pela continuação da guinada antiterror. Certamente a ação limou a busca incessante de justiça para muitos que viam em Bin Laden a personificação do mal, sobretudo, àqueles que enxergavam nele o principal rosto por trás da morte de milhares de pessoas nos ataques ocorridos há quase uma década.

Justiça unilateral

A execução do terrorista abre ou mantém um precedente de supressão dos direitos humanos quando o alvo é potencialmente uma ameaça pública. É fácil supor que Bin Laden capturado e sob custódia despertaria já nas primeiras horas a possibilidade de novos atentados em represália extrema à sua prisão. Também se pondera um apelo público favorável ou complacente ao carisma que outros observavam na figura do líder terrorista. Havia ainda a perspectiva de levantes antiamericanos.

Porém, a ideia de justiça crivada por Obama parece sublinhar primeiramente um ato justiceiro e vingativo, apoiado em grande escala pela população norte-americana. De tal forma, insinua que a premissa de justiça cega e igualitária não pende para ambos os lados quando o inimigo procurado está sob a mira. É possível assimilar o apoio massivo à liquidação da figura mais expressiva (a face mais midiática) de um sistema que aterroriza lares e o bem-estar social de uma nação – e de tantas outras. Contudo, o assassinato de Bin Laden denota diretamente a ação de uma chamada justiça unilateral imposta pelo país que protagonizou a longa caçada; o terrorista ocupava os arquivos do FBI antes de 2001.

O extermínio de Bin Laden não cessa as prerrogativas dos terroristas mundo afora (como abalizar as causas que culminam com um atentado em que vidas de civis são ceifadas?), não evita o antiamericanismo em muitos países – também dentro dos EUA – e não deixa de alimentar ideologicamente redes de extremistas. Simbolicamente causa um furor. Obama torna-se o presidente que deteu o homem mais procurado por sua nação e  principal responsável pela ferida profunda que não cicatrizou no solo de Manhattan.

Quando assumiu a autoria dos atentados de 11/9, dias após os ataques, o terrorista decretou a sentença que o perseguiu por quase dez anos. Não se questiona a dor que Bin Laden causou aos EUA e ao longe de suas fronteiras. Sua culpa e as consequências estavam postas. Contudo, questiona-se os modos de sua morte e a atribuição dos conceitos impressos na palavra “justiça” pronunciada pelo presidente norte-americano na noite de domingo.

Morte

O suposto mote de justiça é questionado principalmente quando se projeta impreciso estabelecer parâmetros para o assassinato de um ser humano em uma ação previamente planejada e orquestrada por forças de segurança do país que possui a maior infraestrutura bélica do mundo. Assistido em tempo real pelo presidente Barack Obama, o assalto dos militares levou aproximadamente quarenta minutos e foi duramente eficaz. Não se conhece ainda – e talvez nunca saibamos com exatidão – as condições pormenorizadas em que ocorreu a morte do terrorista.

As versões que o mundo acompanha provêm, em sua maioria, dos protagonistas da ação e, em alguns casos, já apresentaram divergências e inconsistências. O que se sobressai de fato da operação: Bin Laden foi morto por soldados norte-americanos na cidade de Abbottabad, norte do Paquistão, país com delicada relação de apoio diplomático aos Estados Unidos (o terrorista mais procurado pelos norte-americanos vivia há um bom tempo em uma casa fortificada próxima a campos de treinamento militar e a 100 km da capital paquistanesa). Estava desarmado e seu corpo foi jogado em alto-mar. A força-tarefa responsável pelo ataque atua sob sigilo absoluto.

Twitter

No dia seguinte ao anúncio de sua morte, Bin Laden foi o termo mais escrito no Twitter. O que isso significa é difícil apontar, já que a rede de microblogues costuma elevar ao topo as figuras que estão na crista da mídia mundial. É natural que um assunto em pauta internacional repercuta na ferramenta de interação social que atualmente vale milhões de dólares e congrega cada vez mais adeptos mundo afora. Conta-se que veio do Twitter  de um paquistanês a narrativa em tempo real do sobrevoo de um helicóptero em
Abbottabad e a primeira explosão, mesmo sem ele saber do que se tratava.

Nos dias seguintes à ação, Bin Laden teve sua popularidade postumamente acrescida em diversas regiões do planeta. Sua vida tem sido perfilada em alguns canais de informação e sua imagem reavivada na internet e na mídia global. Trata-se, a princípio, da reanimação de um nome que aparentemente via-se em considerável estado de desatenção. É comum nos depararmos com análises que apontam que após 11/9 a influência do terrorista sobre a Al Qaeda e a sua participação em ações antiamericanas estiveram em queda. O nome Bin Laden teria perdido expressão mundial até a sua morte.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Morre Bin Laden - parte II

"Nesta noite, posso relatar ao povo americano e ao mundo que os Estados Unidos conduziram uma operação que matou Osama Bin Laden, o líder da Al-Qaeda e um terrorista responsável pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes", declarou [Barack Obama]. Apontou ainda que a pequena operação foi conduzida por militares norte-americanos e que não houve registro de nenhuma baixa. Os soldados, que há uma semana trabalhavam com informações do paradeiro do terrorista, mantiveram o corpo sob custódia. Bin Laden é assassinado e Obama diz que "justiça foi feita", Café de Outubro às 4h07 de segunda-feira, logo nas primeiras horas após sua morte  (2.mai.2011)

Ler primeira parte

TERRORISTA NÃO ESTAVA ARMADO; CADÁVER FOI LANÇADO AO MAR

por Danilo Vasques

Atualizando a informação supracitada: nenhuma baixa militar do grupo de elite que protagonizou a campanha. Os EUA declararam que além de Bin Laden, quatro pessoas foram mortas. A força norte-americana que realizou a captura e liquidou o terrorista é um comando da Marinha denominado SEAL. A ação durou aproximadamente quarenta minutos. Cerca de vinte militares invadiram a casa fortemente protegida onde o terrorista estava.

O grupo é oficialmente conhecido como Seal Team Six (SEAL 6) e tem base no Estado de Virgínia (EUA). De acordo com o Washington Post, há cerca de 2300 militares ativos envolvidos na coordenação e nas atividades das seis unidades SEALs. Trata-se de um seleto grupo de militares não identificados e que atuam sob sigilo absoluto, segundo anota a matéria (em inglês) do diário norte-americano. 

O secretário de imprensa da Casa Branca, Jay Carney, afirmou  nesta terça (3) que Bin Laden não estava armado durante a ação que o levou à morte. Contudo, o secretário pontuou que ele resistiu à invasão dos soldados. O secretário mencionou que não apenas o uso de arma de fogo indica resistência, segundo reportagem (em inglês) do The New York Times. Foi divulgada pela imprensa mundial a suspeita de que Bin Laden teria usado uma mulher como escudo. 

O corpo do terrorista, apontado como o mentor dos ataques de 11 de setembro,  foi lançado ao mar árabe¹ na madrugada de segunda-feira (horário de Brasília). Antes, porém, foi fotografado e teve retiradas amostras de DNA. Segundo divulgado, o grupo militar, a bordo de helicópteros Black Hawk, lançou o cadáver envolto em um lençol branco. 

Os Estados Unidos indicaram que a ação serviu para realizar um funeral segundo os costumes religiosos islâmicos e que não enterrá-lo evitaria a criação de um mausoléu que poderia vir a reunir seguidores extremistas. O jornal El País aponta que a religião islâmica indica o enterro como forma apropriada de sepultamento. De acordo com as primeiras palavras do texto do diário espanhol, tal religião reconhece apenas "o enterro de um cadáver em terra firme" (em espanhol).

As informações sobre a operação militar que resultou na morte de Bin Laden estão sendo repassadas a público de forma contida pelas autoridades norte-americanas. Os Estados Unidos têm sido cautelosos em relação às divulgações não oficiais. A secretária de Estado Hillary Clinton afirmou ontem que a morte de Bin Laden "não deve frear o combate ao terror", como anotou especial de hoje do jornal O Estado de S. Paulo (página A10).


¹ A leitora Montserrat Llagostera Vilaró já havia apontado em comentário neste blog, logo após a primeira postagem sobre o tema, que a televisão espanhola indicava que o corpo do terrorista havia sido lançado ao mar já na manhã de segunda-feira (madrugada no Brasil). Ela escreveu às 4h57 (horário de Brasília) daquele dia: "Estaba viendo ahora a las 9,45 h. en España en la TV., decían que habían tirado el cadáver de Bin Laden al mar / Estava vendo agora, às 9h45, na Espanha, na TV, dizerem que haviam atirado o cadáver de Bin Laden ao mar". Montserrat é autora do blog Pensamentos e memórias de uma Rosa de Abril (em espanhol).



atualização às 16h40 de 9.set.2011
correção ortográfica: 4º parágrafo

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Morre Bin Laden

Bin Laden é assassinado e Obama diz que "justiça foi feita"

por Danilo Vasques

Os Estados Unidos confirmaram a morte de Osama Bin Laden, 54 anos. Há poucas horas, o presidente norte-americano, Barack Obama, declarou a morte do líder da Al-Qaeda apontado como um dos mentores dos ataques de 11 de setembro. Ele foi alvejado por forças norte-americanas no Paquistão.

Por volta das 23h30 (madrugada no Brasil), em pronunciamento à televisão local, Obama garantiu que os Estados Unidos detêm o corpo de Bin Laden.  Antes mesmo de confirmada, a notícia reuniu centenas de pessoas em frente à Casa Branca. O terrorista foi abatido a tiros na região de Abottabad, norte paquistanês.

No depoimento transmitido ao vivo, Obama afirmou que "justiça foi feita" com a morte do líder da Al-Qaeda. Bin Laden há mais de uma década era considerado um dos criminosos mais procurados pelo país. Logo nos primeiros minutos do discurso, Obama comentou que as imagens de 11 setembro estão gravadas na memória norte-americana e em seguida relembrou a dimensão dos ataques.

reprodução
página do FBI com os terroristas mais procurados (Bin Laden no destaque)

"Nesta noite, posso relatar ao povo americano e ao mundo que os Estados Unidos conduziram uma operação que matou Osama Bin Laden, o líder da Al-Qaeda e um terrorista responsável pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes", declarou. Apontou ainda que a pequena operação foi conduzida por militares norte-americanos e que não houve registro de nenhuma baixa. Os soldados, que há uma semana trabalhavam com informações do paradeiro do terrorista, mantiveram o corpo sob custódia.


Década de terror

A morte de Bin Laden acontece quase uma década após  os ataques terroristas que resultaram na morte de quase 3 mil pessoas. Em finais de 2001, o então presidente norte-americano, George W. Bush,  iniciou uma campanha mundial chamada "Guerra ao Terror" (ou você está ao lado dos Estados Unidos ou contra, dizia ele). Bush teria afirmado agora que a morte de Bin Laden "foi uma vitória para os EUA", segundo o diário El País (em espanhol).

O sucessor  não deu cabo da empreitada militar que já matou uma incontável cifra de pessoas mundo afora. Segundo o depoimento realizado há poucas horas, Obama afirmou que "o povo norte-americano não escolheu esta guerra". Ainda: "Após quase dez anos (...) nós sabemos bem os seus os custos"

Às vésperas do aniversário do principal ataque já sofrido pelos Estados Unidos, e poucos dias depois de o Wikileaks e o The New York Times apresentarem  registros gritantes do cotidiano da prisão de Guantánamo, o assassinato do terrorista amarra uma das pontas da campanha bélica iniciada por Bush e que desde o início denotou à premissa da retaliação. Sob muitos aspectos, pode-se crer que a morte de Bin Laden sublinha mais um caráter simbólico e justiceiro do que necessariamente e unicamente uma afirmação da justiça como mencionado por aquele que há pouco conquistou o Prêmio Nobel da Paz.