Técnica é exuberante e filme voa sem decolar
por
Danilo Vasques
Uma arara-azul macho nascida numa
floresta tropical é raptada e se torna vítima do tráfico de
animais. Engaiolada, o destino lhe permite uma brecha e sua vida vai
se desenvolver sob o aconchego de uma casa na frienta Minnesota
(EUA), ou “Microssota”, como diz na
versão em português a única fêmea da espécie. São os pássaros Blu e Jade, os
protagonistas que terão suas vidas cruzadas e acorrentadas
numa aventura que está em cartaz nos cinemas mundo afora.
Rio é uma animação em 3D, com
versões também para projeções em 2D, dirigida pelo brasileiro
Carlos Saldanha, o homem por trás das edições de A Era do Gelo
(codiretor do primeiro e diretor das duas sequências). Narra a saga
de Blu que cresceu domesticado sob o zelo de uma graciosa moça, Linda, cujo o amor desenfreado pelo animal acabará revirando sua calma vida entre
livros e café. É uma obra que versa sobre descobertas e fugas,
coragem e determinação.
O filme nos segura pelos olhos. A
dança de abertura, uma explosão de cores que se mistura com uma
encantadora fauna é de suspender o fôlego. A construção visual
dos elementos que compõe o longa, personagens, objetos, cenários...
reflete um nível de detalhamento contumaz. Por exemplo, a penugem
dos pássaros é tão realista quanto parecem fotografias as paisagens do
Rio de Janeiro, visto do alto ou de perto. Tudo ali foi desenvolvido em poderosos computadores da Blue Sky,
empresa de animação que tem Saldanha como sócio.
Produzido
em parceria com a 20th Century Fox e com orçamento de
90 milhões de dólares,
o longa de 96 minutos avança significadamente no campo do
desenvolvimento de técnicas de animação. Uma das sequências mais
comentadas tem sido o desfile de carnaval. A equipe da Blue Sky
desenvolveu softwares capazes de trabalhar o jogo de luzes e
contrastes com bastante realismo – vários feixes percorrem
as dimensões do sambódromo e se espalham reverberando luminosidade e sombras em todos os personagens e objetos inseridos na cena (leia
mais abaixo).
É um espetáculo visual.
Já na história, Rio não segue
além dos tipos consagrados em um recorrente imaginário popular. Os
vilões têm jeito de vilões. Os mocinhos parecem mocinhos. A trama
é boa, eficiente, mas não se aprofunda além da saga de Blu. Tudo
bem! Funciona e permite ao telespectador viajar com pássaros e
asas-deltas. Uma fantasia que dialoga com a Disney dos anos
1950, Zé Carioca e também Carmem Miranda.
Social
Na
borda, vemos refletidos os contrastes sociais do Rio de Janeiro.
Figuram também o tráfico de animais e o jogo de poderosos (sobretudo a cacatua ou o chefe do bando de ladrões bonachões) contra os
subjugados – e, claro, veremos também a inversão de poderes. O longa prega a união como passaporte para a força e arrisca que as
respostas e a coragem devem ser procuradas principalmente dentro do ser,
seja ele pássaro ou humano.
O
contraponto acontece fora da sala de cinema. A estreia ocorreu pouco
mais de 24 horas após o massacre em uma escola pública em Realengo
(RJ). Fatos que não concorrem, mas que anotam o limiar entre a
fantasia e a realidade. O Rio retratado no filme está um pouco
distante de ser o cenário ocupado pelas câmeras de Tropa de Elite. Não é o mesmo chão da pedregosa via de Nascimento, como
anota artigo publicado neste espaço na ocasião do cartaz de Tropa
2, filme que estrou em 300 salas e é a maior bilheteria do país até
o momento.
Na
jornada do Blu, veremos a redenção também ter vez. Ela está na
figura do menino, cuja infância maltratada e sombreada pela
violência urbana tão gritante é preservada em meio ao caos e a orfandade que o cercam. A
infância e sua grandiosidade, por fim, prevalecem.
Contudo,
se Rio fala sobre crescimento – o voo necessário e a
princípio inatingível de Blu é também um exercício de madureza
–, não se traduz em um filme só para crianças. Tanto não que dá
um tapa, de leve, na polícia e nos protagonistas da segurança, seja
ela representada na figura do agente que guarda a ONG para onde as araras-azuis
são levadas ou na conveniência com que os bandidos conseguem adentrar no
sambódromo e botar um carro alegórico na avenida. Entra-se e se sai
da avenida com igual facilidade. As instituições ali, como na vida real, não são
palcos inabaláveis.
Carnaval
O
carnaval do filme é uma grande festança. Contagia quem está dentro
ou ao redor dos desfiles. Não é uma alegria murada, toca fundo num
público carioca diverso, disposto seja sobre as construções
malformes em morros ou cruzando a orla da praia. É um carnaval que
repercute o "maior
espetáculo da Terra",
como sublinha o ornitólogo Túlio, o
homem que imita os pássaros (dublado em português e em inglês pelo
também brasileiro Rodrigo Santoro).
É
inegável a dimensão que o carnaval suscita no brasileiro e o quanto
se sustenta com glórias no exterior. A festa reproduzida na
animação não problematiza a questão. Lembremos contudo que problematizar não
é necessário ali: trata-se de uma aventura lúdica, afinal.
O
passarinho amarelo, Nico, chapéu de tampa de garrafa, um quê do
malandro cantor, romântico e um pouco ingênuo em sua malandragem,
aquele tipo antigo dos Arcos da Lapa, que entende de samba e de
poesia, esse já não cabe no carnaval atual. Jamelão
já dizia que a festa agora está nos desfiles e que no fundo a alegria do folião, aquele da rua, anda apagada (TV
Cruzeiro do Sul e revista Ocas”/ 2006).
O filme recorta justamente um carnaval estilizado e contagiante. É a
imagem que se sobressai da avenida e que se repercute com
soberania na mídia internacional. Segundo o jornalista Marcelo Bortoloti, Saldanha
“construiu um Rio de Janeiro para estrangeiro ver, com natureza
exuberante, samba, praia e sempre recorrendo a clichês”. A crítica
foi publicada na versão on-line da Folha de S.Paulo.
Segundo
anota reportagem da Veja (16/3, página 123), foram gastos
quase 66 horas para produzir apenas o quadro final da cena em que o
sambódromo aparece em plano aberto. Foram disparados mais de 2
bilhões de raios de luz para sua construção, de acordo com a
revista. O desfile é lindo e suas cores vibrantes.
Bilheteria
Rio
é um fenômeno. Ao menos, a expectativa que se criou até seu
lançamento e a repercussão mundial de sua estreia testemunham um
enorme sucesso que agora repercute em cifras. Segundo o jornalista
Dean Goodman, de Los Angeles, a animação figurou no topo das
bilheterias mundiais já em seus primeiros dias. Foram arrecadados 55
milhões de dólares no final de semana após sua estreia (8/4),
informa a reportagem da Reuters.
Saldanha,
em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, comenta que “a ideia é
vender o Brasil para o mundo”. A fala consta em entrevista
realizada por Luiz Carlos Merten que já adiantava três semanas
antes da estreia que Rio seria um marco na distribuição de títulos
no país. Mil salas exibiriam o filme já no seu primeiro dia de
cartaz aponta a matéria.
Segue em São Paulo.
Box Cinemas
Se
na crítica de Bravura Indômita (18/2) registramos a transparência do
Box Cinemas em relação aos impostos dos ingressos, apontamos agora
um péssimo hábito: nas salas do complexo de Itaquera, é comum as
luzes serem acesas alguns poucos segundos após a última cena, quando
os créditos estão a subir, atrapalhando quem gosta de acompanhar a fita até o final.
fotos: divulgação/reprodução
atualizado em 25.mar.2011