quarta-feira, 27 de abril de 2011

Capuchino

um conto de Danilo Vasques

Não sei se primeiro bebi leite ou café.

Digo de cara que não tenho inclinação por xícaras, nada contra também, quero dizer, recordo-me quase sempre dos copos americanos, médios, com gotas de torneira, embaçados com o vapor da bebida. Nas padarias, o danado vinha sempre requentado. Em casa, dois bules por dia. Optei por coador de papel porque sou prático. Quando me vejo pensando, frequentemente um copo de café está ao meu lado.

Contudo sempre uma ressalva, é um capuchino que hoje me falta ao paladar.

A primeira vez que experimentei o tal já era moço, trabalhava e faltava aos estudos para ir aos cinemas. Gostava do óbvio, chocolate com café e leite. A canela nunca me atraiu e o açúcar valia apenas algumas passagens.

O fato é que nunca consegui preparar o capuchino como você fazia, madrugadas em sua casa. Quente, doce, ao ponto. Sinto ainda o aroma. Quando arrisco, sempre erro em alguma coisa. Há noites, quando não consigo deitar, que sua voz me persegue. Jorge, você não vem pra cama? Tento responder e sinto pesar meu silêncio.

Três e meia, chuva no telhado, a noite escorrendo. Vou tentar novamente. Empunho um copo, meço a água e boto a ferver. Conto as colheres, misturo tudo, pouco doce. Dou o primeiro gole e revejo frustado o rosto refletido no vidro espelhado da cristaleira do armário: o sabor jamais foi o mesmo.

A solidão me consola e penso novamente: ser feliz é um exercício ingrato.

atualizado às 17h26

terça-feira, 19 de abril de 2011

Roberto Carlos


Maior expoente do cancioneiro romântico brasileiro completa setenta anos (e sustenta mais de cinco décadas nos palcos)


por Danilo Vasques

Lá no final dos anos 1950, Roberto Carlos gravava "Fora do Tom," de Carlos Imperial, e "João e Maria," um samba em parceria com o bamba, que viria a ser o lado A de um compacto gravado pela Polydor. O pequeno vinil, de 78 rotações por minuto, cuja data remonta a meados de 1959, é apontado como a primeira gravação oficial de sua carreira. Já o álbum de estreia não tardaria: "Louco Por Você", 1961.

reprodução
Raridade: o primeiro álbum de Roberto Carlos

O disco que está fora de cartaz e que por muito tempo foi deixado de lado da discografia oficial não trazia o rosto do cantor na capa, destoando do traço que marcaria as composições gráficas de seus LPs seguintes. Nos últimos meses, porém, Roberto acenou, de leve, uma possibilidade de relançá-lo. O vinil original hoje é uma raridade  e tem alto valor de mercado. Num site de compras, cotamos por R$ 3,5 mil, mas sem garantias de qualidade.

"Louco por você" marca o início da estrondosa carreira daquele que se tornaria o artista mais participativo do imaginário popular brasileiro da segunda metade do século XX (e das primeiras décadas do presente século). Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, em 19 de abril de 1941, o cantor que protagonizou diversos momentos da música nacional, em consonância com a produção mundial, completa setenta anos de idade como símbolo maior de um país romântico. Mas não só, depois do Festival de San Remo (68), Itália, sua carreira não mais teria fronteiras territoriais. É um símbolo internacional. 

28.abr.2010 © Danilo Vasques
Exposição na Oca, Ibirapuera, realizada em 2010

Roberto Carlos sustenta a coroa com méritos e sua voz circula entre as diversas gerações de brasileiros. Tornou-se inimitável, para usar a assinatura da capa do disco de 1968 e que somado aos álbuns predecessores ("Roberto Carlos" e "Em ritmo de aventura") define o cantor também como compositor maduro com um traço particular (em sintonia com o parceiro Erasmo). Roberto toca o posto de cantor das multidões.


Tragédia
O músico completa setenta anos em um momento delicado de sua vida: Ana Paula Braga, filha do seu primeiro casamento, com Nice, morreu às vésperas do aniversário do cantor na madrugada de sábado (16). O show que Roberto Carlos faria hoje, 19, em Vitória (ES) foi adiado para 4 de junho. Ana Paula era casada com Paulinho Coelho, talentoso guitarrista solo da banda que o acompanha. Há pouco mais de um ano, o cantor perdeu a mãe, Dona Laura, imortalizada na canção Lady Laura.

16.abr.2008 © Danilo Vasques
 O cantor em show na cidade de São Paulo em 2008


Particular (depoimento)
Escrever sobre Roberto Carlos é uma experiência semelhante a falar sobre um conhecido parente que mora no mesmo quintal que você mas cujos destinos nunca se cruzaram. 

Você sabe qual é a data de seu aniversário, conhece sua biografia (vai ter lido e conversado muito sobre ele), convive com seus discos desde quando suas lembranças passaram a existir e entende que a figura do cantor é significante em sua vida ao ponto de ser imensurável medi-la. Sua voz terá cantado um cenário de sentimentos e recordações que só quem aprecia seus discos talvez compartilhe. É a presença típica de uma majestade.


Algumas no Youtube:
João e Maria (do compacto de 1959)
Não é por mim (do disco Louco por você, 1961) 
As Curvas da Estrada de Santos (1969)
A namorada (1971)

Índios

Villas-Bôas e o duo indígena

por Danilo Vasques

No Dia do Índio, relembramos o sertanista Orlando Villas-Bôas (1912-2002). Recortamos um trecho em que faz alusão aos temores da noção  do duo em tribos indígenas com as quais se deparou durante diversas expedições que protagonizou Brasil adentro. Eis um documento cultural:


“O índio tem um mundo mágico, um mundo mítico e um mundo religioso e aversão pelo duo. Para o índio, o duo é o bem e o mal. O sol e a lua. O caminho da aldeia que reparte a aldeia em duas partes. Os gêmeos. Se uma mulher tem gêmeos, ela mata os dois. Porque um é bom e o outro é mau. Ele [o índio] não sabe distinguir qual é o mau. Ela não tem o direito de pôr uma coisa má dentro da aldeia. Se ela, num segundo parto, vier a ter gêmeos outra vez, então ela morre também, porque está insistindo em botar o mal dentro da aldeia. Então, é um troço fantástico, formidável, ninguém ri, ninguém fica bravo. A liberdade é grande. Suponhamos que uma menina se transforma em mãe solteira. Ninguém fala nada, o pai não fala, a mãe não fala, o irmão não fala, ninguém fala nada, ninguém tem nada com isso. Agora, ela dá à luz sozinha e mata o filho. Porque se ela se tornou grávida e ela não diz quem é o pai, então é um espírito mau que está chegando na aldeia, e ela não tem o direito de trazer ninguém mau para a aldeia. Então ela vai, dá à luz sozinha e mata o filho. Eu “roubei” três, eu o Claudio [irmão de Villas Bôas] ficamos escondidos na hora que ela [uma índia mãe solteira] estava na mata, ela vai, arma a rede, faz um buraco embaixo da rede onde ela sepulta a placenta e o filho. Na hora em que a criança nasceu, ela fazendo o parto sozinho, nos chegamos lá e roubamos a criança. Tens uns aqui em São Paulo que estão com uns trinta, quarenta anos. Se os índios lá [no Xingu] souberam que eles estão vivos, vem aqui buscar. [sorri]”


¹ Transcrição de depoimento exibido em 2005 no programa Refletor (TV Cruzeiro do Sul/CNU-SP)

Eucaliptos

por Danilo Vasques

Continuamos a documentar algumas cenas de São Paulo e outras regiões neste espaço. Recorro à Vila Carmosina. Em registro de 2009, observamos trecho da avenida Jacu-Pêssego que nos últimos meses tem recebido um acréscimo considerável de caminhões que utilizam a via como acesso à região do ABCD paulista e à rodovia Ayrton Senna.

  6.nov.2009 © Danilo Vasques

Eucaliptos margeiam a avenida Jacu-Pêssego na zona leste paulistana

revisado em 0h20 de 22/4/2011

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Rio


Técnica é exuberante e filme voa sem decolar

por Danilo Vasques

Uma arara-azul macho nascida numa floresta tropical é raptada e se torna vítima do tráfico de animais. Engaiolada, o destino lhe permite uma brecha e sua vida vai se desenvolver sob o aconchego de uma casa na frienta Minnesota (EUA), ou “Microssota”, como diz na versão em português a única fêmea da espécie. São os pássaros Blu e Jade, os protagonistas que terão suas vidas cruzadas e acorrentadas numa aventura que está em cartaz nos cinemas mundo afora.

Rio é uma animação em 3D, com versões também para projeções em 2D, dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha, o homem por trás das edições de A Era do Gelo (codiretor do primeiro e diretor das duas sequências). Narra a saga de Blu que cresceu domesticado sob o zelo de uma graciosa moça, Linda, cujo o amor desenfreado pelo animal acabará revirando sua calma vida entre livros e café. É uma obra que versa sobre descobertas e fugas, coragem e determinação.

O filme nos segura pelos olhos. A dança de abertura, uma explosão de cores que se mistura com uma encantadora fauna é de suspender o fôlego. A construção visual dos elementos que compõe o longa, personagens, objetos, cenários... reflete um nível de detalhamento contumaz. Por exemplo, a penugem dos pássaros é tão realista quanto parecem fotografias as paisagens do Rio de Janeiro, visto do alto ou de perto. Tudo ali foi desenvolvido em poderosos computadores da Blue Sky, empresa de animação que tem Saldanha como sócio.

Produzido em parceria com a 20th Century Fox e com orçamento de 90 milhões de dólares, o longa de 96 minutos avança significadamente no campo do desenvolvimento de técnicas de animação. Uma das sequências mais comentadas tem sido o desfile de carnaval. A equipe da Blue Sky desenvolveu softwares capazes de trabalhar o jogo de luzes e contrastes com bastante realismo vários feixes percorrem as dimensões do sambódromo e se espalham reverberando luminosidade e sombras em todos os personagens e objetos inseridos na cena (leia mais abaixo).

É um espetáculo visual.

Já na história, Rio não segue além dos tipos consagrados em um recorrente imaginário popular. Os vilões têm jeito de vilões. Os mocinhos parecem mocinhos. A trama é boa, eficiente, mas não se aprofunda além da saga de Blu. Tudo bem! Funciona e permite ao telespectador viajar com pássaros e asas-deltas. Uma fantasia que dialoga com a Disney dos anos 1950, Zé Carioca e também Carmem Miranda.


Social
Na borda, vemos refletidos os contrastes sociais do Rio de Janeiro. Figuram também o tráfico de animais e o jogo de poderosos (sobretudo a cacatua ou o chefe do bando de ladrões bonachões) contra os subjugados – e, claro, veremos também a inversão de poderes. O longa prega a união como passaporte para a força e arrisca que as respostas e a coragem devem ser procuradas principalmente dentro do ser, seja ele pássaro ou humano.

O contraponto acontece fora da sala de cinema. A estreia ocorreu pouco mais de 24 horas após o massacre em uma escola pública em Realengo (RJ). Fatos que não concorrem, mas que anotam o limiar entre a fantasia e a realidade. O Rio retratado no filme está um pouco distante de ser o cenário ocupado pelas câmeras de Tropa de Elite. Não é o mesmo chão da pedregosa via de Nascimento, como anota artigo publicado neste espaço na ocasião do cartaz de Tropa 2, filme que estrou em 300 salas e é a maior bilheteria do país até o momento.

Na jornada do Blu, veremos a redenção também ter vez. Ela está na figura do menino, cuja infância maltratada e sombreada pela violência urbana tão gritante é preservada em meio ao caos e a orfandade que o cercam. A infância e sua grandiosidade, por fim, prevalecem.

Contudo, se Rio fala sobre crescimento – o voo necessário e a princípio inatingível de Blu é também um exercício de madureza –, não se traduz em um filme só para crianças. Tanto não que dá um tapa, de leve, na polícia e nos protagonistas da segurança, seja ela representada na figura do agente que guarda a ONG para onde as araras-azuis são levadas ou na conveniência com que os bandidos conseguem adentrar no sambódromo e botar um carro alegórico na avenida. Entra-se e se sai da avenida com igual facilidade. As instituições ali, como na vida real, não são palcos inabaláveis.

Carnaval
O carnaval do filme é uma grande festança. Contagia quem está dentro ou ao redor dos desfiles. Não é uma alegria murada, toca fundo num público carioca diverso, disposto seja sobre as construções malformes em morros ou cruzando a orla da praia. É um carnaval que repercute o "maior espetáculo da Terra", como sublinha o ornitólogo Túlio, o homem que imita os pássaros (dublado em português e em inglês pelo também brasileiro Rodrigo Santoro).

É inegável a dimensão que o carnaval suscita no brasileiro e o quanto se sustenta com glórias no exterior. A festa reproduzida na animação não problematiza a questão. Lembremos contudo que problematizar não é necessário ali: trata-se de uma aventura lúdica, afinal.

O passarinho amarelo, Nico, chapéu de tampa de garrafa, um quê do malandro cantor, romântico e um pouco ingênuo em sua malandragem, aquele tipo antigo dos Arcos da Lapa, que entende de samba e de poesia, esse já não cabe no carnaval atual. Jamelão já dizia que a festa agora está nos desfiles e que no fundo a alegria do folião, aquele da rua, anda apagada (TV Cruzeiro do Sul e revista Ocas”/ 2006).

O filme recorta justamente um carnaval estilizado e contagiante. É a imagem que se sobressai da avenida e que se repercute com soberania na mídia internacional. Segundo o jornalista Marcelo Bortoloti, Saldanha “construiu um Rio de Janeiro para estrangeiro ver, com natureza exuberante, samba, praia e sempre recorrendo a clichês”. A crítica foi publicada na versão on-line da Folha de S.Paulo.

Segundo anota reportagem da Veja (16/3, página 123), foram gastos quase 66 horas para produzir apenas o quadro final da cena em que o sambódromo aparece em plano aberto. Foram disparados mais de 2 bilhões de raios de luz para sua construção, de acordo com a revista. O desfile é lindo e suas cores vibrantes.

Bilheteria
Rio é um fenômeno. Ao menos, a expectativa que se criou até seu lançamento e a repercussão mundial de sua estreia testemunham um enorme sucesso que agora repercute em cifras. Segundo o jornalista Dean Goodman, de Los Angeles, a animação figurou no topo das bilheterias mundiais já em seus primeiros dias. Foram arrecadados 55 milhões de dólares no final de semana após sua estreia (8/4), informa a reportagem da Reuters.

Saldanha, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, comenta que “a ideia é vender o Brasil para o mundo”. A fala consta em entrevista realizada por Luiz Carlos Merten que já adiantava três semanas antes da estreia que Rio seria um marco na distribuição de títulos no país. Mil salas exibiriam o filme já no seu primeiro dia de cartaz aponta a matéria.

Segue em São Paulo.


Box Cinemas
Se na crítica de Bravura Indômita (18/2) registramos a transparência do Box Cinemas em relação aos impostos dos ingressos, apontamos agora um péssimo hábito: nas salas do complexo de Itaquera, é comum as luzes serem acesas alguns poucos segundos após a última cena, quando os créditos estão a subir, atrapalhando quem gosta de acompanhar a fita até o final.

fotos: divulgação/reprodução 

atualizado em 25.mar.2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Caminhos

Há um ano, retratei neste espaço o trabalho operário de formigas no Parque do Carmo. Por coincidência, na última terça-feira, 30/3, deparei-me com outro belo inseto fotogênico. Nossos caminhos estavam cruzados.

fotos: Danilo Vasques/30.mar.2011

A imagem revela que aparentemente a ciclovia Caminho Verde, na zona leste de São Paulo, é democrática: cabe a quem quiser pedalar, correr, caminhar. Na altura dos 6,3 km, a pequena Joana, como tomei a licença de nomeá-la, seguia firme em sua jornada. Mesmo com a máquina fotográfica à frente e outros obstáculos a driblar, ela não reduziu os passos. Fiz uma série de retratos que reparto aqui.
 

Homem X máquina  
Caminhei os 12 km da ciclovia, que acompanha a avenida Radial Leste e liga os bairros de Itaquera e Tatuapé, em aproximadamente 2 horas (média de 6 km/h a passos rápidos ou 1 quilômetro a cada 10 minutos). À volta embarquei num trem, Expresso Leste, que fez o mesmo percurso (os trilhos e a ciclovia são praticamente ladeados) em exatos 9 minutos e meio, aproximadamente 1 quilômetro a cada 47 segundos.


Movimento
Na foto abaixo, outra composição da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos cruza o bairro da Patriarca sentido Centro e dialoga a seu modo com os movimentos sugeridos da placa da ciclovia e com as casas e árvores a observarem sua passagem.  


Degradação
Abaixo, registro da estação ferroviária da Vila Matilde, hoje desativada. O tempo, o vandalismo e o abandono oficial tem deteriorado a velha parada situada em viaduto homônimo sobre a Radial Leste, uma das principais vias da cidade.


Outono
Folha seca e estrelada confirma que o outono chegou a São Paulo (a estação teve início às 20h21 do último domingo, 20/3):


Todas as fotos são de autoria de Danilo Vasques. 
Agradecimentos à Jéssica Maia, do Publicidade em Rosa, por sua máquina fotográfica.