quinta-feira, 24 de março de 2011

Jornalistas de campo

O jornalista Andrew Higgins registra que na cidade japonesa de Ishinomaki, o jornal local Hibi Shimbun teve suas letras impressas com tinta de caneta preta grafadas à mão em folhas grandes de papel branco. Em artigo publicado no Washington Post na última segunda-feira, ele anota que o único jornal da região enfrentou à moda "antiga" a pane elétrica e digital provocada pelos tremores seguidos de tsunami que abalaram o Japão em 11 de março. Sem acesso à internet, telefones 3G, gasolina, gás e energia, a equipe do periódico viu-se à deriva e recorreu à produção artesanal de sua publicação. "Ao contrário da mídia moderna, o método funcionou" assinala o artigo (em inglês).

Higgins conta que o editor-chefe do Hibi Shimbun, Hiroyuki Takeuchi, dormiu por dez dias seguidos na redação do jornal em consequência da tragédia. Takeuchi, que organizou com os colegas as folhas manuscritas e as distribuiu em centros emergências de ajuda, comentou que os sobreviventes estavam "desesperados por informações". Alguns dias depois, a eletricidade voltou e os computadores puderam ser religados permitindo que o jornal retornasse à uniformidade dos teclados e das impressoras. A primeira edição manual foi produzida no dia 13.

Em Ishinomaki até ontem a internet não funcionava. De acordo com a versão impressa do jornal O Estado de São Paulo (24/3, página A21), até a última noite 209.354 residências da região norte do país estavam sem luz. O periódico espanhol El País, em reportagem com agência internacionais, registra que até a madrugada 16.501 pessoas estavam desaparecidas no Japão por causa da catástrofe. O jornal aponta que a polícia japonesa estima em 9.700 o número de mortos, cifra que tem crescido exponencialmente a cada dia. As estimativas sugerem que o total de vítimas ultrapasse a casa dos 25 mil, segundo a reportagem (em espanhol).

É sintomático que o resgate da escrita jornalística à tinta de canetas hidrográficas, com pontas de feltro (espécie de canetão), tenha ocorrido em uma cidade japonesa, ainda que por poucos dias. O fato acontece às margens de uma nação que se viu envolta nas últimas seis décadas por uma frenética modernidade que desde seu início paradoxalmente dialogou com uma forte presença de tradições ancestrais, em alguns casos, com aspectos seculares. O Japão é um dos principais polos de produção e desenvolvimento tecnológico do planeta. Notícias advindas de lá sobre os avanços no campo da interatividade humana-virtual costumam pulular na mídia mundial que não raro repercute as novas invenções tecnológicas de Tóquio e proximidades. O novo e o antigo, em termos simplificantes, coexistem naquele país.

O jornal escrito manualmente, rústico e temporariamente despido das modernas ferramentas de publicação e compartilhamento e a nulidade da ponte com a web sublinha a produção de notícias e a transmissão de informações como o alicerce de uma profissão que não se confunde com a máquina. Higgins elege para o início do último parágrafo o depoimento de Yutaka Iwasawa, 25 anos, que mora em Ishinomaki, nordeste do Japão, próxima ao mar e uma das primeiras a serem atingidas pelo tsunami. Resume Iwasawa, operador de empilhadeira, que "viver sem eletricidade ou água e não muito alimento é bastante difícil". Convivendo sem internet, ele pontua que ao longo dos desdobramentos da tragédia "o pior foi que não havia nenhuma informação."

Tão logo, a produção manual e sensível do Hibi Shimbun respondeu aos anseios por notícias de uma sociedade que mediante o desastre, enfrenta com parcimônia os poucos recursos disponíveis e resiste com paciência e solidariedade às intempéries. A pequena equipe do jornal, anota Higgins, teve um dos seus seis jornalistas arrastado pelas águas. Ele sobreviveu, encarou hospital e depois de alguns dias estava de volta ao trabalho. Tudo pelo direito à informação.

Google Street View/reprodução
Antes da tragédia: ciclista (ao fundo) passeia por rua de Ishinomaki em 2009

quarta-feira, 23 de março de 2011

Dois anos

Na noite de 23 de março de 2009 inaugurávamos este espaço. A primeira postagem, Aproxime-se, publicada às 21h41 daquele dia, trazia uma apresentação que divagava sobre o ato de criar. Posteriormente foi encurtada para poucas linhas e o texto original, apresentado inicialmente num jornal de Diadema, deixamos disponível a apenas um clique. Minutos depois, às 22h05 daquele 23, tornamos públicas nossas impressões sobre o show que o Radiohead havia feito em São Paulo no dia anterior.


De lá para cá, totalizamos 106 postagens, média de uma publicação a cada 6 dias e meio (mas com periodicidade variada), mesclando textos, fotografias, músicas, vídeos e desenhos. Em novembro de 2009 assumimos o nome definitivo do blog, Café de Outubro, que por ora apresentávamos como "Arte, Jornalismo e Afins". Alteramos seu design algumas vezes à tentativa de aperfeiçoar a legibilidade, aprimorar a interação com o leitor, facilitar o acesso ao conteúdo e propor uma disposição gráfica que resulte em eficácia e respalde uma estética que julgamos apropriada.


Agradecemos todas as visitas que recebemos e as que eventualmente venham a ocorrer. Somos gratos por todos os comentários, críticas, parcerias e sugestões. Ficamos contentes pela interação que percebemos e entendemos que você, leitor, é a nossa principal razão de aqui estarmos. Esperamos cada vez mais proporcionar um conteúdo que dialogue com as expectativas de quem acessa o Café de Outubro e com a nossa prima proposta de articular um jornalismo ético e responsável, produzir literatura e versar livremente (não apenas textualmente) sobre assuntos variados. Comprometemo-nos a manter o rigor e a seriedade até aqui apresentados em nossa lida que, ao cabo de dois anos, entendemos que está ainda no começo.


Obrigado.

terça-feira, 22 de março de 2011

The Beatles - Please Please Me


Primeiro álbum dos Beatles lançado em 1963

Em formato mono, há 48 anos era lançado o disco Please Please Me, o primeiro álbum dos Beatles. Quatro dias depois, ainda no Reino Unido, sairia sua versão estéreo, permitindo uma audição mais encorpada. A banda já havia soltado algumas músicas de trabalho no ano anterior, entre elas, a própria Please Please Me e Love Me Do. Contudo, é o álbum lançando em 22 de março de 1963 que inaugura a discografia oficial daquela que seria a mais importante banda do mundo. 

O quarteto grava Love Me Do em registro da época

Naquele ano, poucos meses depois, do lado de cá, no norte, o álbum seria lançado com capa alternativa e os EUA não tardariam a receber os músicos já no começo do ano seguinte, 1964. No Brasil,  alguns meses depois, as lojas apresentariam as 14 canções de Please Please Me dispostas em EPs independentes. A banda duraria até 1970, mas os ecos da sua revolução cultural seriam ouvidos e sentidos de modo como nunca dantes e a posterioridade seria só mais uma de suas características.

capa do disco: divulgação/reprodução
crédito da foto: Dezo Hoffmann/UK/thebeatles.com/divulgação/reprodução



Veja reproduzido na rede o grupo cantando Please Please Me:



terça-feira, 8 de março de 2011

Carnaval

"Eis que se-levantam já no horizonte os signaes da tormenta destinada a afugentar os tímidos e irresolutos; dentro de pouco as nuvens negras despejam um novo diluvio; os trovões succesivos reboam nas quebradas dos montes.

"Chegou o momento solemne, e os foliões em seus carros engrinaldados e festivos hesitam.

"Mas a caridade é um fogo que abraza. A voz de — avançar — partiu de um coração cheio de amor e, os valentes soldados se-atiraram ao mais duro da refrega.

"A lucta foi renhida e brilhante; as flores perderam sua louçania, as gentis senhoras sacrificaram seus enfeites mimosos; mas por entre as massas d'agua e as rajadas de vento, marcharam os anjos da caridade garbosos e denodados."

A chegada do Rei Momo no carnaval serrano de 1934

Os trechos acima foram publicados em 21 de fevereiro de 1888, na edição de nº 11 do Correio Imperial, em Petrópolis, Rio. A Batalha D'Água correspondia a uma festa popular recortada da cidade carioca onde o Imperador Dom Pedro II costumava se refugiar em longas férias. Não por acaso a região serrana prosperou e passou a figurar ao longo dos séculos XIX e XX como um local promissor: os ecos da família real eram um chamariz para o desenvolvimento local. Um adendo: o jornal era editado pelos príncipes d. Pedro, d. Luis e d. Antônio, filhos da Princesa Isabel.

Repeteco

Interesse perceber as semelhanças entre as capas da edição do último aniversário da revista Rolling Stone, versão nacional de outubro de 2010, e de duas estrangeiras da Esquire publicadas no final 2006 e setembro de 2008.



A análise não é minha. A pesquisa foi realizada por Daniela Vasques, designer gráfica e diagramadora de revistas e livros. Foi ela quem notou as características em comum e publicou em seu blog. Para ler clique aqui


Se quis saber sobre o sobrenome: é minha irmã.

fotos: reprodução/divulgação.

atualizado às 15h44 de 28.abr.2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Armazém

Entre os dias 4 de outubro e 11 de novembro de 2006, a paranaense Armazém Companhia de Teatro, com sede no Rio, montou em São Paulo sua versão para Toda Nudez Será Castigada, do texto de Nelson Rodrigues. Eu havia acabado de ler uma gasta edição do original e, somando ao que vi no palco, escrevi à época uma crítica como atividade de uma das disciplinas da pós-graduação. Resgato cá o texto original, jornalístico, para compartilhar sensações daquele momento e também difundir um pouco de minha produção acadêmica. Para acessar ao texto, basta clicar aqui.