O jornalista Andrew
Higgins registra que na cidade japonesa de Ishinomaki, o jornal local
Hibi Shimbun teve suas
letras impressas com tinta de caneta preta grafadas à mão em folhas
grandes de papel branco. Em artigo publicado no Washington Post na
última segunda-feira, ele anota que o único jornal da região
enfrentou à moda "antiga" a pane elétrica e digital provocada pelos
tremores seguidos de tsunami que abalaram o Japão em 11 de março.
Sem acesso à internet, telefones 3G, gasolina, gás e energia,
a equipe do periódico viu-se à deriva e recorreu à produção
artesanal de sua publicação. "Ao contrário da mídia moderna,
o método funcionou" assinala o artigo (em inglês).
Higgins conta que o
editor-chefe do Hibi Shimbun, Hiroyuki Takeuchi, dormiu por dez dias
seguidos na redação do jornal em consequência da tragédia.
Takeuchi, que organizou com os colegas as folhas manuscritas e as
distribuiu em centros emergências de ajuda, comentou que os
sobreviventes estavam "desesperados por informações".
Alguns dias depois, a eletricidade voltou e os computadores puderam
ser religados permitindo que o jornal retornasse à uniformidade dos
teclados e das impressoras. A primeira edição manual
foi produzida no dia 13.
Em Ishinomaki até
ontem a internet não funcionava. De acordo com a versão impressa do jornal O
Estado de São Paulo (24/3, página A21), até a última noite 209.354 residências da
região norte do país estavam sem luz. O periódico espanhol El País, em reportagem com agência internacionais,
registra que até a madrugada 16.501 pessoas estavam
desaparecidas no Japão por causa da catástrofe. O jornal aponta que
a polícia japonesa estima em 9.700 o número de
mortos, cifra que tem crescido exponencialmente a cada dia. As
estimativas sugerem que o total de vítimas ultrapasse a casa dos 25
mil, segundo a reportagem (em espanhol).
É sintomático que o
resgate da escrita jornalística à tinta de canetas hidrográficas,
com pontas de feltro (espécie de canetão), tenha ocorrido em uma
cidade japonesa, ainda que por poucos dias. O fato acontece às
margens de uma nação que se viu envolta nas últimas seis décadas
por uma frenética modernidade que desde seu início
paradoxalmente dialogou com uma forte presença de tradições
ancestrais, em alguns casos, com aspectos seculares. O Japão é um
dos principais polos de produção e desenvolvimento tecnológico do
planeta. Notícias advindas de lá sobre os avanços no campo da
interatividade humana-virtual costumam pulular na mídia mundial
que não raro repercute as novas invenções tecnológicas de Tóquio
e proximidades. O novo e o antigo, em termos simplificantes,
coexistem naquele país.
O jornal escrito
manualmente, rústico e temporariamente despido das modernas ferramentas de publicação e compartilhamento e a nulidade da ponte
com a web sublinha a produção de notícias e a transmissão de
informações como o alicerce de uma profissão que não se confunde
com a máquina. Higgins elege para o início do último parágrafo o
depoimento de Yutaka Iwasawa, 25 anos, que mora em Ishinomaki, nordeste do Japão, próxima ao mar e uma das primeiras a serem atingidas pelo tsunami. Resume Iwasawa, operador de empilhadeira,
que "viver sem eletricidade ou água e não muito alimento é
bastante difícil". Convivendo sem internet, ele pontua que ao
longo dos desdobramentos da tragédia "o pior foi que não
havia nenhuma informação."
Tão logo, a produção
manual e sensível do Hibi Shimbun respondeu aos anseios por notícias de uma
sociedade que mediante o desastre, enfrenta com parcimônia os poucos
recursos disponíveis e resiste com paciência e solidariedade às intempéries. A pequena equipe do jornal, anota Higgins, teve um
dos seus seis jornalistas arrastado pelas águas. Ele sobreviveu,
encarou hospital e depois de alguns dias estava de volta ao trabalho.
Tudo pelo direito à informação.
Google Street View/reprodução





