sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Virginia Woolf

As palavras de Mrs. Dalloway 

por Danilo Vasques

Virginia Woolf, em entrevista à Rádio BBC no ano de 1937, comentou que as palavras “vivem na mente e não nos dicionários”. Segundo o depoimento, apontado como único registro disponível de sua voz, seria por questões de porte semelhante que ela sentiria dificuldades em enxergar em seus pares um autor marcante, com potencial para se transformar em um nome atemporal – “Talvez a razão pela qual não temos um grande poeta ou romancista em nossos dias”. A relíquia integra o acervo da British Library no Reino Unido e consta em reportagem de Pedro García (em espanhol) publicada há três anos no diário El País.

Já na primeira década após a citada entrevista, passados seis anos de sua morte, o nome da autora entronava indiretamente a responsabilidade de ter subvertido as normas do romance tradicional como poucos. Em crítica publicada naqueles remotos anos na então Folha da Noite (11/5/1947), atual Folha de S.Paulo, Bernardo Gersen escreveria que a primeira impressão que o leitor desprevenido experimenta ao entrar em contato com um romance de Virgina Woolf é decepcionante. Para quem está acostumado à literatura consagrada, dizia, “ao se aproximar de algo diferente a perplexidade é inevitável”.

E mais: “Um dia abrirá Mrs. Dalloway de Virginia Woolf na tradução brasileira. No começo vai tudo bem. Decorridas dez, vinte páginas de espera, o leitor estaca: para onde nos estará conduzindo a autora? Eis o centro do problema: o leitor prepara-se sempre para ser conduzido a algum lugar. Fica ansioso para que a romancista inicie. Lê mais dez, vinte páginas – e nada. Continua na mesma. E assim continuará se não for uma leitor inteligente, se não mudar o estado de espírito com que pegou o livro. O choque vem daí: Virginia Woolf não se conformou ao molde cavado na imaginação do leitor. Ela não se dirigiu às suas ideias feitas, à sua sensibilidade romanesca. Virginia Woolf mostra-lhe em Mrs. Dalloway um outro espectro, outros aspectos da vida e do homem. E ela inicia o romance desde a primeira linha”.

“Mrs. Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores”. Eis a primeira linha.

Pouco depois: “Que frêmito! Que mergulho! Pois sempre assim lhe parecera quando, com um leve ringir de gonzos, que ainda agora ouvia, abria de súbito as vidraças e mergulhava ao ar livre, lá em Bourton. Que fresco, que calmo, mais que o de hoje, não era então o ar da manhãzinha; como o tapa de uma onda; como o beijo de uma onda; frio, fino, e ainda (para a menina de dezoito anos que ela era em Bourton) solene, sentido, como sentia, parada ali ante a janela aberta, que alguma coisa de terrível ia acontecer”.

São os primeiros momentos da obra lançada há 86 anos. Um imenso livro impresso em 180 páginas na tradução brasileira de Mario Quintana, 2006. O percurso não possui guia, trata-se de uma história em que a obviedade passa ao longe. O romance consiste na apresentação de um dia da vida de Clarissa Dalloway, a partir da manhã em que decide comprar as flores para a recepção que pretende àquela noite.

Tempo

No livro o tempo será diluído. O passado frequentemente revisitado se sobressairá frente ao presente – trata-se da imagem de uma casa cujas telhas nunca estarão totalmente postas ou de paredes rachadas que permitem a invasão do mundo externo. O futuro também adentrará pelos vãos sem qualquer cerimônia.

A ideia torna-se evidente no trecho em que uma jovem, Maise Johson, caminha pelo Regent's Park, Londres – o cenário da obra, e se depara com o casal Warren Smith. Ali os três tempos dialogam precisamente. Trata-se de uma passagem em que tal personagem se faz base para o exercício criativo da autora ao manejo preciso da construção temporal:

“Os dois pareciam esquisitos, pensou Maisie Johnson. Tudo parecia muito esquisito. Vindo a Londres pela primeira vez, para trabalhar com o tio em Leadenhal Street, e atravessando agora de manhã Regent's Park, aquele casal sentado deu-lhe um bom susto; a moça parecia estrangeira, o homem, tão esquisito; tanto assim que, quando fosse velhinha, haveria de lembrar-se de como caminhara pelo Regent's Park, certa linda manhã de verão, uns cinqüenta anos atrás. Pois tinha apenas dezenove anos e havia afinal encontrado o seu caminho, ao vir para Londres; e que esquisito aquele casal a quem perguntara o caminho, a moça que estremeceu e agitou a mão, e o homem, que terrivelmente estranho aquele homem”.

Septimus

O homem é Septimus, um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial que encontra sua razão nos delírios. Em sua mente esquizofrênica lemos um mundo mágico, sublime e triste. Sem sinaleiro, romance a dentro, passamos a compactuar com o personagem cuja trajetória irá conter traços próximos a biografia da escritora. A história se passa logo após o conflito e, como representação de uma Europa abalada, Septimus não terá saído ileso do front.

“Cascateando as suas notas, continuou a cantar, alto, com frescor, em palavras gregas, que o crime não existe, e, tendo chegado outro pardal, cantavam ambos, com voz prolongada e penetrante, em grego, dentre as árvores do prado da vida, à margem de um rio onde passeavam os mortos, que a morte não existe.” – sua mente falando. Se Clarissa, profunda antes de tudo, protagoniza a história e seu mundo privado é fundamental à trama, Septimus compõe a revolução, o avesso e a liberdade cujo ápice será irreversível e dramático. Ambos conversam diretamente com as margens da autora.

foto: George Charles Beresford/Imagem em domínio público/Wikimedia Commons
Aos vinte. Virginia Woolf em imagem datada de 1902

Suicídio

Woolf deu cabo da própria vida há setenta anos: morreu aos 59 em março de 1941. Pouco mais de três semanas após seu desaparecimento, seu corpo foi encontrado nas águas do rio Ouse, em Lewes, condado de Sussex do Leste, em 18 de abril daquele ano. Consta que a escritora deixou ao seu marido, Leonard, o bilhete que abaixo reproduzimos em tradução anônima:

Querido,
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V
.

Livro

A edição original de Mrs. Dalloway foi publicada em 1925 pela gráfica instalada pela autora e o marido nos porões de sua casa em Richmond, Londres. O livro é considerado por diversos autores como uma das principais obras literárias do mundo. Em 2005, para quem gosta de listas, a revista Time incluiu o trabalho de Woolf em sua seleção assinada pelos críticos Lev Grossman e Richard Lacayo (em inglês) para os 100 romances mais influentes a partir do ano de 1923 até aquele momento. 

Talvez Virginia Woolf atribuísse a posterioridade às palavras. Diria, por fim, que elas “vivem na mente e não nos dicionários”.



Mais na internet:

Manuscrito de Mrs. Dalloway, 1924. Na British Library.
Íntegra do livro (em inglês), com tradutor on-line.


acréscimo de informação: definição geográfica de Lewes, condado de Sussex do Leste, inicialmente apontadao como cidade. (17.12.2011)

6 comentários:

  1. Hola Danilo.
    Encantada de leerlo.
    Pienso que probablemente las voces que escucharía Virginia Woolf, serían debido a una enfermedad mental, que hoy día con un buen tratamiento, hubiera podido superarlas.
    Un abrazo desde Valencia, Montserrat

    ResponderExcluir
  2. Mesmo sem ter lido Mrs. Dalloway, posso dizer que seu texto nos leva a saber da profundidade que é a obra de Woolf. Sempre quando você fala do livro, tenho a impressão de ser algo único. Com certeza, quero conhecer.

    Parabéns.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  3. Hola, Montserrat!

    Soy grato por tu visita e felíz por tu comentario.

    Concuerdo, los problemas de su enfermedad serían possibles a un tratamiento; tu cuadro clínico se hizo conocido posteriormente. Hoy ciertamente hubiera podido superarlo.

    Gracías por tu interácion e interés.

    Besos, obrigado.

    ResponderExcluir
  4. Oi, Jé.

    Fico contente que meu breve texto tenha conseguido alcançar um pouquinho do livro. Profundidade, como você bem mencionou, é uma palavra que se adequada com certeza ao Mrs. Dalloway.

    Obrigado pela visita e pelo comentário tão interessado.

    Beijos, grato.

    ResponderExcluir
  5. Olá Danilo, como vai? Excelente , que texto !!! Perfeito!!Parabéns !!! Dá vontade de ler várias vezes, assim como a obra da Grande Virginia Woolf.

    Um abraço e uma Noite de Natal com alegria, carinho e paz.

    ResponderExcluir
  6. Oi Lau! Sua visita é sempre uma honra! Fico muito grato pelo comentário sobre o texto e agradeço os elogios tão generosos.

    Grande abraço e excelente Natal para você, sua família e amigos!

    ResponderExcluir