sábado, 25 de junho de 2011

X-Men: Primeira Classe

Filme resgata a saga dos mutantes em filme adulto e refinado

por Danilo Vasques

Um filmão. Mais do que uma adaptação cinematográfica de quadrinhos, novo longa da franquia evita excessos e no correr de aproximadamente 130 minutos apresenta uma história para quem gosta ou não de gibis. Trata-se de uma obra que, em meio a vilões e heróis mutantes, versa sobre humanidade, descobertas e aceitação do próximo; necessariamente, aceitação de si mesmo.

Com roteiro construído para o cinema, reconta o início da saga dos X-Men. Com adaptações e subversões ao universo das HQs, o filme consolida o encontro de Charles Xavier e Eric Lehnsherr. A amizade de ambos e a trincheira latente entre suas ideologias são pontuadas numa obra cujos efeitos especiais somam sem atrapalhar, o que se faz um triunfo, afinal.

James McAvoy (Xavier) contracena com Michael Fassbender (o jovem Magneto)

Dirigido por Matthew Vaughn, que declinara do convite para o primeiro da série realizado em 2000 por Bryan Singer, que contribui agora com o roteiro e a produção, X-Men: Primeira Classe mergulha em profundidade no universo psicológico de alguns personagens e permite uma releitura primorosa sobre os protagonistas que há décadas habitam a imaginação de milhares de leitores. Charles Xavier, jovem, enérgico é também um galante. Eric, carismático, poliglota e um forte. Serão ambos os dois polos entre a luta mutante e a convivência pacífica entre humanos. Eric, sem a carapuça de Magneto, arremeta: paz nunca foi uma opção.

Cinemão

Trata-se de um filme de ação, sofisticado e adulto que permite, por sua vez, espaço para passagens comoventes. Uma delas quando observamos Xavier disputar corrida com um jovem Hank McCoy (Nicholas Hoult), este, tímido sob os óculos, inicialmente leva um quê de Clark Kent. Xavier, sabe-se, ficará refém de uma cadeira de rodas mais cedo ou mais tarde. Outra: quando penetra a mente de Eric frente ao desafio de vê-lo mover uma gigantesca antena a quilômetros de distância. Os olhos marejados de ambos denotam a ligação que possuem.

O cinema é uma experiência incomparável e por isso retomamos ainda uma cena formidável para se ver na telona: um submarino içado aos ares pelos poderes de Eric. A cena está recortada no trailer. Extrapolar fronteiras, rever conceitos e rebater a forma aparente são algumas das ideias que permeiam a trama que angariou mais de 55 milhões de dólares na estreia norte-americana, em 3 de junho, segundo estimativa da página do Box Office Mojo, grupo que anota as bilheterias nos EUA e em outros países. 


Mais do que a investida em superpoderes, os quais estão lá, o filme lança mão de fortes expressões faciais, interpretações arrassadoras e diálogos introspectivos. Kevin Bacon encarna o vilão Sebastian Shaw com grandeza. James McAvoy, já espetacular em Desejo e Reparação, emprega carisma a Xavier, que num momento cômico enfatiza ao jovem McCoy: não toque em meus cabelos. Emma Frost, tão cultuada nos quadrinhos, ganha força com January Jones no papel da poderosa vilã. E por aí vai.

Jones interpreta a telepata Emma Frost

Magneto

Observo neste momento o rosto de Magneto na terceira página da segunda edição de uma minissérie em três partes lançada há dezesseis anos. “Tempestade de Fogo” é o título da história escrita pelo inglês Chris Claremont e desenhada pelo sul-coreano Jim Lee. Reencontrei o gibi para sublinhar o que notei já nas primeiras cenas do novo longa: Michael Fassbender mais do que fazer jus a um dos mais notáveis personagens dos quadrinhos, sublinha-o com parcimônia e carrega com esmero expressões que ora vão da raiva à comoção, da dor ao ódio, da impaciência à empatia. É a face de Magneto. 

O vilão em gibi de 1995 

O jornal espanhol El País chegou a anotar que Fassbender é “o melhor segredo guardado de X-Men(em espanhol). Para nós, ao passo que o filme reconta o início da saga dos mutantes, cometendo revisões, alterações e traçando novos paralelos, torna-se também o filme de Magneto. A construção do personagem, suas contradições e as emblemáticas pinceladas de seu caráter são trabalhadas com requinte. Por sua vez, o discurso do cruel Shaw, que aos poucos é apresentado, faz às vezes do eco do pensamento de Eric Lehnsherr.

Diálogos
Caso não tenha visto o filme, salte este tópico.

A sequência inicial é reveladora. O jovem Eric é separado da mãe por nazistas em um campo de concentração na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial. Sua raiva tamanha e o poder latente de controlar metais o faz entortar os portões do local. Trata-se da cena exibida em X-Men¹, o primeiro da franquia, há onze anos. Aqui temos o desenrolar da passagem em que se observa o primeiro contato de Eric com Shaw.

A trama é intercalada com momentos históricos reais. O ápice ocorre justamente no decorrer de um episódio da Guerra Fria. A Crise dos Mísseis de Cuba, a qual azedou ainda mais as rusgas entre a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e os EUA, em outubro de 1962, por isso também chamada pelos cubanos de “Crise de outubro”, é retratada aqui sob a tensão de uma disputa no Atlântico.

Os mutantes, na linha de fogo, tornam-se, por meio de uma jogada política, o principal alvo dos foguetes. A humanidade, representada nos militares, atacaria assim o grupo, alimentando a guinada terrorista e ideológica de Magneto. O vilão se apresenta.


Fim de semana

Para quem gosta de cinema, X-Men: Primeira Classe é uma opção encorpada entre os atuais cartazes. Para quem acompanha a série de adaptações de quadrinhos, também uma boa pedida; nada a dever aos fãs dos dois primeiros X-Men assinados por Bryan Synger. Em nossa opinião, o melhor filme da franquia.

Aparições

Duas pontas interessantes. Hugh Jackman retoma o rosto mutante em um bar. Rebecca Romijin, a Mística dos filmes anteriores, faz às vezes de si mesma em uma breve cena, deitada à frente de Eric.

Bancas

A Marvel Comics informa que em outubro deixará de publicar o gibi Os Fabulosos X-Men (Uncanny X-Men, no original), segundo notícia publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Editada desde 1963 e reformulada em diversos momentos, a série foi criada por Stan Lee e por Jack Kirby, dupla que seguiu no comando direto até 1967. A prometida edição derradeira será a de número 544. Os mutantes protagonizarão outros títulos.


¹ A tomada de abertura é uma recriação. Como sublinhamos na seção destinada aos comentários, abaixo da matéria.

X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class). De Matthew Vaughn (EUA, 2011). Com James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon. Ação. imagens: divulgação/reprodução 

texto revisado às 15h22 de 11/5/2012.

Se você gosta de adaptações dos quadrinhos para o cinema, não deixe de reler crítica sobre o filme Thor.

Veja também matéria sobre o fim da série Smallville, após dez anos das aventuras do jovem Superman.



3 comentários:

  1. Realmente um filmaço! Vale um repeteco no cinema, sensacional!!!

    Ótimo texto, Nilo.

    Beijos.

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  2. Oi, Jéssi!

    Obrigado pelo comentário, sei que você também gostou do filme! Concordo com o repeteco e agradeço seu elogio. Valeu. Beijos.

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  3. Uma ressalva: no nono parágrafo, quando mencionamos a sequência inicial em um campo de concentração na Polônia, apontamos que se trata da cena exibida no filme X-Men, de 2000. Sim, contudo, ressaltamos aqui que parte dela foi reconstruída e atualizada para X-Men: Primeira Classe, substituindo-se, por exemplo, o ator que representa o jovem Eric.

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