sexta-feira, 13 de maio de 2011

Smallville

Clark Kent, finalmente, assume o papel do mítico herói

por Danilo Vasques

Chega ao fim Smallville. Após dez anos de aventuras do jovem Superman, a televisão norte-americana programou para a noite de hoje o último capítulo da série. Em episódio duplo, o destino de Kal-El será finalmente anunciado e o personagem findará a jornada que antecede os seus voos pela vida adulta. O homem de aço encara, enfim, o mito que lhe pertence.

Demorou uma década para que o antes estudante do Kansas, agora beirando os trinta e já repórter, vestisse para não mais abandonar o uniforme rubro-azulado que marca as histórias do mais famoso personagem dos quadrinhos. Para quem não conhece, a série estabeleceu uma narrativa dos anos adolescentes até o começo da vida adulta de Clark Kent, ressaltando os conflitos do seu alterego humanizado. Grande parte dos desafios tinham mais a ver com dramas que não precisavam de  superforça ou visão de raio-X para serem enfrentados.

Ser demasiadamente humano não sendo terrestre sempre foi uma das principais virtudes do Superman. Quando Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o personagem e publicaram sua primeira história em junho de 1938 iniciaram ali a saga de um herói que viveria angustiado e solitário, ao mesmo tempo em que a sua imagem estaria estampada em cada canto do planeta. Clark Kent, como bem citado nas adaptações para as telas, teria na solidão seu trunfo e sua tristeza; paradoxalmente, jamais estaria de fato sozinho: lição que os pais humanos, Jonathan e Martha Kent, sublinhariam com destreza.

Não à toa, o seu refúgio e principal escola levaria o nome de Fortaleza da Solidão. Na série, o memorável encontro do herói com o seu “iglu de quarenta andares”, nas palavras de uma simpática  Chloe Sullivan, a amiga repórter criada para o seriado, acontece no primeiro episódio da quinta temporada. Interessante relembrar que certa vez, Jonathan chamou pelo mesmo nome o celeiro onde o filho adotivo passou grande parte do seu tempo.

a espetacular Fortaleza da Solidão recriada em Smallville

Diálogo
 
Há dez anos, quando estreou, o mercado editorial dos gibis adaptava-se ao período pós-queda das vendas nos anos 1990. Smallville resgatou o herói para uma geração que cresceu em meio ao computador e não tinha o hábito das bancas. Por outro lado, os leitores de gibi (e também os espectadores multimídias) encontraram no seriado uma proposta inovadora para o S mais famoso do século XX. Os roteiros foram desenvolvidos com liberdade de interpretação do mito e as transformações por quais passou o protagonista mantiveram independência editorial.

Sem necessariamente recriação do material já conhecido, o seriado apresentou ao longo das temporadas uma variada gama de citações implícitas, explícitas ou até mesmo literais (como reprodução de trechos de filmes¹). A construção de histórias repletas de autorreferências e com menções constantes ao universo ao redor do herói foi um dos pontos mais bem sucedidos da adaptação para a televisão. Ao mesmo tempo, Smallville representou com independência um painel alternativo aos primeiros anos do Superman.

Para muita gente, principalmente às gerações que nasceram no final dos anos 1980 e começo dos 90, quando se fala em Clark Kent vem à mente o rosto carismático do ator Tom Welling, o protagonista da série.

Tom Welling como Clark Kent; ao fundo, a atriz Allison Mack

Desandada

Entretanto, se Smallville leva créditos por estabelecer o herói a um novo público, lembramos que o seriado não conseguiu acompanhar parte dos telespectadores iniciais. Com intenção de suprir uma crescente demanda que nos cinemas e nas livrarias assumia os lucros de um universo mítico, mágico, vampiresco e juvenil, a série limou suas arestas e voltou-se com ênfase após a sexta temporada a uma faixa etária particular em constante transformação, desagregando parcela do público adulto que insistia na madureza do herói e na evolução da trama. O lado sombrio de Clark Kent, tão bem explorado até meados do seriado, deu vazão a uma carapuça estilizada em um sobretudo preto que não combinava com as cores vivas que marcaram os primeiros anos de Smallville.

Luthors, pai e filho, foram postos de lado na trama. A pacata e forte Martha Kent, na série interpretada por Annette O' Toole,  tornou-se senadora e passou a atuar veladamente sob o apelido de Rainha Vermelha, título que poderia dialogar com o romance de Lewis Carroll. Clark virou um herói sombrio agindo às sombras e ficou ladeado pela crescente campanha de valorização da aclamada Liga da Justiça. O jovem Superman recebeu contornos obscuros que interagiam, de algum modo, com o sucesso global angariado pelo Batman de O Cavaleiro das Trevas, filme dirigido por Christopher Nolan.

Além disso, os episódios que correspondiam às descobertas do crescimento passaram a concorrer com uma vida madura fragmentada. De repente, a primeira namorada, aquela com que Clark perdera a virgindade e cujo passado lúdico já não garantia audiência, ganhou status de superespiã e, não pouco, na sexta temporada estava casada com o arquirrival, o amigo que se transforma em inimigo, Lex. Para completar, o Arqueiro Verde, um personagem secundário na carreira de Superman, passou a ser coadjuvante de peso no seriado. Ademais, o apelo sensual e tecnológico ganharam contornos exagerados no seriado. 

 Lois Lane na série interpretada pela atriz Erica Durance

Retomada

Até que no último capítulo da nona temporada, Clark libertou-se da febre ao mandar para o espaço a ameaça rediviva do General Zod, que já havia aparecido na quinta e na sexta temporada. A sequência começa em meio à chuva entrecortada por raios solares. Lois Lane salva, entre aspas, o herói e as cores ressurgem a partir daí. Inicia-se o turno ao futuro, como apontado num dos primeiros episódios da vez, quando o protagonista viaja anos a frente até se deparar consigo voando. Vê ainda a sua imagem impressa numa capa do Planeta Diário, o famoso jornal. A partir da décima temporada, sai o traje de  Neo, do Matrix, e volta o azul característico. No último episódio, Lex Luthor também retoma as feições que lhe cabem a despeito da insistência boba da presença de clones que marcaram as duas últimas temporadas: o ator Michael Rosenbaum retorna ao papel.

Da roupa do Superman, um recorte. A cena em que Clark recebe a fantasia presenteada pela mãe impressiona: vemos o símbolo vermelho e amarelo, as cores dos sóis que encimam Kal-EL, refletido nos seus olhos claros ao abrir o pacote deixado por ela. Não é somente o uniforme, é o destino do herói selado naquele momento. Uma curiosidade: o símbolo do Superman tem sido adaptado ao longo dos mais de setenta anos de sua história. No início trazia um S que mal cabia dentro de um triângulo amarelo. A última transformação de abrangência global foi acentuada em 2006 no filme dirigido por Bryan Singer com Brandon Routh no papel principal. Na ocasião, teve seu tamanho reduzido em comparação aos uniformes anteriores, o vermelho recebeu uma tonalidade mais escura e as formas ganharam relevo. É a versão reproduzida na vestimenta da série.


Jornada

Ao cabo de dez temporadas, o telespectador finalmente tende a encontrar o consagrado herói que pulula na imaginação. Havia um acordo tácito de que até o derradeiro episódio Kal-El não encorparia na totalidade o Superman que lhe é de direito. Os voos, tão tradicionais, foram raros e quando aconteciam eram motivados por questões específicas. Os demais poderes foram apresentados aos poucos. A construção do herói, apelidado nas últimas temporadas como Borrão (Blur, no original), foi paciente e repleta de inconsistências, dúvidas e certezas.

Porém, a essência benevolente e às vezes altruísta, a inclinação para a ética e a justiça antes de tudo, a valentia (“não é uma coisa que se aprenda”), além da força de um caráter inabalável foram destacadas desde o primeiro capítulo. Clark Kent, de Smallville, confirma, por fim, a grandeza do alienígena mais humanizado de todos. Excelente. Em meados da série, John, o marciano que entre outros nomes é conhecido como Ajax, arremata: enquanto a humanidade é a sua maior força, também é a sua maior vulnerabilidade.

Danilo Vasques/13.mai.2011
 modelo veste camiseta promocional da série

Smallville estreou em 16 de outubro de 2001 nos EUA. No Brasil é veiculada pelo SBT e está em recesso após a oitava temporada; o canal pago da Warner exibe a temporada final.

¹ Para ilustrar, ressaltamos aqui três cenas reproduzidas literalmente: A queda de Kripton, do Superman, o filme (1978); os disparos de mísseis nucleares no final de O Exterminador do Futuro III – a rebelião das máquinas (2003) e a zona baixa de Gothan City, de Batman Begins (2007).

fotos da série: reprodução de TV

Se você curte adaptações de HQ para os quadrões luminosos, não deixe de ler aqui, na próxima terça-feira, crítica sobre o filme Thor.


 


Marciano Vasques comentou:

“Danilo, gostei muito dessa série, embora, naturalmente, não tenha assistido a todos os episódios. Mas o Superman talvez seja o mais extraordinário personagem de HQ no repertório dos poderosos. A sua própria origem é por demais inspiradora. E essa série humanizou o personagem, o que talvez revele uma tendência nesse universo, tal como já ocorre com o Homem-Aranha. O personagem central de Smallville é carismático, com um viés de profunda sensibilidade filosófica e nada caricatural. Parabéns pelo artigo.”

“Um dos episódios que eu mais gostei e foi marcante para mim é aquele em que a jornalista adquire o 'dom' de adivinhar, de saber quando as pessoas estão mentindo, ocultando algo, e os entrevistados passam a falar sem controle, revelando coisas que causam as maiores confusões.” 

Smallville na avaliação dele: excelente. 

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Daniela Vasques comentou: 

"Grande série! Grande herói! Como curti Smallville, nossa! Pena ter parado de acompanhá-la com frequência após o quinto ano, acho que quando a série tomou rumos que me dispersaram um pouco. Talvez seja tempo de eu finalmente assistir as temporadas que faltam. Parabéns pela postagem! Achei um texto muito gostoso de ler, além de bem informativo."

"Tantos episódios marcantes, difícil escolher... mas vou citar três momentos: o final da 3ª temporada - incrível, a primeira "aparição" da Fortaleza da Solidão e um episódio em que o Lex está confinado numa sala, com camisa de força, sendo observado pelo Lionel através de um vidro, enquanto toca a música Hurt com Johnny Cash. Me-mo-rá-veis!" 

Smallville na avaliação dela: excelente. 

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correção ortográfica à 1h34 de 21.nov.2011
atualizado às 19h04 de 23.jun.2011

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