quinta-feira, 14 de abril de 2011

Rio


Técnica é exuberante e filme voa sem decolar

por Danilo Vasques

Uma arara-azul macho nascida numa floresta tropical é raptada e se torna vítima do tráfico de animais. Engaiolada, o destino lhe permite uma brecha e sua vida vai se desenvolver sob o aconchego de uma casa na frienta Minnesota (EUA), ou “Microssota”, como diz na versão em português a única fêmea da espécie. São os pássaros Blu e Jade, os protagonistas que terão suas vidas cruzadas e acorrentadas numa aventura que está em cartaz nos cinemas mundo afora.

Rio é uma animação em 3D, com versões também para projeções em 2D, dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha, o homem por trás das edições de A Era do Gelo (codiretor do primeiro e diretor das duas sequências). Narra a saga de Blu que cresceu domesticado sob o zelo de uma graciosa moça, Linda, cujo o amor desenfreado pelo animal acabará revirando sua calma vida entre livros e café. É uma obra que versa sobre descobertas e fugas, coragem e determinação.

O filme nos segura pelos olhos. A dança de abertura, uma explosão de cores que se mistura com uma encantadora fauna é de suspender o fôlego. A construção visual dos elementos que compõe o longa, personagens, objetos, cenários... reflete um nível de detalhamento contumaz. Por exemplo, a penugem dos pássaros é tão realista quanto parecem fotografias as paisagens do Rio de Janeiro, visto do alto ou de perto. Tudo ali foi desenvolvido em poderosos computadores da Blue Sky, empresa de animação que tem Saldanha como sócio.

Produzido em parceria com a 20th Century Fox e com orçamento de 90 milhões de dólares, o longa de 96 minutos avança significadamente no campo do desenvolvimento de técnicas de animação. Uma das sequências mais comentadas tem sido o desfile de carnaval. A equipe da Blue Sky desenvolveu softwares capazes de trabalhar o jogo de luzes e contrastes com bastante realismo vários feixes percorrem as dimensões do sambódromo e se espalham reverberando luminosidade e sombras em todos os personagens e objetos inseridos na cena (leia mais abaixo).

É um espetáculo visual.

Já na história, Rio não segue além dos tipos consagrados em um recorrente imaginário popular. Os vilões têm jeito de vilões. Os mocinhos parecem mocinhos. A trama é boa, eficiente, mas não se aprofunda além da saga de Blu. Tudo bem! Funciona e permite ao telespectador viajar com pássaros e asas-deltas. Uma fantasia que dialoga com a Disney dos anos 1950, Zé Carioca e também Carmem Miranda.


Social
Na borda, vemos refletidos os contrastes sociais do Rio de Janeiro. Figuram também o tráfico de animais e o jogo de poderosos (sobretudo a cacatua ou o chefe do bando de ladrões bonachões) contra os subjugados – e, claro, veremos também a inversão de poderes. O longa prega a união como passaporte para a força e arrisca que as respostas e a coragem devem ser procuradas principalmente dentro do ser, seja ele pássaro ou humano.

O contraponto acontece fora da sala de cinema. A estreia ocorreu pouco mais de 24 horas após o massacre em uma escola pública em Realengo (RJ). Fatos que não concorrem, mas que anotam o limiar entre a fantasia e a realidade. O Rio retratado no filme está um pouco distante de ser o cenário ocupado pelas câmeras de Tropa de Elite. Não é o mesmo chão da pedregosa via de Nascimento, como anota artigo publicado neste espaço na ocasião do cartaz de Tropa 2, filme que estrou em 300 salas e é a maior bilheteria do país até o momento.

Na jornada do Blu, veremos a redenção também ter vez. Ela está na figura do menino, cuja infância maltratada e sombreada pela violência urbana tão gritante é preservada em meio ao caos e a orfandade que o cercam. A infância e sua grandiosidade, por fim, prevalecem.

Contudo, se Rio fala sobre crescimento – o voo necessário e a princípio inatingível de Blu é também um exercício de madureza –, não se traduz em um filme só para crianças. Tanto não que dá um tapa, de leve, na polícia e nos protagonistas da segurança, seja ela representada na figura do agente que guarda a ONG para onde as araras-azuis são levadas ou na conveniência com que os bandidos conseguem adentrar no sambódromo e botar um carro alegórico na avenida. Entra-se e se sai da avenida com igual facilidade. As instituições ali, como na vida real, não são palcos inabaláveis.

Carnaval
O carnaval do filme é uma grande festança. Contagia quem está dentro ou ao redor dos desfiles. Não é uma alegria murada, toca fundo num público carioca diverso, disposto seja sobre as construções malformes em morros ou cruzando a orla da praia. É um carnaval que repercute o "maior espetáculo da Terra", como sublinha o ornitólogo Túlio, o homem que imita os pássaros (dublado em português e em inglês pelo também brasileiro Rodrigo Santoro).

É inegável a dimensão que o carnaval suscita no brasileiro e o quanto se sustenta com glórias no exterior. A festa reproduzida na animação não problematiza a questão. Lembremos contudo que problematizar não é necessário ali: trata-se de uma aventura lúdica, afinal.

O passarinho amarelo, Nico, chapéu de tampa de garrafa, um quê do malandro cantor, romântico e um pouco ingênuo em sua malandragem, aquele tipo antigo dos Arcos da Lapa, que entende de samba e de poesia, esse já não cabe no carnaval atual. Jamelão já dizia que a festa agora está nos desfiles e que no fundo a alegria do folião, aquele da rua, anda apagada (TV Cruzeiro do Sul e revista Ocas”/ 2006).

O filme recorta justamente um carnaval estilizado e contagiante. É a imagem que se sobressai da avenida e que se repercute com soberania na mídia internacional. Segundo o jornalista Marcelo Bortoloti, Saldanha “construiu um Rio de Janeiro para estrangeiro ver, com natureza exuberante, samba, praia e sempre recorrendo a clichês”. A crítica foi publicada na versão on-line da Folha de S.Paulo.

Segundo anota reportagem da Veja (16/3, página 123), foram gastos quase 66 horas para produzir apenas o quadro final da cena em que o sambódromo aparece em plano aberto. Foram disparados mais de 2 bilhões de raios de luz para sua construção, de acordo com a revista. O desfile é lindo e suas cores vibrantes.

Bilheteria
Rio é um fenômeno. Ao menos, a expectativa que se criou até seu lançamento e a repercussão mundial de sua estreia testemunham um enorme sucesso que agora repercute em cifras. Segundo o jornalista Dean Goodman, de Los Angeles, a animação figurou no topo das bilheterias mundiais já em seus primeiros dias. Foram arrecadados 55 milhões de dólares no final de semana após sua estreia (8/4), informa a reportagem da Reuters.

Saldanha, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, comenta que “a ideia é vender o Brasil para o mundo”. A fala consta em entrevista realizada por Luiz Carlos Merten que já adiantava três semanas antes da estreia que Rio seria um marco na distribuição de títulos no país. Mil salas exibiriam o filme já no seu primeiro dia de cartaz aponta a matéria.

Segue em São Paulo.


Box Cinemas
Se na crítica de Bravura Indômita (18/2) registramos a transparência do Box Cinemas em relação aos impostos dos ingressos, apontamos agora um péssimo hábito: nas salas do complexo de Itaquera, é comum as luzes serem acesas alguns poucos segundos após a última cena, quando os créditos estão a subir, atrapalhando quem gosta de acompanhar a fita até o final.

fotos: divulgação/reprodução 

atualizado em 25.mar.2011

5 comentários:

  1. Hola Danilo:

    Seguro que es un palícula fantástica tanto para crianças como para mayores.

    Encantada de leerte.

    Beijos, Montserrat

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  2. Danilo,
    Seu artigo está excelente!
    Muito bom mesmo, e aprofunda com elegância alguns tópicos, e gostei do título, altamente sugestivo.
    Parabéns!
    Marciano Vasques

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  3. Obrigado, companheiros.

    Fico agradecido pelas palavras e pela visita! Vamos compartilhando nossas ideias aqui e acolá. Abraços.
    Danilo

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  4. Nilo,
    Sei que já havia comentado pessoalmente o quanto havia gostado dessa postagem, mas navegando agora pelo seu blog, lendo os últimos textos, caí novamente aqui e aproveitei pra reler e deixar meus parabéns, pois foi uma resenha muito, mas muito bem feita sobre o longa Rio. Aliás, a melhor coisa que li sobre ele desde seu lançamento.
    Bjo

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  5. Dan!

    Fico feliz com sua nova visita e com o comentário. Obrigado pelo elogio à postagem, fico agradecido e contente por saber que o texto agradou assim. Obrigado por reler! Beijos.

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