um conto de Danilo Vasques
Não sei se primeiro
bebi leite ou café.
Digo de cara que não
tenho inclinação por xícaras, nada contra também, quero dizer,
recordo-me quase sempre dos copos americanos, médios, com gotas de
torneira, embaçados com o vapor da bebida. Nas padarias, o danado
vinha sempre requentado. Em casa, dois bules por dia. Optei por
coador de papel porque sou prático. Quando me vejo pensando,
frequentemente um copo de café está ao meu lado.
Contudo – sempre uma
ressalva –, é um capuchino que hoje me falta ao paladar.
A primeira vez que
experimentei o tal já era moço, trabalhava e faltava aos
estudos para ir aos cinemas.
Gostava do óbvio, chocolate com café e leite. A canela nunca me atraiu e o açúcar valia apenas algumas passagens.
O fato é que nunca
consegui preparar o capuchino como você fazia, madrugadas em sua
casa. Quente, doce, ao ponto. Sinto ainda o aroma. Quando arrisco,
sempre erro em alguma coisa. Há noites, quando não consigo deitar,
que sua voz me persegue. Jorge, você não vem pra cama? Tento
responder e sinto pesar meu silêncio.
Três e meia, chuva no
telhado, a noite escorrendo. Vou tentar novamente. Empunho um copo, meço a água e boto
a ferver. Conto as colheres, misturo tudo, pouco doce. Dou o primeiro
gole e revejo frustado o rosto refletido no vidro espelhado da cristaleira do armário: o sabor jamais foi o mesmo.
A solidão me consola e
penso novamente: ser feliz é um exercício ingrato.
atualizado às 17h26
atualizado às 17h26
Buenas noches:
ResponderExcluir¿Y que le decia el Sr. Marciano, esto de que faltaba a los estudios para ir al Cine?
Que bueno el café capuchino ¿verdad?.
Un post muy simpático.
Um beijo, Montserrat
Hola, Montserrat!
ResponderExcluirGracias por tu comentario! Me alegra que haya gustádo del post.
En verdad, el texto es un cuento, una ficción.
El personaje se llama Jorge e él es una mi invención. No es totalmente biográfico. Pero, también me gustá mucho el cine, capuchino e otras cosas... risos.
Besos, muchas gracias.
Olá Danilo, delícia de conto...assim como o capuccino, que também nos faz relembrar bons momentos. Sou apaixonada por tamanha delícia. Aqui no Rio costumo comprar a mistura- já feita- no Café Hum (fazendo um merchandising, de leve).
ResponderExcluirDanilo, ser feliz pode ser um exercício ingrato, mas... "ser infeliz é que dá uma trabalheira.
É preciso entrar e sair dela,
afastar os que nos querem consolar,
aceitar pêsames por uma porção de alma
que nem chegou a falecer". Quem diz isso é o poeta Ramon Mello.E eu concordo.:)
Parabéns pelo conto!!
Um abraço.
Olá, Lau!
ResponderExcluirMuito obrigado por sua visita, fico feliz com este intercâmbio que temos entre blogs e histórias! Agradeço mais ainda seu comentário, suas considerações e por contar da predileção por cappuccino e por este pedacinho de tal café aí no Rio!
Obrigado também por apresentar as palavras de Mello.
Um abraço, boa noite!
Bonito triste conto! Parabéns!
ResponderExcluirDan! Fico contente que tenha gostado, muito obrigado pela leitura e pelo comentário.
ResponderExcluirBeijo.