sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Bravura Indômita


O tempo vai se afastando da gente. Tais palavras competem à narradora do filme Bravura Indômita (True Grit), cuja obsessão por uma vingança familiar suscita o mote da obra. A vingança, mascarada por um baleado senso de justiça, nutre a determinação inquebrantável da então jovem de catorze que não se demove um segundo do objetivo de confrontar o assassino de seu pai com seu derradeiro acerto de contas. O latente encontro com o carrasco é o pano de fundo para uma história recheada de suspense, aventura, drama e humor. Não obstante, encerra-se em uma obra reflexiva e profunda.

A jovem Mattie Ross, vivida pela atriz Hailee Steinfeld, também de catorze anos, não é boa com gatilhos. Em certo momento, menciona que se fosse talentosa com revólveres, escolheria uma arma que funcionasse. Contudo, se não leva jeito com os canos de pólvora, é afinada com o manejo dos verbos. Já no início do filme, revela-se que o poder de argumentação e a segurança na fala serão duas das principais ferramentas de persuasão que a garota vai impor ao longo de sua jornada.

 
Steinfeld contracena com Matt Damon que vive um Texas Ranger

Ross contrata um xerife de longa fama e em carreira decadente (ao menos, aparentemente), Reuben J. Cogburn, ora o Rooster Cogburn, interpretado pelo multifacetado e grande Jeff Bridges. A contragosto por parte dele, seguem juntos estrada afora. Completam o enlace as idas e vindas de um policial texano, um Texas Ranger caçador de recompensas, vivido por Matt Damon.

A convivência e seus conflitos internos limam a viagem da trinca por um território indígena usado como rota de fuga de bandoleiros. A densidade psicológica que envolve os três cresce ao longo do filme e torna-se, arriscamos dizer, a cúspide da trama. O compromisso vence as barreiras do dinheiro e a vingança passa a dialogar com o crescimento imediatista da menina, da percepção de que a justiça nem sempre é salvadora. A punição, que virá de uma forma ou de outra, como diz o cartaz de divulgação do filme no Brasil, estende-se além do carrasco. No fundo, ninguém sai ileso de uma tentativa de vingança (exceto talvez por Edmond Dantès...).


 
o cartaz promocional do filme no Brasil

Numa breve leitura, podemos ainda entender o trio como um interlaçamento das três fases do apogeu da vida de um ser humano. A juventude (já não infância) que pressupõe a madureza (o texano já adulto) e se completa na latente velhice (o xerife desgastado, cansado e bêbado, o qual, em contraponto, mostra-se um guia com sua mira polida). São três tempos de uma bravura indiscutível, uma coragem desmedida. E o tempo, já anotamos, vai se afastando. O final repercute bem essa ideia, do tempo que se afasta, quando as estrelas situam-se acima do destino cruzado de Ross e Cogburn.

Adaptação
A trama ocorre na segunda metade do século dezenove, período em que o direito civil e o criminal ganhavam contornos mais próximos da nossa contemporaneidade e a infância ainda não era observada como hoje – a criança estava mais para um pequeno adulto do que propriamente para uma criança. Bravura Indômita, a versão dos irmãos Joel e Ethan Coen, dialoga perfeitamente com os Westerns clássicos. Remonta a um faroeste de essência.

Bravura Indômita não é propriamente uma refilmagem do célebre filme de 1969, dirigido por Henry Hathaway e estrelado por um consagrado e envelhecido – no melhor dos sentidos – John Wayne, aquele que Merten chamou de o "maior caubói do cinema" (OESP, 11/2/11). O papel do xerife Cogburn rendeu a Wayne um Oscar que ele recebeu comovido. Os irmãos Coen assinam o roteiro e levam às telas um filme autônomo em que se pesa as leituras que tiveram do romance de Charles Portis, autor do best-seller que redundou em ambos os filmes e que chega ao país com capa dialógica com a recente versão cinematográfica – o livro é editado pela Alfaguara.

Gibi
Um saboroso gibi de 27 páginas narrando uma das primeiras passagens do filme pode ser baixado gratuitamente do site oficial de Bravura Indômita. Trata-se da adaptação em HQ da sequência em que Rooster Cogburn testemunha em um tribunal sobre sua abordagem em uma cena de crime e seu eminente confronto com o bando de suspeitos. O trecho marca o primeiro contato entre Mattie Ross e o xerife. Logo serão parceiros.



As ilustrações acima apresentadas foram recortadas do gibi intitulado "Bravura Indômita: um negócio pesado". O trabalho é uma adaptação do romance de Portis e do roteiro dos irmãos Coen – importante dizer que não se trata de um storyboard. A arte é assinada por Christian Wildgoose e as letras por Jim Campbell.


Fracos sem vez

Em tempo e não estreitando paralelos, só para não deixar preso na garganta, sublinhamos que vimos refletido em Bravura Indômita, assim de leve (sim, uma viagem), um tom seco, seja na paisagem ou no clima, já perceptível no premiado Onde Os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men), de 2007. Há ainda uma belíssima cena em que no mais recente acompanhamos um pônei tão corajoso quanto sua montadora (não por acaso ambos são jovens) a cortar um rio a nado – incrível. Naquele momento, repassou pela mente o cão furioso do primeiro a cortar nadando um riacho à caça de Josh Brolin, ator que atuou em ambas produções. Em Bravura Indômita, ele encara o vilão Tom Chaney e, aqui convenhamos, apresentado sob uma carapuça cruel e também carismática. Enfim, não levaremos as divagações adiante. Na opinião que nos cabe, são dois grandes filmes dos irmãos Coen.


 
Brolin na pele do ladrão e assassino Tom Chaney


Academia
 

Bravura Indômita concorre a 10 estatuetas no Oscar 2011, a ser realizado em 27 de fevereiro. Entre as indicações: melhor filme, melhor direção e melhor roteiro adaptado (irmãos Coen), melhor ator (Bridges) e melhor atriz coadjuvante (Steinfeld – conta-se que a jovem atriz foi escolhida para o papel entre 15 mil garotas que participaram dos testes). O filme segue em cartaz em São Paulo.

Box Cinemas

Interessante notar que a rede Box Cinemas tem optado por discriminar no ingresso os valores destinados aos direitos autorais. Transparência bem-vinda.



fotos: reprodução/divulgação
desenhos: Christian Wildgoose (arte) e Jim Campell (letras)

atualizado às 18h54 de 19.11.2011: exclusão de ticket do cinema

4 comentários:

  1. Hola Danilo:

    No he visto las paliculas.

    No se si en España, las estrenarán.

    Paso a saludarte y a darte la enhorabuena por la buena información que das en tu blog.

    Un abrazo, Montserrat

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  2. Gracias, Montserrat, gracias por tus palabras y visita.

    Me alegra saber que mi trabajo sobre las películas valió a usted.

    Obrigado.
    Abrazos.

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  3. Um grande filme, sem dúvidas.

    Você abordou o filme sutilmente, além de assuntar sobre outros aspectos relacionados, fator que só enriqueceu o texto.

    Parabéns!

    Beijos.

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  4. Jéssica, obrigado pelo comentário. Fico feliz ao saber que o texto correspondeu ao que você achou do filme e que ainda gostou das referências.

    Agradeço a leitura e suas palavras.
    Beijos.

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