sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Penha
Cenários sobrepostos de um mesmo dia: a terça-feira passada, 21/12, repartida entre a tarde e a noite da Penha.
(para abrir as imagens, basta clicar sobre elas)
fotos: Danilo Vasques/21.dez.2010
Probo
Sem intenção de autopromoção, apenas para compartilhar, relato que às vésperas do Natal que há pouco se foi, participei, entre outros profissionais, da última edição da Palavra Fiandeira. Recorto um trecho do conto natalino por mim assinado e ali publicado:
"Probo crispou as sobrancelhas por seu rastro e curvou-se sobre os doces espalhados. Ouviu as vozes dos pais que conversavam na cozinha e teve fé que não viriam ao seu encontro, sentiu-se só e passou a recolher os bombons. Num rompante, inquietou-se a pensar que seu irmão provavelmente voltaria a lhe tomar o presente. O menino precisava driblá-lo.
Zanzava pela sala irresoluto até que um brilho se fez aos seus olhos: o quarto de sua mãe era o esconderijo perfeito, certamente o tesouro estaria seguro ali. Já no aposento dos pais, acocorou-se atrás da cama para descansar e espiar a guarita improvisada. Comeu com vagar um chocolate em forma de coelho e experimentou algumas bolinhas coloridas enquanto imaginava um local para guardar seus pertences.
Eis que a ideia surgiu clara e precisa: esconderia os bombons dentro do grande bolso de bordas brancas da roupa vermelha de Papai Noel deitada sobre a cama. Como a caixa não caberia inteira, seria necessário abandoná-la. Armazenou os chocolates dentro da roupa mágica e, sacrifício ímpar, rasgou a caixa de papelão antes de encestá-la no lixo da cozinha à tentativa de evitar qualquer chamariz.
O menino foi para seu quarto e ficou pensando na roupa que tanto figurava em sua imaginação. Probo tinha quatro anos quando a viu pela primeira vez sobre a mesma cama...".
Para acessar o original, basta clicar AQUI (é necessário descer até o sexto subtítulo).
"Probo crispou as sobrancelhas por seu rastro e curvou-se sobre os doces espalhados. Ouviu as vozes dos pais que conversavam na cozinha e teve fé que não viriam ao seu encontro, sentiu-se só e passou a recolher os bombons. Num rompante, inquietou-se a pensar que seu irmão provavelmente voltaria a lhe tomar o presente. O menino precisava driblá-lo.
Zanzava pela sala irresoluto até que um brilho se fez aos seus olhos: o quarto de sua mãe era o esconderijo perfeito, certamente o tesouro estaria seguro ali. Já no aposento dos pais, acocorou-se atrás da cama para descansar e espiar a guarita improvisada. Comeu com vagar um chocolate em forma de coelho e experimentou algumas bolinhas coloridas enquanto imaginava um local para guardar seus pertences.
Eis que a ideia surgiu clara e precisa: esconderia os bombons dentro do grande bolso de bordas brancas da roupa vermelha de Papai Noel deitada sobre a cama. Como a caixa não caberia inteira, seria necessário abandoná-la. Armazenou os chocolates dentro da roupa mágica e, sacrifício ímpar, rasgou a caixa de papelão antes de encestá-la no lixo da cozinha à tentativa de evitar qualquer chamariz.
O menino foi para seu quarto e ficou pensando na roupa que tanto figurava em sua imaginação. Probo tinha quatro anos quando a viu pela primeira vez sobre a mesma cama...".
Para acessar o original, basta clicar AQUI (é necessário descer até o sexto subtítulo).
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Noel Rosa
Noel sem tradução
Em 2004, o musicólogo Zuza Homem de Mello contou-me numa entrevista¹ que um de seus versos prediletos em toda a história da música brasileira foi escrito por um dos mais reverenciados compositores do país: Noel Rosa. Eis que sua citação corresponde à abertura da canção "Feitio de oração", clássico absoluto. "Quem acha vive se perdendo" ensinava o sambista carioca cujo centenário do nascimento é celebrado agora.
Num domingo de Vila Isabel, Rio de Janeiro, Noel de Medeiros Rosa chegava à fórceps em 11 de dezembro de 1910. Não tardaria a pegar gosto pelo violão e arranjar em português seu jeito para as letras. Bem verdade, dizem, que para ele foi o bandolim quem deu as primeiras pistas para a música. Dono de um fino trato para compor, Noel assinou mais de duas centenas de músicas, fez diversas parcerias, além de partilhar criação com outros sem requisitar a autoria.
reprodução
Cronista do gênero que se consagrava naquele Rio distante, mas não só, Noel versou sobre diversos temas e elencou musas anônimas. Dono de um verbo seguro e de uma destreza poética e musical, recortou um cenário em transformação cultural e social, além de colaborar para a consolidação do samba, ritmo que engrossava o caldo havia praticamente duas décadas². Foi um dos pioneiros a indicar as vias cosmopolitas do estilo e a ressaltar a veia artística que quando brota no peito produz obras memoráveis. Na canção citada, aduzia: "O samba na realidade/ não vem do morro/ nem lá da cidade/ e quem suportar/ uma paixão/ sentirá que/ o samba então/ nasce no coração".
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Beatlemaníaco
O fã brasileiro que conheceu os Beatles
por Danilo Vasques
Ele estava à frente do Edifício Dakota conversando com uma amiga que, de repente, apontou para um ponto atrás de suas costas e começou a gaguejar. O homem barbudo virou-se e viu que estava ombreado por um de seus maiores ídolos. Não titubeou e em inglês se apresentou: — Olá, John, sou Marco Antonio, do Brasil, do Revolution.
Lennon estendeu-lhe a mão e a conversa rolou por uns 15 minutos diante de um pequeno grupo que se formou ao redor. Yoko Ono passou rapidamente ao lado acompanhada por um editor da revista Rolling Stone. Em dado momento, John perguntou ao brasileiro qual sua música predileta e ouviu uma resposta generalizada, mas à insistência de Lennon destacou a preferida: She Loves You.
Quase um mês e meio depois, na caixa de Correios de Marco Antonio Mallagoli um disco de ouro da música datado de 1963 traz um bilhete do assessor de Jonh Lennon sublinhando que o ex-beatle pedira que lhe enviasse o presente. Segundo suas palavras, o disco "estaria melhor em suas mãos" do que nas do próprio John. Emoldurado, o ícone acompanha outras muitas preciosidades numa das paredes do escritório particular do fã brasileiro.
O encontro em Dakota ocorreu em 10 de outubro de 1980. Após dois meses, Lennon seria assassinado ali mesmo, em frente ao Central Park, há exatos 30 anos.
Beatles
A paixão pelo mais famoso grupo da história começou quando a bendita She Loves You estourou em seus ouvidos no ano de 1963. Acontecia ali uma revolução dentro de Mallagoli que passou a armazenar tudo quanto fosse informação sobre a banda, cuja imagem ainda era incipiente no Brasil - só lá para maio do ano seguinte que seus rostos ficariam estampados na mídia daqui. Recortes, matérias, gravações, conversas... Não largava o que caísse em suas mãos com o rótulo de Beatles. Aventurou-se no inglês para entender melhor o que ouvia e as notas passou a tocar primeiro de forma amadora e logo profissionalmente. A sua busca configurou o embrião do Revolution, dissidência de outro fã-clube. O nome da canção também apelida sua banda (e foi também título de revista, bar...).
Mallagoli tornou-se um especialista em Beatles. E como todo especialista apaixonado, quis conhecer de perto a razão de sua guinada pessoal e profissional. Assim, realizou o sonho (o mesmo de outras milhões de pessoas) de encontrar os quatro ingleses que mudaram os rumos culturais a partir da metade do século passado. Conheceu todos, não de uma vez, mas teve com cada um o seu momento.
Pessoalmente
O primeiro a encontrar foi George Harrison. Aconteceu em 1979 aqui no Brasil, durante o Grande Prêmio de Fórmula 1. O autor de Something veio assistir ao evento a convite de Emerson Fittipaldi. Não deu outra, pouco depois estavam trocando ideias. Passados nove anos, em maio de 1988, na casa de Annie Lenoxx, em Los Angeles, Mallagoli estaria novamente ao lado de George. Era dia 25, aniversário da esposa que ficara no Brasil.
Em meados de 1989, o fã acompanharia uma série de shows de Ringo Starr pelo interior de Nova York. No último que presenciaria, em Saratoga Springs, conseguiu uma credencial de fotógrafo com o empresário do artista e ficou grudado no palco. Desprevenido e não acreditando muito na situação, disparou a clicá-lo o máximo possível: o filme acabou na primeira música. Conseguiu acesso ao camarim e teve oportunidade de cumprimentar pessoalmente um ex-beatle resfriado.
Ringo Starr fotografado por Mallagoli em show de 1989
Em novembro do mesmo ano, viria Paul McCartney em um setor reservado do Madison Square Garden: tratava-se de um coquetel inflado com duas centenas de pessoas e sem possibilidades de aproximação. Contudo, no ano seguinte, no camarim do Maracanã, Mallagoli teria com Paul. Na ocasião, comentou que sua filha com então quatro anos de idade adorava Yesterday ("Yestoday", como ela cantava, observa Mallagoli). McCartney sugeriu que o fã brasileiro levasse a família no dia seguinte para conhecê-lo. Eis que quando a pequena entra no camarim, Paul cantarola a canção predileta da menina - Mallagoli vibra ao recontar a história. Reencontrariam-se novamente em 1993 na ocasião do show no Pacaembu e Paul receberia um baixo de presente. Veriam-se ainda em ocasiões futuras.
Paul recebe Mallagoli e família no camarim do Maracanã
Ocasião
Na esteira das apresentações de Paul no Brasil, aos 68 anos de idade e com vigor impecável, da recém-abertura da venda do catálogo dos Beatles pela internet e dos 30 anos da morte de John, completados hoje, convidamos Mallagoli a responder por e-mail algumas questões sobre esse tripé temático:
Café de Outubro: Para você que esteve com Lennon dois meses antes de seu assassinato, o que representa pessoalmente essas três décadas completadas de sua morte?
Mallagoli: A dor é a mesma de 30 anos atrás e a ausência dele é imperdoável. Se ele estivesse ainda por aqui imagino o que estaria fazendo em termos musicais, até mesmo junto a Paul McCartney e Ringo Starr. Ele faz falta e sei que o mundo seria bem melhor com ele aqui. Talvez até o George ainda ficasse mais um tempo se o John ainda estivesse por aqui, quem sabe?
Café: E o que representa para o mundo?
Mallagoli: Ele é um dos maiores ícones da música mundial, um dos maiores gênios e isso faz falta ao mundo. A cultura mundial sofre e muito com a ausência de John Lennon. Ele é um revolucionário sem precedentes.
Café: Recentemente, Paul esteve de volta ao Brasil. Fez shows em duas capitais brasileiras e também em Buenos Aires, na vizinha Argentina. Esteve com ele novamente durante a passagem pela América Latina?
Mallagoli: Infelizmente dessa vez não estive com ele nos camarins, apenas (e, olha, isso é ser modesto) assisti aos shows. Mas também este ano bati meu "record" - assisti a sete shows dele - em Cardiff, Londres, Porto Alegre, dois em Buenos Aires e dois em São Paulo. E o fato de estar no mesmo local que ele, respirar o mesmo ar e ouvir ele cantando e tocando, já me sinto abençoado por isso. Afinal ele é um Beatle. Mas não vão faltar oportunidades de conversar com ele de novo.
Café: É preciso perguntar se você gostou dos shows?
Mallagoli: Acho que vou ser meio óbvio respondendo, mas uma amiga minha de Floripa (a Silvia Back), deu uma definição após o show de Porto Alegre que eu acho que explica bem o que é o show dele. Ela disse: "Se Deus existe, ele cantou hoje pra mim e usa suspensórios".
Café: Em linhas gerais, o que representa o acervo dos Beatles ser disponibilizado para comercialização pelo Itunes? Eis um elo concreto entre a Apple dos Beatles e a empresa de Steve Jobs?
Mallagoli: Eu acho que isso só vai atrair novos fãs e a nova geração que fica ligada no computador o dia todo e adora novas tecnologias. E eles são mais do que atuais, além de ser um "clássico". A revolução que eles começaram com a música não vai acabar nunca, novas gerações vão sempre descobrir Beatles por um meio ou outro. Eles já são imortais.
Perfil: Marco Antonio Mallagoli é músico e presidente do Revolution Fan Club. Edita o blog Beatlemaníaco, no portal da MTV.
Fotos: acervo pessoal de Marco Antonio Mallagoli. Todos os direitos reservados.
Movimento
Faz pouco mais de dez meses que registrei a cena abaixo. Estava num ônibus na rodovia dos Bandeirantes, sentido interior paulista. Resolvi postá-la para compartilhar, entre outras coisas, o paradoxal gosto pelo equilíbrio que enxergo nesta imagem, com os dois carros nos extremos insinuando uma balança com um eixo imaginário no centro do quadro. Contudo, há uma certa vazão de movimento no batente da janela que escapa no canto superior esquerdo e que nos remete a um desequilíbrio que se arrasta à mata irregular e tão bela que cativa os olhos.

Fotografia registrada em 30 de janeiro de 2010.

Fotografia registrada em 30 de janeiro de 2010.
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