Há uma semana, assisti ao filme "Um Parto de Viagem" (Due Date, no original), coprotagonizado por Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis. Trata-se de uma comédia que elege como mote a junção do destempero de um executivo, Peter Highman, às contravenções sociais de um ator em formação, Ethan Tremblay, que ambiciona trabalhar em televisão. Ambos seguem juntos por uma longa viagem que cortará os Estados Unidos: é o decorrer da estrada que dita o ritmo da obra que perpassa vários territórios (entre eles, a fronteira mexicana) em pouco mais de noventa minutos.
fotos: reprodução/divulgação
Zach Galifianakis e Robert Downey Jr. em cena do longa
Peter (Downey Jr.) está às vésperas do nascimento do filho. Prestes a voar, momentos antes da decolagem, um contratempo o impede de seguir no avião - ele é responsabilizado por um tumulto desencadeado ao se entreturbar com Ethan (Galifianakis), com quem já havia trocado palavras na chegada ao aeroporto. Confusão posta, acabam por dividir um mesmo carro país afora.
Ethan intenta trabalhar em Hollywood, seu sonho corresponde a participar da bem-sucedida série "Two and a half men". Peter anseia retornar a Los Angeles antes de sua esposa (vivida por Michelle Monaghan) entrar em trabalho de parto - o que deve ocorrer em poucos dias. Completam os lugares do carro o pai de Ethan encerrado em cinzas numa lata de café e um cachorro chamado Sonny.
Apresentados a trama e os personagens centrais, vale mencionar que algumas cenas estimulam o divertimento, contudo, não muitas. A obra sustenta graça, mas não emplaca o humor de riso fácil recortado por "Se beber, não case!" (The Hangover), sucesso anterior do mesmo diretor, Todd Phillips. Foi ele o responsável por levar Galifianakis ao estrelado no papel do perturbado Alan. A continuação de "Se beber..." está prevista para o próximo ano.
Parece...
É inegável a semelhança entre "Um Parto de Viagem" e a também comédia "Antes Só do que Mal Acompanhado" (Planes, Trains and Automobiles, no original), de 1987, escrito e dirigido por John Hughes, o mesmo de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller's Day Off, de 1986). Dá para pensar até que o mais recente refez os passos do anterior, pois a história e algumas situações claramente se ombreiam. Oficialmente não se trata de refilmagem ou recriação, por assim dizer.
cartaz do filme de 1987
Além do fato de o roteiro partir do mesmo pressuposto - dois desconhecidos se unem para uma viagem repleta de confusões, as duplas coprotagonistas se parecem: no primeiro, Neal Page (Steve Martin) faz às vezes de um publicitário engravatado que perde o voo quando anseia por reencontrar a família no Dia de Ação de Graças; Downey Jr. segue a linha do homem sério, também de gravata e pouco sorriso, que precisa retornar ao lar. Já Galifianakis assemelha-se ao desajeitado, tranquilo e levemente anárquico Del Griffith (vivido pelo carismático John Candy) do filme anterior.
Os dois homens sérios ficam sem carro no estacionamento do aeroporto. Em dado momento, Neal se confunde com as bagagens (são levadas por um taxista) enquanto Peter perde as suas (vão com o avião). Ambos, nos dois filmes, também discutem com um atendente burocrático (no primeiro, uma mulher, no segundo, um cadeirante). E na hora da soneca, Neal e Peter têm dificuldades para dormir próximo ao companheiro de viagem: se Del deita ao lado de Neal e manifesta dormindo seus sonhos com beijos românticos na nuca de Martin, Ethan se masturba acordado cortando o sono de Peter que está no banco de trás.
Del é o motorista que, entre outras barbeiragens, faz o carro girar na pista e perde os retrovisores ao passar no vácuo entre dois caminhões num quase desastre (já em "Um Parto..." o carro sofre um tremendo acidente, cuja culpa, claro, é do Ethan). Além disso não podemos ignorar os motoristas fumando ao volante nos dois filmes. E a solidão que ambos revelam ao longo das tramas também dialogam de certa maneira.
Juliette Lewis contracena com Galifianakis
Mas as semelhanças não anulam a autonomia de "Um Parto...", o qual não deixa de ser um filme que garante alguns risos - a comédia tenta se impor em detrimento aos momentos "dramáticos". Uma das mais emblemáticas cenas é aquela que revela a contravenção de Peter, prestes a ser pai, ao calar um menino - pode não ser uma atitude politicamente correta, mas levou o cinema a rir em alto som... Trata-se de uma tirada engraçada pelo absurdo que lhe compete (linha que flerta com o humor necessário de "Se beber, não case!"). Outros momentos autônomos se impõem e o filme se firma. Entre eles, vale ressaltar as sequencias da contemplação do Grand Canyon ("pai, você foi como um pai para mim..." só vendo para entender...) e da xícara de café alternativo - muito boa por sinal. E por aí vai.
Rock
A atriz Juliette Lewis faz ponta em "Um Parto de Viagem". Musa "às avessas" nos anos 1990, ela enveredou para o rock n' roll em 2003 com o grupo Juliette and the Licks, cujas atividades se encerraram no ano passado - o grupo se apresentou no Brasil em 2007. A artista atualmente concilia o trabalho da telona com a carreira solo musical. Está com disco novo. É fera!
UM PARTO DE VIAGEM (Due Date). De Todd Phillips (EUA, 2010). Com Robert Downey Jr., Zach Galifianakis, Jamie Foxx e Michelle Monaghan. Comédia. Aprox. 95 minutos. Segue em cartaz.