A pedregosa via de Nascimento

O protagonista da música O Homem na Estrada, ao final da canção, é assassinado em uma emboscada armada pela polícia paulista. Ex-detento por roubo, posto em liberdade, pai, tenta recomeçar a vida pós-prisão – não consegue – e quando se torna suspeito de um crime que não cometeu é executado dentro de sua casa por calibres do Estado. Grande parte da música é ambientada numa favela de São Paulo e o personagem termina desovado na Estrada do M'Boi Mirim, zona sul. O protagonista da canção, pressentido a própria morte, comenta: "a gente sonha a vida inteira e só acorda no fim". Mais algumas frases e os tiros selam a música dos Racionais MCs, lançada no começo dos anos 1990.
Vim escrever sobre o filme Tropa de Elite 2, em cartaz desde o dia 8, e, pode parecer estranho, resolvi iniciar o texto relembrando a canção escrita pelo Mano Brown por imaginar um curto paralelo: eis que numa das primeiras sequências do filme – tomo a liberdade de contar, visto que a cena está no próprio trailer de divulgação –, o Capitão Roberto Nascimento (agora Tenente Coronel) tem seu carro alvejado quando o conduz. Na narrativa exercida pelo próprio Nascimento, ele comenta que é justamente no fim que algumas coisas surgem à tona, a percepção torna-se mais clara, enfim, ainda que esta possa parecer tardia.
O paralelo está aí, temos duas cenas em que o risco de morte é real e seus protagonistas narram uma revelação – cada qual a seu modo. Ambos personagens se encontram em situações extremas e, justamente neste ponto, suas palavras versam sobre as possibilidades de uma nova leitura da realidade. Como disse, um curto paralelo, pois até mesmo o modo das vozes é diferente: o protagonista da canção figura na situação enquanto fala, suas palavras são um balão dentro da cena, e Nascimento narra onipresente, a voz fora do corpo. Dito isso, não intento induzir a pensar se Nascimento morre ou não – só vendo o filme para saber.
fotos: Alexandre Lima/divulgação
Nascimento como Subsecretário de Inteligência
Vi na semana passada, quarta-feira, pós-feriadão, preço promocional, Box Cinemas. Fila na bilheteria, última sessão, 21h30. Meia hora antes, na fila para entrar na sala, garotos carregam caixas de pizza e esfirras. Logo nos trailers, bagunça e muito barulho no espaço de 427 lugares. De pronto, intuí que enfrentaria uma sessão de falatório e dores de cabeça. Errei. Um silêncio respeitoso tomou a extensão dos 116 minutos do filme e palmas vieram ao final. Conferia naquela quarta-feira o sucesso de público que a produção angaria Brasil adentro.
Um Brasil que há cerca de três anos viu o primeiro Tropa de Elite tornar-se um fenômeno. Mais de 11 milhões de brasileiros acompanharam o filme através da pirataria antes mesmo de estrear em circuito¹, segundo a própria produção, e falas do Capitão Nascimento foram repetidas a esmo. O diretor José Padilha defendeu-se publicamente de críticas que tentavam rotular como fascista o longa. Pertinente perceber como o diretor ironiza o tema nesta segunda edição com indignações que emergem da fala do protagonista que, provocador, conta que fora tachado de fascista.
O diretor José Padilha, no set, à frente do Caveirão
O Nascimento do primeiro longa não é um herói, como observado por Padilha na imprensa à época. Se a aceitação pública da postura do Bope retratada no filme foi real ou se o Capitão tornou-se um personagem icônico e heroico no imaginário popular é difícil e despropositado mensurar, contudo, se necessário, o questionamento para tais ações deveria voltar-se para os fundamentos socioculturais que estariam por trás dessas supostas inclinações populares. O fato é que o primeiro filme discorre sobre um grave problema de ordem social captado pela ótica de um policial – em Ônibus 174, do mesmo diretor, o olhar seria o de alguém excluído socialmente, o também Nascimento cuja vida é remontada até o fulminante desfecho do sequestro de um ônibus. Em ambos, não há necessariamente personalização de heróis.
Uma ressalva: caso não tenha assistido a Tropa de Elite 2, sugiro que pule os próximos quatro parágrafos, pois haverá menções sobre cenas.
Padilha, em certo momento, ironiza a popularidade alcançada por Nascimento, interpretado em novo mergulho espetacular de Wagner Moura. O personagem lidera uma desastrosa ação do Bope dentro do presídio de segurança máxima Bangu 1. Contudo, a resposta negativa ao erro cometido sob seu comando não acontece, ao contrário, ganha o viés da promoção. A equação é simples: os políticos mandatários da segurança pública do Rio de Janeiro notam a popularidade de Nascimento. A cena é emblemática: o protagonista é aplaudido por pessoas que almoçam num restaurante ao ser reconhecido como o rosto que ordenou a ação dentro de Bangu 1 e que resultou na morte de alguns presos. Uma confusa face do questionável heroísmo.
Wagner Moura como Roberto Nascimento
E André Mathias (vivido por André Ramiro), nos desdobramentos da ação dentro do presídio, sofre as consequências do seu ímpeto agressivo construído sob a tutela de Nascimento no primeiro longa. O personagem passa a findar a curvatura do arco que é a sua vida, envergando-se das aspirações que nutria no início do primeiro filme aos encerramentos que enfrenta no segundo. E isso é comovente. O personagem nos conduz a acompanhá-lo numa jornada em que ficamos sem saber precisar se a barriga do arco está voltada para cima ou para baixo.
O dramático personagem Mathias (André Ramiro)
Os mandatários que abraçam Nascimento representam a ponta do problema: a relação entre a política e a criminalidade. Se o primeiro filme é direto ao estabelecer a relação conivente de determinados setores da classe média com o tráfico de drogas, o segundo cavouca a terra podre que acoberta as ações das milícias nos morros e comunidades cariocas (e, fora dos cinemas, o Rio não está isolado neste quesito). A profundidade do Tropa 2 é maior, ela raspa desde campanhas de reeleição financiadas por milícias à morte contumaz de inocentes. O subtítulo do filme é franco: o inimigo agora é outro. Nascimento se vê defronte ao que ele mesmo denomina Sistema e para enfrentá-lo enxerga em um grande desafeto o sustentáculo para sua luta.
O ativista Diogo Fraga, interpretado com esmero por Irandhir Santos, é inspirado no deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) que há cerca de dois anos empreendeu uma CPI que sublinhou aproximados mil suspeitos de envolvimento com milícias. Ao menos 225 deles foram indiciados, segundo assina a Veja desta semana (ed. 2187, p.140). Fraga é o contraponto a Nascimento e o coprotagonista da luta contra o inimigo invisível. Com a bandeira dos direitos humanos, ele questiona as ações do Bope e se interpõe entre as armas. Contudo, são ambos, Nascimento e Fraga, quem bradarão contra os comandantes da segurança e da criminalidade públicas.
O ativista Diogo Fraga, interpretado com esmero por Irandhir Santos, é inspirado no deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) que há cerca de dois anos empreendeu uma CPI que sublinhou aproximados mil suspeitos de envolvimento com milícias. Ao menos 225 deles foram indiciados, segundo assina a Veja desta semana (ed. 2187, p.140). Fraga é o contraponto a Nascimento e o coprotagonista da luta contra o inimigo invisível. Com a bandeira dos direitos humanos, ele questiona as ações do Bope e se interpõe entre as armas. Contudo, são ambos, Nascimento e Fraga, quem bradarão contra os comandantes da segurança e da criminalidade públicas.
Nascimento, mais velho, é o gatilho de uma metralhadora que dispara contra diversas mazelas da podridão que incita o crime exacerbado e estimula a crescente desigualdade social carioca – brasileira. Ele sabe que são muitos os donos que engrossam as ações das milícias e outras facções (indicadores reais: o Estadão de hoje aponta que o crime organizado tem mais do que o dobro das armas da polícia no Brasil – OESP, 19/10, p. C1). Para mudanças significantes na estrutura imposta e velada, Nascimento entende e ressalta que o caminho a ser consolidado é longo e árduo. Contudo, em sua luta pessoal, consegue catapultar algumas das pedras desta estrada.
O filme chega aos cinemas brasileiros em um momento de reflexão acerca da escolha do próximo mandatário nacional. É relevante enxergar a obra, entre outras coisas, como um suporte para questionamentos acerca de muitos problemas sociais que enfrentamos e da ordem que se faz vigente. Provoca também o debate político e ajuda a recontar a história recente de uma região afetada pela criminalidade, pela polícia e que sustenta a quem quiser ver uma enorme desigualdade econômica. Apresenta ainda outras diversas facetas a serem pensadas, discutidas, como os incômodos que promove ao retratar sobriamente alguns tipos de mídias – e a eventual vulnerabilidade de determinadas investigações jornalísticas. Há sempre mais o que se dizer de um filme como este.
O filme chega aos cinemas brasileiros em um momento de reflexão acerca da escolha do próximo mandatário nacional. É relevante enxergar a obra, entre outras coisas, como um suporte para questionamentos acerca de muitos problemas sociais que enfrentamos e da ordem que se faz vigente. Provoca também o debate político e ajuda a recontar a história recente de uma região afetada pela criminalidade, pela polícia e que sustenta a quem quiser ver uma enorme desigualdade econômica. Apresenta ainda outras diversas facetas a serem pensadas, discutidas, como os incômodos que promove ao retratar sobriamente alguns tipos de mídias – e a eventual vulnerabilidade de determinadas investigações jornalísticas. Há sempre mais o que se dizer de um filme como este.
A jornalista Clara interpretada por Tainá Müller
Tropa de Elite 2 foi produzido por Padilha e Marcos Prado e coproduzido por Wagner Moura e Bráulio Mantovani (este último, junto ao diretor, assina o roteiro, com argumento de ambos e de Rodrigo Pimentel). A produção contou com uma equipe de efeitos especiais com carreira em Hollywood, entre os nomes, Bruno Van Zeebroek (Transformers e Inimigos Públicos) e Keith Woulard (O Curioso Caso de Benjamin Button e Forrest Gump). O filme é uma ficção que explora com exemplar competência a documentação visual de uma realidade gritante. A saber, o presídio de Bangu 1 foi reconstruído em estúdio e o escritório onde o então Subsecretário Nascimento vai trabalhar ocupou todo um andar de um edifício no centro do Rio. Mais de 300 figurantes participaram das filmagens e cenas foram gravadas em quatro favelas.
TROPA DE ELITE 2. De José Padilha (Brasil, 2010). Com Wagner Moura, Irandhir Santos, Pedro Van Held, André Ramiro, Milhem Cortaz, Maria Ribeiro e Tainá Müller. Drama. Rio de Janeiro, 2010.




