quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Rotina

um conto de Danilo Vasques 

Era auxiliar de escritório, o que sabe é que se entregava a montes de folhas. Organizava daqui, atendia dali, ouvia de todos os cantos.

Foi almoçar quando o sol já estava alto. Arroz, feijão, fritas e frango. Deu goles numa laranjada, dessas que trazem mais água do que fruta, e terminou a sesta numa bela maçã avermelhada. Voltou ao escritório ainda pálida – o refeitório era um local gelado – e assim permaneceu.

A tarde veio com as digitais no papel. Feito tanto que uma dor já conhecida começou a galgar o braço esquerdo. Apareceu, como de costume, sutilmente. O gatilho era o repetido
manejo burocrático dos braços: tendinite. Lina mirou o relógio na parede e angustiou-se com as horas que ainda faltavam para bater a saída.

O corpo agora estava quente, a cabeça começava a queimar. Gotas deslizavam sobre a face que brilhava. Alguns fios dos cabelos grudados na pele. No canto esquerdo dos lábios, o suor encontrava o paladar. As bochechas avermelhadas numa interessante graduação do rosa que se via diariamente. De súbito, resolveu refugiar-se no banheiro.

Tentou desviar do seu olhar castanho, contudo, em vão: rebateu as olheiras que lhe enxergavam no espelho. Uma vergonha desmedida e despropositada a abatia sob as mechas escuras e compridas. Encarou-se, molhou as têmporas, enxugou os olhos e voltou com sua palidez ao escritório - a reclusão no banheiro pouco iluminado e que cheirava a cândida durou um quase nada.

Despencou seu arcabouço sobre a velha cadeira azul que feria silenciosamente – por dentro – suas costas, comprometendo irremediavelmente sua coluna vertebral. Envelhecia no cotidiano. Retirou da pasta um livro de poesias, cuja capa era bege.

O livro seria sua fuga. Alisou a capa e o abriu, mas, nada leu. Não conseguiu. Sentiu desconforto e culpa. Escondeu o objeto entre os cadernos que inchavam a pasta e tornou a trabalhar. Vieram as horas e o cansaço tornou-se aparente. Até que às 18h o ponto bateu: final de expediente.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Santana de Parnaíba

Domingo passado, 19, estive em Santana de Parnaíba. Compartilho alguns registros da cidade que se localiza distante pouco mais de 40 km de São Paulo:


vista geral da cidade, ao fundo, a tradicional Estrada dos Romeiros

ladeira com antigas construções próxima à prefeitura local

velozes, garotos se aventuram sobre rodas na tarde de domingo

flores ornamentam fachada residencial

o céu colorindo setembro poucos dias antes da primavera

peças do Monumento aos Bandeirantes à entrada da cidade

detalhe de escultura realizada por Murilo Sá Toledo

atalho entre as subidas e descidas da cidade

o sol a se pôr quando o caminho era a volta


A cidade realiza até o dia 26 a Semana da Juventude dentro do Parnaíba Festival 10. Trata-se de uma série de atividades culturais que visa estimular o contato das produções contemporâneas com uma das mais significativas manifestações populares de São Paulo: o samba rural. Diversos shows ocorreram no final de semana passado, contudo, há ainda opções para debater o caldo cultural que permeia Santana de Parnaíba. Informações sobre a programação oficial podem ser obtidas diretamente no site do evento, para ver, clique AQUI.


créditos das fotos: A primeira e a última são de autoria de Jéssica Lima, autora do blog Publicidade em Rosa (para ler, clique AQUI). As demais são assinadas pelo autor da postagem, Danilo Vasques.

domingo, 5 de setembro de 2010

Cansada

um conto de Danilo Vasques
 
A jovem Lina, nos seus dezessete anos, dormia sobre a velha cama armada no alto de quatro blocos de concreto. Movimento qual fosse provocava grunhidos das ripas do estrado envergado. O colchão de uma fineza ímpar sustentava os cinquenta e três quilos do corpo de menina crescida. A madrugada a estourar com o relógio despertando os ouvidos: os olhos abriram-se para os primeiros fragmentos de luz no quarto.

Veio o banho. Banheiro torto. Corpo firme sob um curto jato da água do chuveiro queimado. Minutos nem da conta para se esquecer as gotas na toalha e quentar o corpo na roupa que lhe cabia certa: um jeans seu número, já gasto. Sem detalhes, a blusa era cinza, cor da paisagem.

Na iminência de partir ao trabalho, franziu o estômago num reflexo da noite sem jantar. Caminhou à cozinha e as mãos logo encontraram um inhame cru sobre a mesa ladeado por uma banana madura cortejada por pequenos mosquitos. A vontade foi da fruta, mas, quando a boca decidiu recebê-la, o silêncio da casa se sobressaiu. Os olhos enxergaram o menino seu irmão dormindo no quarto distante por um cortina de tiras de bambu. Ele dormia abraçado à mãe. Não houve prosseguimento, Lina repôs a banana ao seu lugar. Para tocar o dia que começava, encheu de água e esvaziou um copo de vidro, o qual um dia estivera repleto de tomate.

Cruzou os mundos e trancou por fora a envelhecida porta de cedro tingida por gelo que seguia encardindo com o passar da história. Sem fruta, café ou pão, despediu-se. Um até logo. Não se sabe para quem. O pai já compunha vida no trabalho e a família que ficara na casa dormia. Lina caminhou até a parada. O ônibus chegou lotado. Mergulhou no corpo do veículo como uma batata se aprochega ao fundo do saco de estopa.

Foi que num instante o silêncio da manhã se rompeu quando o 3574-Pq. Dom Pedro freou bruscamente. A sorte do motociclista que rompeu à frente do ônibus, cortando suas vistas, foi que as alpargatas do motoristas alinharam-se com seus reflexos a frear antes do coletivo atropelar a motocicleta. Os passageiros se amontoaram, mas não houve queda. Dos danos: um tornozelo torcido sob um vestido de flores.

O sol já pintava São Paulo quando Lina chegou ao trabalho. Nesta altura, o ônibus ficara no esquecimento. As horas, no cartão. Os minutos, no atraso.