um conto de Danilo Vasques
Era auxiliar de escritório, o que sabe é que se entregava a montes de folhas. Organizava daqui, atendia dali, ouvia de todos os cantos.
Foi almoçar quando o sol já estava alto. Arroz, feijão, fritas e frango. Deu goles numa laranjada, dessas que trazem mais água do que fruta, e terminou a sesta numa bela maçã avermelhada. Voltou ao escritório ainda pálida – o refeitório era um local gelado – e assim permaneceu.
A tarde veio com as digitais no papel. Feito tanto que uma dor já conhecida começou a galgar o braço esquerdo. Apareceu, como de costume, sutilmente. O gatilho era o repetido manejo burocrático dos braços: tendinite. Lina mirou o relógio na parede e angustiou-se com as horas que ainda faltavam para bater a saída.
O corpo agora estava quente, a cabeça começava a queimar. Gotas deslizavam sobre a face que brilhava. Alguns fios dos cabelos grudados na pele. No canto esquerdo dos lábios, o suor encontrava o paladar. As bochechas avermelhadas numa interessante graduação do rosa que se via diariamente. De súbito, resolveu refugiar-se no banheiro.
Tentou desviar do seu olhar castanho, contudo, em vão: rebateu as olheiras que lhe enxergavam no espelho. Uma vergonha desmedida e despropositada a abatia sob as mechas escuras e compridas. Encarou-se, molhou as têmporas, enxugou os olhos e voltou com sua palidez ao escritório - a reclusão no banheiro pouco iluminado e que cheirava a cândida durou um quase nada.
Despencou seu arcabouço sobre a velha cadeira azul que feria silenciosamente – por dentro – suas costas, comprometendo irremediavelmente sua coluna vertebral. Envelhecia no cotidiano. Retirou da pasta um livro de poesias, cuja capa era bege.
O livro seria sua fuga. Alisou a capa e o abriu, mas, nada leu. Não conseguiu. Sentiu desconforto e culpa. Escondeu o objeto entre os cadernos que inchavam a pasta e tornou a trabalhar. Vieram as horas e o cansaço tornou-se aparente. Até que às 18h o ponto bateu: final de expediente.
Era auxiliar de escritório, o que sabe é que se entregava a montes de folhas. Organizava daqui, atendia dali, ouvia de todos os cantos.
Foi almoçar quando o sol já estava alto. Arroz, feijão, fritas e frango. Deu goles numa laranjada, dessas que trazem mais água do que fruta, e terminou a sesta numa bela maçã avermelhada. Voltou ao escritório ainda pálida – o refeitório era um local gelado – e assim permaneceu.
A tarde veio com as digitais no papel. Feito tanto que uma dor já conhecida começou a galgar o braço esquerdo. Apareceu, como de costume, sutilmente. O gatilho era o repetido manejo burocrático dos braços: tendinite. Lina mirou o relógio na parede e angustiou-se com as horas que ainda faltavam para bater a saída.
O corpo agora estava quente, a cabeça começava a queimar. Gotas deslizavam sobre a face que brilhava. Alguns fios dos cabelos grudados na pele. No canto esquerdo dos lábios, o suor encontrava o paladar. As bochechas avermelhadas numa interessante graduação do rosa que se via diariamente. De súbito, resolveu refugiar-se no banheiro.
Tentou desviar do seu olhar castanho, contudo, em vão: rebateu as olheiras que lhe enxergavam no espelho. Uma vergonha desmedida e despropositada a abatia sob as mechas escuras e compridas. Encarou-se, molhou as têmporas, enxugou os olhos e voltou com sua palidez ao escritório - a reclusão no banheiro pouco iluminado e que cheirava a cândida durou um quase nada.
Despencou seu arcabouço sobre a velha cadeira azul que feria silenciosamente – por dentro – suas costas, comprometendo irremediavelmente sua coluna vertebral. Envelhecia no cotidiano. Retirou da pasta um livro de poesias, cuja capa era bege.
O livro seria sua fuga. Alisou a capa e o abriu, mas, nada leu. Não conseguiu. Sentiu desconforto e culpa. Escondeu o objeto entre os cadernos que inchavam a pasta e tornou a trabalhar. Vieram as horas e o cansaço tornou-se aparente. Até que às 18h o ponto bateu: final de expediente.








