por Danilo Vasques
Confesso que não tive amizade com Branca. Não que houvesse algo contra, tampouco, simpatia. Até, vez ou outra, cheguei a sorrir perto dela, mas acostumei-me a passar quase sempre apressado aos seus olhos, sem permitir qualquer aproximação.
Ouvi histórias sobre sua personalidade um tanto traiçoeira, sabia que era arisca. Não que configurasse propriamente um problema, ao menos, para mim. Um primo contou que chegava a trocar de calçada para evitá-la.
Branca habitava a viela da Dona Noemia. Dona Noemia que chamávamos Vó Doceira, pois, nos tempos de nossa infância, ela vendia doces em sua casa na esquina da viela. Acho que Branca chegou quando a doceira já não mais vivia. Branca teve casa, contudo, passou a morar na viela ao ser abandonada. Essa história foi meu pai quem contou: num dia, sem aviso, a família de Branca mudou-se de endereço, deixando-a para a própria sorte. No fim, Branca esteve só como todos.
Achei engraçado quando minha mãe contou a vez em que descia nossa rua e encontrou parado um outro primo meu. Ele estava receoso de passar pela Branca, era seu histórico que o segurava ali. Desceram juntos a rua.
Na última quarta-feira, céu aberto com algumas nuvens. Branca escolheu repousar à sombra do assoalho de um carro, pertinho dos pneus dianteiros. Nem era um dia tão quente aquele 10 de agosto. A motorista deu a partida, o veículo desceu um pouco, coisa de um metro. Ouvimos a freada. Branca saiu correndo gritando, a coluna irremediavelmente comprometida. Tentou subir a viela e foi triste demais quando a vimos cair de costas, rolando para trás, sem forças para se manter em pé. Ficou prostrada ali, aos olhares, sofrendo com seu gemido baixo.
A impassibilidade perante o fim iminente. Um pequeno corpo vítima de um atropelamento, um acidente casual, uma fatalidade. A Branca dita tão raivosa, frágil ali no chão, esperando dolente os derradeiros momentos. Penso agora no título em português de um desenho de 1989, coprodução americana/inglesa/irlandesa, o qual nem sei dizer se é bom: Todos os cães merecem o céu.