um conto de Danilo Vasques
O encontro estava marcado para as vinte horas. Pensara nele durante a semana toda. Gregória se sentia trêmula como uma garotinha, apesar de saber que muito tempo já havia se passado desde aqueles anos de namoricos de escola. Porém, nesta noite, algo dentro dela reverbera como dantes.
Olhou para o espelho e não mais teve dúvidas: iria usar o vestido roxo. Ainda se lembrou da irmã nos ouvidos: você já não é mais menina, Gregória, onde já se viu vestir uma roupa assim tão curta (quis dizer vulgar, mas julgou imprudente), você já não tem idade, querida, deixe disso, bota uma roupinha melhor, vai ficar linda.
Gregória não titubeou, estava decidida. Antes de sair, passou um batom vermelho escuro, deixou os lábios carnudos ainda mais destacados e, numa última passada ante o espelho do quarto, permitiu-se dizer: que arraso! Virou de costas, viu que o vestido não estava marcando (estava sim, um pouco), subiu sobre os saltos, pegou a bolsa e desceu à rua.
Caminhou duas quadras e entrou no restaurante. Fazia mais de um ano que não recebia um convite como este (pensou bem, nunca recebera um convite assim). Ele se antecipou ao garçom e puxou a cadeira para que se sentasse: tão educado. Gregória não conseguiu conter o sorriso ao ouvi-lo pedir o prato principal em um francês que parecia bonito. Olhava para suas mãos, para seus olhos, para sua gravata, sentia-se uma tarraxinha fisgada por um enorme imã. Disfarçava, porém não escondia a atração que lhe ocorria.
Gostou do papo, deixou-se levar pela conversa (o vinho começava a fazer efeito). Estava tímida, contudo, não gaguejou sequer uma sílaba quando concordou que sim, que qualquer dia desses (ou mais tarde) poderia conhecer o apartamento que ele acabara de comprar. Perto dele já não era um desastre e, vitoriosa, não soluçou quando se abriu numa gargalhada a respeito das imitações que ele fazia ao contar uma piada sobre bêbados (ela também se sentia um pouco alta). Veio o prato principal, uma massa enfeitada com pequenos pontos verdes (deixara os óculos em casa) coberta com o molho mais vermelho que já lhe ofertaram.
Gregória entendia de etiqueta, comia compassadamente, delicadamente. Após a terceira garfada, quando mastigava com cuidado, sentiu alguma coisa se quebrar dentro da boca. Talvez fosse um grão seco do macarrão ou uma alcaparra crua (descobrira o nome do ponto verde). Tomou um gole do vinho, disfarçou e engoliu: sorriu de leve para despistar o gosto estranho e o azedume que lhe percorriam a garganta. Por fim, baixou os olhos e viu no prato metade de uma barata pousada sob o garfo – certamente o grito de Gregória aterrorizou o casal que comemorava as bodas de prata três ruas acima.
O corpo do inseto mutilado ainda sofria pequenos espasmos, a asa direita tremia de leve e um líquido branco escorria do decapitado tronco (se é que podemos dizer tronco). Gregória se levantou, correu em direção ao banheiro, mas não alcançou a porta. Vomitou ali mesmo, entre as mesas, verteu ao chão um líquido alaranjado com pedaços de macarrão e restos de vinho. Logo três clientes e dois garçons a acudiram. O gerente observou de longe. Gregória não voltou ao seu lugar.
O motivo do encontro pensou em um filme de Ettore Scola antes de segurá-la pelos braços. Ele a levou para fora e juntos caminharam os quarteirões de volta. Ela entrou sozinha em casa. Gregória precisou tomar dois banhos, escovar os dentes por seis vezes, fazer gargarejo com sal, vinagre e água e beber três xícaras de café para, enfim, procurar o quarto. Leu ao menos cento e cinquenta páginas de um livro até os olhos começarem a pesar.
Amanheceu o domingo e Gregória comeu apenas um pão no desjejum. Viu televisão até o horário do almoço, quando encarou um arroz com batatas que sua irmã lhe preparou. À tarde, cochilou no sofá diante do videocassete. Quando a noite começava, acordou sentindo dores na barriga. Tomou sal de frutas e ficou de repouso. Antes de dormir, aceitou dois comprimidos para enxaqueca.
Ele ligou na segunda-feira de manhã, esteve ocupado com o aniversário do filho. Ela sabia, no fundo, que não mais o veria. Que vergonha vomitar em sua frente. A conversa ao telefone foi breve, Gregória não teve tempo e nem vontade de contar sobre as dores. Faltou no trabalho, passou o dia na cama, terminou o livro.
Quando sua irmã chegou, prosearam por duas horas entre pedaços de bolo de fubá e goles de café doce. Gregória contou que as náuseas haviam diminuído, porém, aquele gosto ainda lhe consumia... Era só lembrar da barata no prato para sentir algo estralando na boca. Foram ao médico antes do jantar. Fisicamente, Gregória estava bem.
Na terça-feira, acordou mais tarde do que o costume. Avisou a firma que iria chegar atrasada. Tomou um banho demorado, comeu dois pedaços de bolo amanhecido e bebeu um copo de suco de mamão. Ganhou a rua, caminhou entre árvores roxeadas, viu o sol a cobrir o dia e sorriu quando uma brisa fresca tocou seu rosto: sentia-se remoçada. No dia seguinte, logo cedo, ligou para um advogado, amigo da família. Abriram processo contra o restaurante. Tempos depois, Gregória recebeu dois mil numa devida indenização.