sábado, 17 de abril de 2010

Cachorro-quente

um conto de Danilo Vasques

Vou preparar o almoço. Da geladeira, pego uma lata de cerveja, fria apenas, e entorno metade num copo, somo uma pedra de gelo. Bebidinha ruim, gosto amargo, nunca fui chegado em cerveja. O remédio acabou, essa coceira ferina em meu corpo, a barriga ardendo, preciso de um gole. Começo a fazer o arroz, não tenho óleo, viro uma colher de margarina na panela, frito o alho, bebo mais. Boto sem lavar o pouco do arroz que havia no pacote. Completo o copo, deixo um colarinho, mexo o arroz até deixá-lo no ponto. Despejo a água que já ferveu. Sento numa cadeira, trago o copo para a mesa, observo o líquido dourado, penso nas propagandas da TV, tão perigoso esse lance de vender álcool, bebidinha que só me trai, boa agora, ruim depois. Os meninos lá da vila bebem sem pensar, coitados. Verto à garganta o que resta da cerveja, o gelo se desfez.

O corpo queima, a coceira me consome. Faz três dias que não encontro o xarope, a barba parece que tem piolho, as caspas caem da cabeça, os olhos estão inchados. Preciso descansar, mas hoje não volto pra cama. Acordei ao meio-dia. O sol vazando a janela de madeira podre do meu quarto, fazendo as pernas ferverem embaixo do cobertor, não dava mais pra dormir. Tomei banho gelado para esfriar a pele. Vi umas fotos no jornal que meu primo deixou aqui anteontem, não quis ler. Liguei a televisão, estava passando a previsão do tempo, nada de chuva, procurei os óculos para enxergar a moça à frente do mapa. É sagrado, de segunda a sexta-feira acompanho o serviço meteorológico das 13h15. Tenho acordado tarde, faz um mês que vou dormir quando ouço os primeiros vizinhos a baterem as portas de seus carros ao saírem para o trabalho. Estou desempregado. Passo às noites em frente ao computador: mando currículos, vejo algumas garotas, ouço músicas.

Não tenho planta, peixe, gato ou cachorro. Só arroz basta. Desligo o fogo, vou deixar abafado uns dez minutos. Venho para o quarto, boto uma bermuda marrom, continuo de chinelo. Preciso de uma bebida. Pego outra lata na geladeira, não quero mais copo. Está fria como a anterior, porém, parece-me mais gostosa. Odeio beber, sinto-me vencido. Contudo, o maldito remédio acabou. Depois da terceira lata, tenho certeza que a coceira diminuiu e os caroços não estão sagrando, a bebida realmente está ajudando. Pego um prato, três colheres de arroz. Estou controlando a comida, preciso emagrecer. Esqueci de comprar sal. O dinheiro que tenho dá pruma semana, no máximo duas. O arroz ficou papa, não termino o prato. Pego nova cerveja. É terça-feira, sou adulto, tenho direito.

Vou comprar salsichas. Vou agora. Boto uma camiseta. Não posso desperdiçar essa lata, vai comigo. No caminho, bate uma reflexão urgente que se conclui numa indignação em voz alta: "Deviam consertar essas calçadas de merda, a prefeitura não vê que devia fazer uma fiscalização, não é certo a gente honesto assim tropeçar nas calçadas dos outros". Vou pelo asfalto, é mais seguro. Estou cansado, preciso sentar, não aguento esse sol. Sento aqui mesmo, no meio da passagem pública. Carros? Que desviem. Aqueles meninos riem, deviam estar numa sala de aula. Eu estudei, venci na vida. Vou ensiná-los a respeitar os mais velhos. Podem correr, eu os alcanço. Não alcanço. Ao me levantar, balbuciando, agradeço a ajuda de uma senhora e de seu neto. Um quilo de salsichas pedi. Quatro pães, adoro cachorro-quente. Esqueci o troco. Volto amanhã para buscar.

Preciso dormir, são quatro da tarde, estou cansado. Esvazio outra lata, estava trincando. Estou curado, a pele já não grita, a cabeça não dói, sinto-me feliz. Só não posso voltar para a cama, odeio aqueles bichos. Espio da porta, vejo entre os lençóis, no mínimo, uns dez pontos pretos. Não suporto mais essas formigas, essas moscas. Acho até que era uma larva que tirei da orelha ontem de noite. Não sei dizer quando foi que os primeiros insetos habitaram meu leito, faz tempo. Quando estou dormindo, sinto que eles me atacam em marcha, ferem minhas costas, minhas pernas, meu rosto. Mas, esperto que sou, me viro daqui pra lá e esmago ao menos uns trinta por vez, minhas costas sempre ficam com as manchas do sangue. Quando acordo, a primeira coisa que faço é conferir o resultado no espelho. Não vou deitar agora.

Reencontro a geladeira, outra cerveja. Pego logo duas, assim evito gastar energia abrindo a porta da geladeira apenas uma vez. A conta vai vencer dia vinte, vinte e dois, coisa assim. Preciso de um emprego, sou bom em cálculos. Formei-me com excelência. Tenho disciplina. A chave para esse negócio é mostrar segurança, ser sério, ser inabalável. Sou assim. Segunda-feira, tenho fé, vou estar batendo ponto novamente. Vou correr atrás amanhã. É isso, corpo e mente juntos, vontade e movimento. Amanhã resolvo, só preciso descansar agora, me preparar, relaxar a mente, tomar mais uma.

Pego um pão e com as mãos parto-o em duas metades. Não lembro onde deixei as salsichas. Deixo pra lá, largo o pão sobre a mesa, não estou com fome. Estou enjoado, um pouco tonto. Preciso melhorar as coisas, a televisão está ruim, vou arrancar a antena agora mesmo, melhor sem ela. Que barulho horrível esse telefone, porcaria que não para de tocar. Arremesso o aparelho celular pela janela, ele cai no meio da rua – olhei antes para me certificar que não iria acertar ninguém, sou cuidadoso. O violão está sem a Sol, arrebentou anteontem, não lembro como, foi meu primo, tenho certeza. Não sei o que fazer, não quero ler, não quero pensar. Está doendo, estou estranho, sinto-me triste, acho. Vou beber outra.

Oi Jorge, ouvi você dizer quando chegou.

Bom café, adoro café, você que preparou. Obrigado. Acabou o açúcar? Tudo bem, sou cowboy. Banho? Claro, primeiro me lavo depois a gente conversa, combinamos de conversar, não foi? Eu lembro. A água está gelada, preciso consertar esse chuveiro. Tomei choque da última vez, chorei como um menino, verdade, não ria de mim. Droga, esqueci a toalha, tudo bem, a casa é minha, alugada, mas minha, e só preciso correr até o quarto. Não queria que você me visse nu, contudo, agradeço quando seus braços me ajudam a levantar no meio do corredor.

Visto a melhor camisa que tenho. Boto jeans, porque sou um homem sério. Encontro seu rosto apreensivo na cozinha, passa das nove. Combinamos jantar, esqueci. Quer cachorro-quente? Você sorri e a preocupação parece deixá-la naquele momento. Observo a ternura que há em seu olhar e me sinto confortado. Você precisa parar de beber. Concordo, aceito um comprimido, tomo meio copo de água e desabo em seus braços. Choro sem soluçar e me sinto acalorado. Acho que ainda consigo ser feliz.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Curitiba


Para Luiz e Helena


Foi em janeiro, há dois anos, que estivemos em Curitiba, Paraná. A cena corresponde à primeira manhã daquela viagem em que Daniel, Jéssica e eu trilhamos por vários cenários memoráveis. Aqui, a estufa do Jardim Botânico às 7h33 de uma sexta-feira.


Foto de Danilo Vasques com uma câmera digital em 18/1/2008.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Bolachas

um conto de Danilo Vasques 

Contaram-me que Joana era boa no vôlei. Consta que era uma talentosa armadora e que defendia como ninguém. É sabido que seus saques ainda são rememorados lá na vila, atrás da estação. Dizem que sua primeira partida foi na sexta série, quando o professor de Educação Física a convocou para montar o time oficial da escola. Num contragosto, a então menina de doze anos passou a reservar suas tardes de terça-feira para treinar com a equipe. Aprendeu a apreciar o esporte e no final daquela temporada ganhou sua primeira e única medalha. Abandonou a carreira no ano seguinte, quando precisou trabalhar por meio período na relojoaria do tio, como aprendiz, para ajudar em casa. Ainda assim continuou a jogar nos finais de semana. Era constantemente vista no ginásio lá do clube, mas, nunca se profissionalizou como atleta.

Contaram-me que Joana tinha jeito com a agulha. Ouvi dizer que herdou o dom da avó. Pregar botão sabia mesmo antes de aprender a escrever. A mão era tão boa na costura que deixou a relojoaria do tio com nem cinco meses de trabalho para fazer malhas com a mãe. Vendiam blusas, cachecóis, bermudas, saias e até avental Joana fazia. Em pouco tempo, as pessoas lá da vila chegaram a dizer que mesmo a mãe não era tão ágil como a menina que já estava na casa dos dezesseis anos. Tanto assim que por esse tempo foi trabalhar numa oficina no centro da cidade. Contudo, não ficou muito por lá. O rosto até secou do cansaço que viveu, a exploração era enorme e o dinheiro ralo. Estava na metade dos dezessete anos quando largou a costura.

Contaram-me que Joana aprendeu a tocar violão com o pai. Mas, essa história ninguém confirma. Dizem que ele bebia, não parava em casa e, mais dia, menos dia, fugiu com uma amante antes dos dez anos de Joana. Por outro lado, todo mundo lá na vila sabe que ele era um músico sem igual, que teria feito sucesso, não fosse a bebida, pra mor de até viajar saltando de palco em palco. Falam que a menina nem tinha as mãozinhas firmes e ele já lhe ensinava os nomes das cordas, as posições no braço. Uns afirmam que Joana puxou o talento do pai. Há até uma lenda na comunidade: conta-se que se a lua estiver alta, daquelas de romance, basta a pessoa ficar um tiquinho em silêncio, de se prender a respiração e tudo, que vai acabar ouvindo uma voz doce ao violão. Todos atribuem tal canto à Joana.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Formigas



Alheias às mentiras, formigas carregam folhas em árvore do Parque do Carmo, zona leste de São Paulo, na manhã deste 1º de abril.