sexta-feira, 26 de março de 2010

Rain Down


O André de seu nome é diferente, com WS no final, como faz questão de crivar em seu site oficial (andrecomws.com). Andrews Ferreira Guedis gosta de música e computadores. Toca guitarra numa banda de rock e é webmaster de profissão: atualmente colabora com a versão on-line de um grande jornal de São Paulo. Morador de Itaquera, um dos bairros mais antigos da capital, tinha uns seis anos quando uma banda inglesa chamada Radiohead (algo como "cabeça de rádio") lançou seu primeiro disco e passou a figurar em dials mundo afora com uma canção denominada "Creep".


Há pouco mais de um ano, o grupo fez seu primeiro show no Brasil. Pouco demorou para as cenas caírem na internet. E um certo vídeo com trechos da apresentação em São Paulo (Chácara do Jockey, 22/3/2009) se destacou, sobretudo, por conta de sua edição: registros de "Paranoid Android" realizados por câmeras independentes estavam reunidos em um só arquivo. Era o embrião do Projeto Rain Down, encabeçado por Andrews.

O Projeto virou notícia, apareceu na TV e em jornais, contudo, não se limitou à euforia dos primeiros dias pós-shows. Ao contrário, ocupou meses e está próximo do fim, segundo seu idealizador. Rain Down consiste na organização, faixa a faixa, de um DVD completo com as apresentações da banda no Brasil. O show paulista já está disponível desde o ano passado para downloads e também para ser assistido via web. No blog oficial (radioheadraindown.blogspot.com) há links para tal.

apresentação do Radiohead em São Paulo

Trata-se de um processo colaborativo e sem fins lucrativos (pode-se adquirir o show gratuitamente). Cada música conta com gravações realizadas por diversas pessoas que enviaram seus vídeos diretamente para Andrews ou os disponibilizaram pela internet. Ressalta-se que o trabalho de sincronia é exemplar.

Para o espectador, a sensação é a de acompanhar o show em meio ao público com as limitações típicas de um registro cujo foco é o alternativo, de fã pra fã ̶ são câmeras pessoais e celulares que inevitavelmente possuem qualidades aquém de uma profissional, além de ser comum vermos cenas levemente trêmulas, contudo, nada que comprometa o conteúdo. Fato: todo o trabalho é feito com respeitável zelo. Ademais, e sumariamente importante, os créditos estão no blog para quem quiser acessar. Até o encarte para o DVD pode ser baixado e impresso por qualquer visitante. Generoso, o disco do show de São Paulo traz ainda extras com algumas músicas tocadas no Rio.

Atualmente, a empreitada consiste na finalização do DVD com a apresentação carioca. Está quase no fim, como Andrews conta, entre outras coisas, a seguir:

Como está o Projeto Rain Down um ano após o show do Radiohead em São Paulo?

O Projeto Rain Down continua a todo vapor, com a mesma proposta de antes, só que desta vez com o show do Rio de Janeiro, para fechar perfeitamente a apresentação do Radiohead no Brasil. Um DVD do Rio será lançado em breve, com o show na íntegra.

As intenções do projeto antecederam o show ou só surgiram após a apresentação?

Nada foi planejado antes do show. A ideia só existiu quando eu mixei alguns vídeos de "Paranoid Android" achados em comunidades do Orkut e coloquei um vídeo no YouTube. A repercussão e os comentários fizeram com que eu continuasse a editar o show todo.

Há um número oficial de quantas pessoas já baixaram o DVD?

É muito difícil estimar esse número, porque o vídeo foi disponibilizado em diversos formatos, inclusive transmissão completa via YouTube, que passa os 21 mil views neste momento.

É possível mensurar o que mudou em sua vida após o sucesso do Projeto Rain Down?

Mudou sim, mas eu continuo fazendo as mesmas coisas que fazia antes e que, na época, poucas pessoas davam bola. Talvez isso tenha mudado: hoje as mesmas pessoas perguntam da minha banda, dos meus projetos e incentivam ambos. Também cresci profissionalmente, tive alguns contatos interessantes com a mídia e estou aprendendo muita coisa. Fora isso, moro no mesmo lugar e continuo sendo o que sou.


detalhe da capa do DVD com o show de São Paulo

Qual a sensação ao ver o DVD pronto, com encarte e tudo?

A coisa mais doida foi ver pessoas fazendo isso, porque quando eu montei para mim, não tinha uma boa impressora e ficou algo bem caseiro. Mas quando vi pessoas me enviando fotos com o DVD, juro que me senti recompensado e emocionado. Não dá pra descrever a emoção, mas é muito legal ver o carinho que as pessoas tiveram com o projeto.

Em sua visão, seria possível o Projeto Rain Down sem ferramentas de compartilhamento como o YouTube?

Praticamente impossível. Tudo começou no YouTube, foi ele a porta de entrada para o primeiro vídeo e para várias outras colaborações dos fãs. Metade dos vídeos utilizados provém dele, ficaria difícil fazer a edição do show sem ele, já que muitos fãs têm dificuldades para enviar seus vídeos ou não têm tempo para isso.

Quantos colaboraram enviando vídeos para o DVD?

Existiram colaboradores mais ativos, que foram em torno de 20 pessoas, e centenas de pessoas mandando vídeos no YouTube ou indicando vídeos espalhados pela internet. Recebi alguns por cartas e e-mail também. Recebi recentemente colaboração internacional vinda do Peru e da Colômbia, para a edição do show do Rio.

O Radiohead, banda pioneira e entusiasta das trocas on-line, se manifestou sobre o Projeto Rain Down? Vocês tiveram contato a respeito?

Não tive nenhuma resposta vinda de alguém do Radiohead, mas acredito que [o Rain Down] deve ter chegado a eles por causa da repercussão, pela divulgação dos fãs na internet e nos canais de comunicação da própria banda. Se um dia o Radiohead pisar novamente por aqui, seria interessante algum jornalista perguntar se eles conhecem ou não o projeto brasileiro.

Chácara do Jockey (SP), 22 de março de 2009


No blog oficial, você comenta que possivelmente o Projeto Rain Down se encerrará após a finalização do DVD com o show do Rio de Janeiro. É isso mesmo?

Sim, após finalizado e lançado o DVD do Rio, estará pronto e assim registrada a histórica apresentação do Radiohead no Brasil em 2009. Creio que não há mais nada que eu possa fazer relacionado ao projeto. O blog e os downloads continuarão lá, para as pessoas baixarem ou lembrarem do show.

E como anda o Refink? Quais os planos? O Projeto Rain Down impulsionou a carreira?

O Refink vai bem, estamos concentrados em gravar nosso primeiro CD independente, sem apoio financeiro ou patrocínio, e queremos lançá-lo de forma livre pela internet e possivelmente unir vídeos a essas músicas. A ideia é gravar as músicas demos agora e depois entrar em estúdio, fazer todo o CD com a melhor qualidade possível. O projeto Rain Down ajudou bastante a banda virtualmente, mas, fisicamente ainda encontramos muita dificuldade no cenário independente, que não abre as portas para bandas honestas como o Refink, principalmente para questão de shows, então, teremos a dura missão de criar uma brecha nesse cenário, livre de modismo, panelinhas e da exploração. Esperamos conseguir e se não conseguirmos, continuaremos a tocar o nosso som da mesma forma.

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Caso queria rever artigo sobre a apresentação do Radiohead em São Paulo, clique AQUI.


Imagens do show: Daniela Vasques
Capa: Divulgação

terça-feira, 23 de março de 2010

Estrada

Eis o primeiro aniversário.

Preciosa


Há exato um mês, às 18h05, entrei em uma sala de cinema e assisti ao filme "Preciosa – uma história de esperança". Sem delongas: trata-se de uma obra comovente sobre uma garota que, no íntimo, gosta de cantar e cuja cor predileta é o amarelo. Não vou revelar a trama, tão menos recortar cenas que apelem para emoção, apenas dividir algumas sensações.

Estamos nas ruas do Harlem, no final dos anos 1980. Preciosa (vivida pela talentosa estreante indicada ao Oscar Gabourey Sidibe), aos dezesseis anos, vítima de uma vida massacrante, anda tropeçando nos estudos. Grávida do segundo filho, descobrimos já nos primeiros momentos que ela não está muito familiarizada com as letras. O que não impede que suas observações acerca do universo opressor por ela habitado insinuem uma inclinação filosófica e conduzam o espectador à reflexão.

E bota opressão neste universo. Dizer qual a ponta que fere mais seria impreciso e desnecessário, afinal, como alcançar os hematomas do drama protagonizado por ela? Vale dizer que em alguns momentos vemos a jovem se abstrair das agressões ao embarcar em sonhos coloridos, alegres, coberto por flashes. A jovem recorre a tais fugas quando as violências que a cercam se tornam insuportáveis. Podemos ressaltar que os percalços por ela vividos foram muitos e sofridos, como os constantes estupros por parte do pai e as desmedidas ferroadas da mãe.

A esse respeito, há uma cena emblemática e reveladora: Preciosa caminha num dia nublado e um garoto, um desafeto da escola, a empurra pelas costas. Ela vai ao chão e lá permanece. Embarcamos em uma de suas aspirações, onde os brilhos e as luzes se sobressaem. Quando a realidade se faz presente, minutos depois, o rosto no chão: é a dura vida que continua. Seguir será sempre uma superação. E podemos pensar que tal palavra, superação, é explorada de forma contundente nas ações de Preciosa.

Chegamos ao quinto parágrafo e estamos próximo ao fim. Muito provável que as divagações tenham encorpado o texto mais do que desejariam leitores ávidos por objetividade, certamente estes ficaram frustrados. Contudo, resolvi apresentar tais linhas porque a folhinha caiu e muitas imagens ainda me voltam à mente, assim, de repente. O que pensar das lágrimas no rosto de Gabourey Sidibe numa das passagens mais instigantes quando a garota questiona o amor e tudo o que sofreu em seu nome. O que, afinal, seria o amor?

Há muito o que sentir. Como a complexa cena em que a mãe de Preciosa (Mo’Nique, recém-vencedora do Oscar) depõe a uma assistente social (interpretada por Mariah Carey): um turbilhão de emoções, injustiças, ingenuidade e desequilíbrio são sustentados por uma voz entrecortada por choro. Sensacional e, ao mesmo tempo, perturbador e comovente. Três adjetivos que bem cabem a uma simplória definição do filme.

"Preciosa – uma história de esperança" foi dirigido por Lee Daniels e apresentado por Oprah Winfrey e Tyler Perry. Recentemente levou duas estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: venceu nas categorias de melhor roteiro adaptado e melhor atriz coadjuvante. Está em cartaz em São Paulo.


Imagem: divulgação

Obs

Andei distante, faz pouco mais de um mês que não escrevo. Contudo, voltei. E, assim, vamos com novas postagens. Obrigado pelas leituras.