O motor fumando, os bois balançando, a estrada comendo. A chuva grossa caindo e o verão lamacento se desmanchando no asfalto molhado. O janeiro revoltado via o céu despencar.
Eram uns quinze primos de bisão que haviam subido ao caminhão naquela manhã fechada. É dito que a morte prum boi de encomenda chega roubada, a cabeça zune na marretada, as partes caem latejando com os golpes da lâmina. É coisa triste assim do bicho nem ter tempo de gritar, mesmo porque sua voz é pouca e o coração é manso.
Os bovinos iam calados na carroceria do pálido veículo. O confinamento já era vida comum dos que agora seguiam ouvindo o som da água a estalar no teto e nas paredes de alumínio sobre as rodas que ganhavam a rodovia. O combinado não era pra mais de duas horas de viagem. Já passava das três e ainda havia chão.
Um motoqueiro irrompeu ao lado do veículo. O guidão bambeou no lameirão que havia se tornado a pista. O freio faltou quando a motocicleta cortou à frente do caminhão que jogou para a direita. O caminhoneiro tentou não derrapar, tentou não virar, mas o esforço foi vão. As marcas dos pneus venceram a chuva e revelaram o asfalto quando o caminhão tombou.
Com o choque, a carroceria partiu ao meio e os bois desabaram uns sobre os outros. Uns dez morreram já na queda. Era pescoço quebrado, perna amassada, sangue vazando, olhos saltados. As portas de alumínio voaram e dois deles caíram ao asfalto e foram arrastados pelos metros em que o caminhão prosseguiu andando virado.
Até que parou. Três bois sobreviveram ao acidente e suas cansadas patas ganharam o chão aquoso. Os carros que vinham na rabeira fecharam a pista. Não tardaram a chegar a polícia e as emissoras de televisão. As câmeras registraram o policial apontar o rifle para a cabeça de um boi inerte no acostamento coberto por grama e barro. O tiro na cabeça liquidou a existência do inocente animal.
O policial ceifou ainda os outros dois prometidos aos açougues e que no momento estavam livres das amarras. Só que antes de receberem chumbo, eles se mantiveram parados e quietos. Talvez os assombrasse a pena de fugir. Talvez nem houvesse assombro, apenas uma resignação enraizada na vida de cativeiro. Talvez o campo fosse uma miragem já esquecida em seus fortes corações.
O caminhoneiro e o motociclista saíram ilesos do acidente.