sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Raios


Há duas semanas, uma tempestade de raios atingiu um pedaço do céu de São Paulo. Era um domingo, os tropeções davam o tom da programação de auditório na televisão e o relógio já passava das 20h. As fotografias foram tiradas em Ponte Rasa, no dia 10 de janeiro, com uma câmera digital. Mesmo com os raios que cortavam a noite – e me lembrei de Machado de Assis que assinalava que um relâmpago pode deixar a escuridão ainda mais escura –, naquele local a chuva veio mas rapidamente se foi.




Agradeço a Jefferson e Jéssica Lima que compartilharam, além dos cliques, aquele bom final de semana e me passaram as fotos depois. Jéssica é autora do blog Publicidade em Rosa, veja em www.publicidadeemrosa.blogspot.com.

Imagens: Danilo Vasques.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Acidente


O motor fumando, os bois balançando, a estrada comendo. A chuva grossa caindo e o verão lamacento se desmanchando no asfalto molhado. O janeiro revoltado via o céu despencar.

Eram uns quinze primos de bisão que haviam subido ao caminhão naquela manhã fechada. É dito que a morte prum boi de encomenda chega roubada, a cabeça zune na marretada, as partes caem latejando com os golpes da lâmina. É coisa triste assim do bicho nem ter tempo de gritar, mesmo porque sua voz é pouca e o coração é manso.

Os bovinos iam calados na carroceria do pálido veículo. O confinamento já era vida comum dos que agora seguiam ouvindo o som da água a estalar no teto e nas paredes de alumínio sobre as rodas que ganhavam a rodovia. O combinado não era pra mais de duas horas de viagem. Já passava das três e ainda havia chão.

Um motoqueiro irrompeu ao lado do veículo. O guidão bambeou no lameirão que havia se tornado a pista. O freio faltou quando a motocicleta cortou à frente do caminhão que jogou para a direita. O caminhoneiro tentou não derrapar, tentou não virar, mas o esforço foi vão. As marcas dos pneus venceram a chuva e revelaram o asfalto quando o caminhão tombou.

Com o choque, a carroceria partiu ao meio e os bois desabaram uns sobre os outros. Uns dez morreram já na queda. Era pescoço quebrado, perna amassada, sangue vazando, olhos saltados. As portas de alumínio voaram e dois deles caíram ao asfalto e foram arrastados pelos metros em que o caminhão prosseguiu andando virado.

Até que parou. Três bois sobreviveram ao acidente e suas cansadas patas ganharam o chão aquoso. Os carros que vinham na rabeira fecharam a pista. Não tardaram a chegar a polícia e as emissoras de televisão. As câmeras registraram o policial apontar o rifle para a cabeça de um boi inerte no acostamento coberto por grama e barro. O tiro na cabeça liquidou a existência do inocente animal.

O policial ceifou ainda os outros dois prometidos aos açougues e que no momento estavam livres das amarras. Só que antes de receberem chumbo, eles se mantiveram parados e quietos. Talvez os assombrasse a pena de fugir. Talvez nem houvesse assombro, apenas uma resignação enraizada na vida de cativeiro. Talvez o campo fosse uma miragem já esquecida em seus fortes corações.

O caminhoneiro e o motociclista saíram ilesos do acidente.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Varais



Vemos o primeiro dia de 2010 acontecer sob chuva forte aqui em São Paulo e noutros cantos desse país enorme que é o Brasil. E como o começo de ano inspira renovações, faço fé que possamos melhorar nosso mundo para vivermos um tanto quanto em harmonia e, sobretudo, para deixarmos um chão de esperanças às crianças de hoje e sempre.

Imagens realizadas em maio de 2009 por Danilo Vasques