quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Beatlemaníaco


O fã brasileiro que conheceu os Beatles 

por Danilo Vasques

Ele estava à frente do Edifício Dakota conversando com uma amiga que, de repente, apontou para um ponto atrás de suas costas e começou a gaguejar. O homem barbudo virou-se e viu que estava ombreado por um de seus maiores ídolos. Não titubeou e em inglês se apresentou: — Olá, John, sou Marco Antonio, do Brasil, do Revolution.

Lennon estendeu-lhe a mão e a conversa rolou por uns 15 minutos diante de um pequeno grupo que se formou ao redor. Yoko Ono passou rapidamente ao lado acompanhada por um editor da revista Rolling Stone. Em dado momento, John perguntou ao brasileiro qual sua música predileta e ouviu uma resposta generalizada, mas à insistência de Lennon destacou a preferida: She Loves You.

Quase um mês e meio depois, na caixa de Correios de Marco Antonio Mallagoli um disco de ouro da música datado de 1963 traz um bilhete do assessor de Jonh Lennon sublinhando que o ex-beatle pedira que lhe enviasse o presente. Segundo suas palavras, o disco "estaria melhor em suas mãos" do que nas do próprio John. Emoldurado, o ícone acompanha outras muitas preciosidades numa das paredes do escritório particular do fã brasileiro.

Lennon e Mallagoli conversam por cerca de 15 minutos em Nova York

O encontro em Dakota ocorreu em 10 de outubro de 1980. Após dois meses, Lennon seria assassinado ali mesmo, em frente ao Central Park, há exatos 30 anos.

Beatles

A paixão pelo mais famoso grupo da história começou quando a bendita She Loves You estourou em seus ouvidos no ano de 1963. Acontecia ali uma revolução dentro de Mallagoli que passou a armazenar tudo quanto fosse informação sobre a banda, cuja imagem ainda era incipiente no Brasil - só lá para maio do ano seguinte que seus rostos ficariam estampados na mídia daqui. Recortes, matérias, gravações, conversas... Não largava o que caísse em suas mãos com o rótulo de Beatles. Aventurou-se no inglês para entender melhor o que ouvia e as notas passou a tocar primeiro de forma amadora e logo profissionalmente. A sua busca configurou o embrião do Revolution, dissidência de outro fã-clube. O nome da canção também apelida sua banda (e foi também título de revista, bar...).

Mallagoli tornou-se um especialista em Beatles. E como todo especialista apaixonado, quis conhecer de perto a razão de sua guinada pessoal e profissional. Assim, realizou o sonho (o mesmo de outras milhões de pessoas) de encontrar os quatro ingleses que mudaram os rumos culturais a partir da metade do século passado. Conheceu todos, não de uma vez, mas teve com cada um o seu momento.

Pessoalmente

O primeiro a encontrar foi George Harrison. Aconteceu em 1979 aqui no Brasil, durante o Grande Prêmio de Fórmula 1. O autor de Something veio assistir ao evento a convite de Emerson Fittipaldi. Não deu outra, pouco depois estavam trocando ideias. Passados nove anos, em maio de 1988, na casa de Annie Lenoxx, em Los Angeles, Mallagoli estaria novamente ao lado de George. Era dia 25, aniversário da esposa que ficara no Brasil.

George e Mallagoli na casa de Annie Lennox no final dos anos 1980

Em meados de 1989, o fã acompanharia uma série de shows de Ringo Starr pelo interior de Nova York. No último que presenciaria, em Saratoga Springs, conseguiu uma credencial de fotógrafo com o empresário do artista e ficou grudado no palco. Desprevenido e não acreditando muito na situação, disparou a clicá-lo o máximo possível: o filme acabou na primeira música. Conseguiu acesso ao camarim e teve oportunidade de cumprimentar pessoalmente um ex-beatle resfriado.


Ringo Starr fotografado por Mallagoli em show de 1989

Em novembro do mesmo ano, viria Paul McCartney em um setor reservado do Madison Square Garden: tratava-se de um coquetel inflado com duas centenas de pessoas e sem possibilidades de aproximação. Contudo, no ano seguinte, no camarim do Maracanã, Mallagoli teria com Paul. Na ocasião, comentou que sua filha com então quatro anos de idade adorava Yesterday ("Yestoday", como ela cantava, observa Mallagoli). McCartney sugeriu que o fã brasileiro levasse a família no dia seguinte para conhecê-lo. Eis que quando a pequena entra no camarim, Paul cantarola a canção predileta da menina - Mallagoli vibra ao recontar a história. Reencontrariam-se novamente em 1993 na ocasião do show no Pacaembu e Paul receberia um baixo de presente. Veriam-se ainda em ocasiões futuras.

Paul recebe Mallagoli e família no camarim do Maracanã
Ocasião

Na esteira das apresentações de Paul no Brasil, aos 68 anos de idade e com vigor impecável, da recém-abertura da venda do catálogo dos Beatles pela internet e dos 30 anos da morte de John, completados hoje, convidamos Mallagoli a responder por e-mail algumas questões sobre esse tripé temático:

Café de Outubro: Para você que esteve com Lennon dois meses antes de seu assassinato, o que representa pessoalmente essas três décadas completadas de sua morte?

Mallagoli: A dor é a mesma de 30 anos atrás e a ausência dele é imperdoável. Se ele estivesse ainda por aqui imagino o que estaria fazendo em termos musicais, até mesmo junto a Paul McCartney e Ringo Starr. Ele faz falta e sei que o mundo seria bem melhor com ele aqui. Talvez até o George ainda ficasse mais um tempo se o John ainda estivesse por aqui, quem sabe?

Café: E o que representa para o mundo?

Mallagoli: Ele é um dos maiores ícones da música mundial, um dos maiores gênios e isso faz falta ao mundo. A cultura mundial sofre e muito com a ausência de John Lennon. Ele é um revolucionário sem precedentes.

Café: Recentemente, Paul esteve de volta ao Brasil. Fez shows em duas capitais brasileiras e também em Buenos Aires, na vizinha Argentina. Esteve com ele novamente durante a passagem pela América Latina?

Mallagoli: Infelizmente dessa vez não estive com ele nos camarins, apenas (e, olha, isso é ser modesto) assisti aos shows. Mas também este ano bati meu "record" - assisti a sete shows dele - em Cardiff, Londres, Porto Alegre, dois em Buenos Aires e dois em São Paulo. E o fato de estar no mesmo local que ele, respirar o mesmo ar e ouvir ele cantando e tocando, já me sinto abençoado por isso. Afinal ele é um Beatle. Mas não vão faltar oportunidades de conversar com ele de novo.

Café: É preciso perguntar se você gostou dos shows?

Mallagoli: Acho que vou ser meio óbvio respondendo, mas uma amiga minha de Floripa (a Silvia Back), deu uma definição após o show de Porto Alegre que eu acho que explica bem o que é o show dele. Ela disse: "Se Deus existe, ele cantou hoje pra mim e usa suspensórios".

Café: Em linhas gerais, o que representa o acervo dos Beatles ser disponibilizado para comercialização pelo Itunes? Eis um elo concreto entre a Apple dos Beatles e a empresa de Steve Jobs?

Mallagoli: Eu acho que isso só vai atrair novos fãs e a nova geração que fica ligada no computador o dia todo e adora novas tecnologias. E eles são mais do que atuais, além de ser um "clássico". A revolução que eles começaram com a música não vai acabar nunca, novas gerações vão sempre descobrir Beatles por um meio ou outro. Eles já são imortais.

Perfil: Marco Antonio Mallagoli é músico e presidente do Revolution Fan Club. Edita o blog Beatlemaníaco, no portal da MTV.

Fotos: acervo pessoal de Marco Antonio Mallagoli. Todos os direitos reservados.

6 comentários:

  1. ¡Enhorabuena Danilo! , por esta entrevista.
    Muchas gracias por todo lo que nos cuentas de este amigo de los Beatles, el Sr. Mallagoli.
    Sabes cuando salieron de moda los Beatles, yo era una niña de trece años.
    Y me encantaban este conjunto nuevo de jóvenes con feliquillo de pastorcillo de Pesebre.
    En el barrio de Gracia de Barcelona, se formó
    un club de fans de los Beatles, yo no me apunté porque era muy jovencita.

    Los Beatles no pasarán nunca de moda.

    Fue una pena que asesinaran a Jhon Lennon, a traición.

    Un abrazo y ¡Felices Fiestas!, Montserrat

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  2. Realmente sempre digo que Mallagoli é uma pessoa iluminada, pois esteve com os FAB4 e em 2000 no aniversário de 20 anos de morte de John Lennon,quando foi plantada uma arvore em sua homenagem em Liverpool, a irmã de Lennon, Julia Bayrd, em meio a uma multidão , chegou perto de Mallagoli e estendendo a mão lhe disse;
    - Thank you for coming!Foi de arrepiar!!

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  3. Hola, Montserrat,

    gracias por su visita. Estoy feliz con su comentario. La experiencia de Mallagoli es muy rica, es importante saberla y compartirla aquí también.

    Me gustó leer sobre su proximidad com los Beatles y estoy de acuerdo que la muerte de Lennon es una gran traición.

    Gracias por las palabras. ¡Felices Fiestas para usted e tu familia también!
    Abrazos!

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  4. Olá, Nilia,

    muito obrigado por visitar meu blog e por comentar. Parece-me mesmo que Mallagoli se fez iluminado ao conhecer os quatro e também por tudo o que conquistou. Agradeço por compartilhar aqui mais essa história de seu longo repertório, sobre o aniversário de 20 anos da morte de John: eis um grande reconhecimento! Sem dúvidas de arrepiar.

    Abraços.

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  5. Belíssima postagem, Danilo. Emocionante e emocionada, como convém a tudo que se diga sobre nossos eternos ídolos. Parabéns, e um grande abraço deste amigo das respostas atrasadas.

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  6. Jo, muito obrigado pelo comentário! Disse bem, os eternos ídolos que emocionam! Sua presença por aqui é sempre muito bem-vinda, obrigado pela visita. Um grande abraço!

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