domingo, 5 de setembro de 2010

Cansada

um conto de Danilo Vasques
 
A jovem Lina, nos seus dezessete anos, dormia sobre a velha cama armada no alto de quatro blocos de concreto. Movimento qual fosse provocava grunhidos das ripas do estrado envergado. O colchão de uma fineza ímpar sustentava os cinquenta e três quilos do corpo de menina crescida. A madrugada a estourar com o relógio despertando os ouvidos: os olhos abriram-se para os primeiros fragmentos de luz no quarto.

Veio o banho. Banheiro torto. Corpo firme sob um curto jato da água do chuveiro queimado. Minutos nem da conta para se esquecer as gotas na toalha e quentar o corpo na roupa que lhe cabia certa: um jeans seu número, já gasto. Sem detalhes, a blusa era cinza, cor da paisagem.

Na iminência de partir ao trabalho, franziu o estômago num reflexo da noite sem jantar. Caminhou à cozinha e as mãos logo encontraram um inhame cru sobre a mesa ladeado por uma banana madura cortejada por pequenos mosquitos. A vontade foi da fruta, mas, quando a boca decidiu recebê-la, o silêncio da casa se sobressaiu. Os olhos enxergaram o menino seu irmão dormindo no quarto distante por um cortina de tiras de bambu. Ele dormia abraçado à mãe. Não houve prosseguimento, Lina repôs a banana ao seu lugar. Para tocar o dia que começava, encheu de água e esvaziou um copo de vidro, o qual um dia estivera repleto de tomate.

Cruzou os mundos e trancou por fora a envelhecida porta de cedro tingida por gelo que seguia encardindo com o passar da história. Sem fruta, café ou pão, despediu-se. Um até logo. Não se sabe para quem. O pai já compunha vida no trabalho e a família que ficara na casa dormia. Lina caminhou até a parada. O ônibus chegou lotado. Mergulhou no corpo do veículo como uma batata se aprochega ao fundo do saco de estopa.

Foi que num instante o silêncio da manhã se rompeu quando o 3574-Pq. Dom Pedro freou bruscamente. A sorte do motociclista que rompeu à frente do ônibus, cortando suas vistas, foi que as alpargatas do motoristas alinharam-se com seus reflexos a frear antes do coletivo atropelar a motocicleta. Os passageiros se amontoaram, mas não houve queda. Dos danos: um tornozelo torcido sob um vestido de flores.

O sol já pintava São Paulo quando Lina chegou ao trabalho. Nesta altura, o ônibus ficara no esquecimento. As horas, no cartão. Os minutos, no atraso.

2 comentários:

  1. Hola Danilo.

    He leido tu relato, me ha gustado

    A veces los autobuses frenan bruscamente y alguien se rompe algún hueso.

    Pobre Lina llegó tarde al trabajo.

    Un abrazo, Montserrat

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  2. Hola, Montserrat!

    Mucha gracias por su lectura! Gracias por gustar de mi breve historia.

    "Cansada" es un pequeño trecho de una major historia que habia escribo, pero no ha sido publicada todavía. Una historia que quiero presentar aquí en otros días.

    Lina es una personaje que yo habia ya introducido en otro cuento.

    Enfim, muchas gracias por su palabras y por la paciencia de lectura.

    Obrigado!

    Un abrazo

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