um conto de Danilo Vasques
Vou preparar o almoço. Da geladeira, pego uma lata de cerveja, fria apenas, e entorno metade num copo, somo uma pedra de gelo. Bebidinha ruim, gosto amargo, nunca fui chegado em cerveja. O remédio acabou, essa coceira ferina em meu corpo, a barriga ardendo, preciso de um gole. Começo a fazer o arroz, não tenho óleo, viro uma colher de margarina na panela, frito o alho, bebo mais. Boto sem lavar o pouco do arroz que havia no pacote. Completo o copo, deixo um colarinho, mexo o arroz até deixá-lo no ponto. Despejo a água que já ferveu. Sento numa cadeira, trago o copo para a mesa, observo o líquido dourado, penso nas propagandas da TV, tão perigoso esse lance de vender álcool, bebidinha que só me trai, boa agora, ruim depois. Os meninos lá da vila bebem sem pensar, coitados. Verto à garganta o que resta da cerveja, o gelo se desfez.
O corpo queima, a coceira me consome. Faz três dias que não encontro o xarope, a barba parece que tem piolho, as caspas caem da cabeça, os olhos estão inchados. Preciso descansar, mas hoje não volto pra cama. Acordei ao meio-dia. O sol vazando a janela de madeira podre do meu quarto, fazendo as pernas ferverem embaixo do cobertor, não dava mais pra dormir. Tomei banho gelado para esfriar a pele. Vi umas fotos no jornal que meu primo deixou aqui anteontem, não quis ler. Liguei a televisão, estava passando a previsão do tempo, nada de chuva, procurei os óculos para enxergar a moça à frente do mapa. É sagrado, de segunda a sexta-feira acompanho o serviço meteorológico das 13h15. Tenho acordado tarde, faz um mês que vou dormir quando ouço os primeiros vizinhos a baterem as portas de seus carros ao saírem para o trabalho. Estou desempregado. Passo às noites em frente ao computador: mando currículos, vejo algumas garotas, ouço músicas.
Não tenho planta, peixe, gato ou cachorro. Só arroz basta. Desligo o fogo, vou deixar abafado uns dez minutos. Venho para o quarto, boto uma bermuda marrom, continuo de chinelo. Preciso de uma bebida. Pego outra lata na geladeira, não quero mais copo. Está fria como a anterior, porém, parece-me mais gostosa. Odeio beber, sinto-me vencido. Contudo, o maldito remédio acabou. Depois da terceira lata, tenho certeza que a coceira diminuiu e os caroços não estão sagrando, a bebida realmente está ajudando. Pego um prato, três colheres de arroz. Estou controlando a comida, preciso emagrecer. Esqueci de comprar sal. O dinheiro que tenho dá pruma semana, no máximo duas. O arroz ficou papa, não termino o prato. Pego nova cerveja. É terça-feira, sou adulto, tenho direito.
Vou comprar salsichas. Vou agora. Boto uma camiseta. Não posso desperdiçar essa lata, vai comigo. No caminho, bate uma reflexão urgente que se conclui numa indignação em voz alta: "Deviam consertar essas calçadas de merda, a prefeitura não vê que devia fazer uma fiscalização, não é certo a gente honesto assim tropeçar nas calçadas dos outros". Vou pelo asfalto, é mais seguro. Estou cansado, preciso sentar, não aguento esse sol. Sento aqui mesmo, no meio da passagem pública. Carros? Que desviem. Aqueles meninos riem, deviam estar numa sala de aula. Eu estudei, venci na vida. Vou ensiná-los a respeitar os mais velhos. Podem correr, eu os alcanço. Não alcanço. Ao me levantar, balbuciando, agradeço a ajuda de uma senhora e de seu neto. Um quilo de salsichas pedi. Quatro pães, adoro cachorro-quente. Esqueci o troco. Volto amanhã para buscar.
Preciso dormir, são quatro da tarde, estou cansado. Esvazio outra lata, estava trincando. Estou curado, a pele já não grita, a cabeça não dói, sinto-me feliz. Só não posso voltar para a cama, odeio aqueles bichos. Espio da porta, vejo entre os lençóis, no mínimo, uns dez pontos pretos. Não suporto mais essas formigas, essas moscas. Acho até que era uma larva que tirei da orelha ontem de noite. Não sei dizer quando foi que os primeiros insetos habitaram meu leito, faz tempo. Quando estou dormindo, sinto que eles me atacam em marcha, ferem minhas costas, minhas pernas, meu rosto. Mas, esperto que sou, me viro daqui pra lá e esmago ao menos uns trinta por vez, minhas costas sempre ficam com as manchas do sangue. Quando acordo, a primeira coisa que faço é conferir o resultado no espelho. Não vou deitar agora.
Reencontro a geladeira, outra cerveja. Pego logo duas, assim evito gastar energia abrindo a porta da geladeira apenas uma vez. A conta vai vencer dia vinte, vinte e dois, coisa assim. Preciso de um emprego, sou bom em cálculos. Formei-me com excelência. Tenho disciplina. A chave para esse negócio é mostrar segurança, ser sério, ser inabalável. Sou assim. Segunda-feira, tenho fé, vou estar batendo ponto novamente. Vou correr atrás amanhã. É isso, corpo e mente juntos, vontade e movimento. Amanhã resolvo, só preciso descansar agora, me preparar, relaxar a mente, tomar mais uma.
Pego um pão e com as mãos parto-o em duas metades. Não lembro onde deixei as salsichas. Deixo pra lá, largo o pão sobre a mesa, não estou com fome. Estou enjoado, um pouco tonto. Preciso melhorar as coisas, a televisão está ruim, vou arrancar a antena agora mesmo, melhor sem ela. Que barulho horrível esse telefone, porcaria que não para de tocar. Arremesso o aparelho celular pela janela, ele cai no meio da rua – olhei antes para me certificar que não iria acertar ninguém, sou cuidadoso. O violão está sem a Sol, arrebentou anteontem, não lembro como, foi meu primo, tenho certeza. Não sei o que fazer, não quero ler, não quero pensar. Está doendo, estou estranho, sinto-me triste, acho. Vou beber outra.
Oi Jorge, ouvi você dizer quando chegou.
Bom café, adoro café, você que preparou. Obrigado. Acabou o açúcar? Tudo bem, sou cowboy. Banho? Claro, primeiro me lavo depois a gente conversa, combinamos de conversar, não foi? Eu lembro. A água está gelada, preciso consertar esse chuveiro. Tomei choque da última vez, chorei como um menino, verdade, não ria de mim. Droga, esqueci a toalha, tudo bem, a casa é minha, alugada, mas minha, e só preciso correr até o quarto. Não queria que você me visse nu, contudo, agradeço quando seus braços me ajudam a levantar no meio do corredor.
Visto a melhor camisa que tenho. Boto jeans, porque sou um homem sério. Encontro seu rosto apreensivo na cozinha, passa das nove. Combinamos jantar, esqueci. Quer cachorro-quente? Você sorri e a preocupação parece deixá-la naquele momento. Observo a ternura que há em seu olhar e me sinto confortado. Você precisa parar de beber. Concordo, aceito um comprimido, tomo meio copo de água e desabo em seus braços. Choro sem soluçar e me sinto acalorado. Acho que ainda consigo ser feliz.
Vou preparar o almoço. Da geladeira, pego uma lata de cerveja, fria apenas, e entorno metade num copo, somo uma pedra de gelo. Bebidinha ruim, gosto amargo, nunca fui chegado em cerveja. O remédio acabou, essa coceira ferina em meu corpo, a barriga ardendo, preciso de um gole. Começo a fazer o arroz, não tenho óleo, viro uma colher de margarina na panela, frito o alho, bebo mais. Boto sem lavar o pouco do arroz que havia no pacote. Completo o copo, deixo um colarinho, mexo o arroz até deixá-lo no ponto. Despejo a água que já ferveu. Sento numa cadeira, trago o copo para a mesa, observo o líquido dourado, penso nas propagandas da TV, tão perigoso esse lance de vender álcool, bebidinha que só me trai, boa agora, ruim depois. Os meninos lá da vila bebem sem pensar, coitados. Verto à garganta o que resta da cerveja, o gelo se desfez.
O corpo queima, a coceira me consome. Faz três dias que não encontro o xarope, a barba parece que tem piolho, as caspas caem da cabeça, os olhos estão inchados. Preciso descansar, mas hoje não volto pra cama. Acordei ao meio-dia. O sol vazando a janela de madeira podre do meu quarto, fazendo as pernas ferverem embaixo do cobertor, não dava mais pra dormir. Tomei banho gelado para esfriar a pele. Vi umas fotos no jornal que meu primo deixou aqui anteontem, não quis ler. Liguei a televisão, estava passando a previsão do tempo, nada de chuva, procurei os óculos para enxergar a moça à frente do mapa. É sagrado, de segunda a sexta-feira acompanho o serviço meteorológico das 13h15. Tenho acordado tarde, faz um mês que vou dormir quando ouço os primeiros vizinhos a baterem as portas de seus carros ao saírem para o trabalho. Estou desempregado. Passo às noites em frente ao computador: mando currículos, vejo algumas garotas, ouço músicas.
Não tenho planta, peixe, gato ou cachorro. Só arroz basta. Desligo o fogo, vou deixar abafado uns dez minutos. Venho para o quarto, boto uma bermuda marrom, continuo de chinelo. Preciso de uma bebida. Pego outra lata na geladeira, não quero mais copo. Está fria como a anterior, porém, parece-me mais gostosa. Odeio beber, sinto-me vencido. Contudo, o maldito remédio acabou. Depois da terceira lata, tenho certeza que a coceira diminuiu e os caroços não estão sagrando, a bebida realmente está ajudando. Pego um prato, três colheres de arroz. Estou controlando a comida, preciso emagrecer. Esqueci de comprar sal. O dinheiro que tenho dá pruma semana, no máximo duas. O arroz ficou papa, não termino o prato. Pego nova cerveja. É terça-feira, sou adulto, tenho direito.
Vou comprar salsichas. Vou agora. Boto uma camiseta. Não posso desperdiçar essa lata, vai comigo. No caminho, bate uma reflexão urgente que se conclui numa indignação em voz alta: "Deviam consertar essas calçadas de merda, a prefeitura não vê que devia fazer uma fiscalização, não é certo a gente honesto assim tropeçar nas calçadas dos outros". Vou pelo asfalto, é mais seguro. Estou cansado, preciso sentar, não aguento esse sol. Sento aqui mesmo, no meio da passagem pública. Carros? Que desviem. Aqueles meninos riem, deviam estar numa sala de aula. Eu estudei, venci na vida. Vou ensiná-los a respeitar os mais velhos. Podem correr, eu os alcanço. Não alcanço. Ao me levantar, balbuciando, agradeço a ajuda de uma senhora e de seu neto. Um quilo de salsichas pedi. Quatro pães, adoro cachorro-quente. Esqueci o troco. Volto amanhã para buscar.
Preciso dormir, são quatro da tarde, estou cansado. Esvazio outra lata, estava trincando. Estou curado, a pele já não grita, a cabeça não dói, sinto-me feliz. Só não posso voltar para a cama, odeio aqueles bichos. Espio da porta, vejo entre os lençóis, no mínimo, uns dez pontos pretos. Não suporto mais essas formigas, essas moscas. Acho até que era uma larva que tirei da orelha ontem de noite. Não sei dizer quando foi que os primeiros insetos habitaram meu leito, faz tempo. Quando estou dormindo, sinto que eles me atacam em marcha, ferem minhas costas, minhas pernas, meu rosto. Mas, esperto que sou, me viro daqui pra lá e esmago ao menos uns trinta por vez, minhas costas sempre ficam com as manchas do sangue. Quando acordo, a primeira coisa que faço é conferir o resultado no espelho. Não vou deitar agora.
Reencontro a geladeira, outra cerveja. Pego logo duas, assim evito gastar energia abrindo a porta da geladeira apenas uma vez. A conta vai vencer dia vinte, vinte e dois, coisa assim. Preciso de um emprego, sou bom em cálculos. Formei-me com excelência. Tenho disciplina. A chave para esse negócio é mostrar segurança, ser sério, ser inabalável. Sou assim. Segunda-feira, tenho fé, vou estar batendo ponto novamente. Vou correr atrás amanhã. É isso, corpo e mente juntos, vontade e movimento. Amanhã resolvo, só preciso descansar agora, me preparar, relaxar a mente, tomar mais uma.
Pego um pão e com as mãos parto-o em duas metades. Não lembro onde deixei as salsichas. Deixo pra lá, largo o pão sobre a mesa, não estou com fome. Estou enjoado, um pouco tonto. Preciso melhorar as coisas, a televisão está ruim, vou arrancar a antena agora mesmo, melhor sem ela. Que barulho horrível esse telefone, porcaria que não para de tocar. Arremesso o aparelho celular pela janela, ele cai no meio da rua – olhei antes para me certificar que não iria acertar ninguém, sou cuidadoso. O violão está sem a Sol, arrebentou anteontem, não lembro como, foi meu primo, tenho certeza. Não sei o que fazer, não quero ler, não quero pensar. Está doendo, estou estranho, sinto-me triste, acho. Vou beber outra.
Oi Jorge, ouvi você dizer quando chegou.
Bom café, adoro café, você que preparou. Obrigado. Acabou o açúcar? Tudo bem, sou cowboy. Banho? Claro, primeiro me lavo depois a gente conversa, combinamos de conversar, não foi? Eu lembro. A água está gelada, preciso consertar esse chuveiro. Tomei choque da última vez, chorei como um menino, verdade, não ria de mim. Droga, esqueci a toalha, tudo bem, a casa é minha, alugada, mas minha, e só preciso correr até o quarto. Não queria que você me visse nu, contudo, agradeço quando seus braços me ajudam a levantar no meio do corredor.
Visto a melhor camisa que tenho. Boto jeans, porque sou um homem sério. Encontro seu rosto apreensivo na cozinha, passa das nove. Combinamos jantar, esqueci. Quer cachorro-quente? Você sorri e a preocupação parece deixá-la naquele momento. Observo a ternura que há em seu olhar e me sinto confortado. Você precisa parar de beber. Concordo, aceito um comprimido, tomo meio copo de água e desabo em seus braços. Choro sem soluçar e me sinto acalorado. Acho que ainda consigo ser feliz.
Bebi esse texto. Juro que quase senti as lágrimas escapulirem.
ResponderExcluirMais uma vez um texto seu consegue exceder quaisquer expectativas... e olha que já é de praxe esperar pelo melhor. Bjo
ResponderExcluirYgor, Dan, só posso agradecer os elogios. Obrigado pela força das leituras e das palavras.
ResponderExcluir