quinta-feira, 8 de abril de 2010

Bolachas

um conto de Danilo Vasques 

Contaram-me que Joana era boa no vôlei. Consta que era uma talentosa armadora e que defendia como ninguém. É sabido que seus saques ainda são rememorados lá na vila, atrás da estação. Dizem que sua primeira partida foi na sexta série, quando o professor de Educação Física a convocou para montar o time oficial da escola. Num contragosto, a então menina de doze anos passou a reservar suas tardes de terça-feira para treinar com a equipe. Aprendeu a apreciar o esporte e no final daquela temporada ganhou sua primeira e única medalha. Abandonou a carreira no ano seguinte, quando precisou trabalhar por meio período na relojoaria do tio, como aprendiz, para ajudar em casa. Ainda assim continuou a jogar nos finais de semana. Era constantemente vista no ginásio lá do clube, mas, nunca se profissionalizou como atleta.

Contaram-me que Joana tinha jeito com a agulha. Ouvi dizer que herdou o dom da avó. Pregar botão sabia mesmo antes de aprender a escrever. A mão era tão boa na costura que deixou a relojoaria do tio com nem cinco meses de trabalho para fazer malhas com a mãe. Vendiam blusas, cachecóis, bermudas, saias e até avental Joana fazia. Em pouco tempo, as pessoas lá da vila chegaram a dizer que mesmo a mãe não era tão ágil como a menina que já estava na casa dos dezesseis anos. Tanto assim que por esse tempo foi trabalhar numa oficina no centro da cidade. Contudo, não ficou muito por lá. O rosto até secou do cansaço que viveu, a exploração era enorme e o dinheiro ralo. Estava na metade dos dezessete anos quando largou a costura.

Contaram-me que Joana aprendeu a tocar violão com o pai. Mas, essa história ninguém confirma. Dizem que ele bebia, não parava em casa e, mais dia, menos dia, fugiu com uma amante antes dos dez anos de Joana. Por outro lado, todo mundo lá na vila sabe que ele era um músico sem igual, que teria feito sucesso, não fosse a bebida, pra mor de até viajar saltando de palco em palco. Falam que a menina nem tinha as mãozinhas firmes e ele já lhe ensinava os nomes das cordas, as posições no braço. Uns afirmam que Joana puxou o talento do pai. Há até uma lenda na comunidade: conta-se que se a lua estiver alta, daquelas de romance, basta a pessoa ficar um tiquinho em silêncio, de se prender a respiração e tudo, que vai acabar ouvindo uma voz doce ao violão. Todos atribuem tal canto à Joana.


Contaram-me que Joana desenhava qualquer coisa que pedissem. Parece que até a vizinha lá de cima, uma senhora de poucas palavras, tida como amarga, chorou quando a jovem Joana lhe deu de presente um retrato que fizera. Contam que certa vez a vizinha estava numa praça, sentada, com um livro aberto. De repente, ela se levantou e partiu com uma cara amarrada. Joana, que passava por lá, percebeu uma foto esquecida no banco. Era o retrato de um jovem fardado. Correndo, ela alcançou a senhora e lhe devolveu a fotografia. A tal engasgou e agradeceu numa voz embargada. No dia seguinte, Joana desenhou de memória o rosto do jovem num papel e o levou para a vizinha que estremeceu. Passados uns segundos, ela entrou em prantos. Falou que o desenho era o rosto do filho que perdera na guerra. A partir daí, sempre quando se encontravam compartilhavam conversas.

Contaram-me que Joana só não foi desenhista de profissão porque entrou numa firma para empacotar bolachas. Primeiro registro na carteira, dezoito anos nas costas e muita empolgação. Fez treinamento, ganhou amizades. Trabalhou na esteira, onde corriam as bolachas parcialmente empacotadas. Joana as ordenava para a máquina de cola que também prensava os cantos do pacote. Ficou por ali seis meses quando, não se sabe exatamente como, uma de suas luvas enroscou na esteira e seu braço foi tragado até receber um punhado de cola e ser esmagado na prensa. A cabeça entortou com o tranco e a touca e os cabelos se prenderam também. A força da esteira e a pressão da prensa foram tamanhas que em poucos segundos arrancaram um nicho dos cabelos e a mão direita de Joana. O sangue tingiu o chão.


Contaram-me que Joana se recuperou da tragédia, que está aposentada e que hoje já não traz o semblante entristecido que adquiriu após o acidente. Falam que ela sempre foi talentosa para a vida e que superou totalmente as perdas sofridas na fábrica. Há rumores que ela anda cantando num microfone lá perto da estação. Comentaram até que um produtor gostou de sua voz e está pensando em gravar um disco solo de Joana. Ela já disse que vai chamar um velho conhecido para tocar o violão. Sobre o acontecido, o absurdo maior foi ouvir que os patrões apenas reclamaram o enorme lote de bolachas perdido, pois, o sangue havia se espalhado também pela esteira e se derramado sobre alguns pacotes abertos. Dizem por aí que eles nem sabiam o nome de Joana.


revisado às 2h19 de 10.out.2011

3 comentários:

  1. Ficção imitando realidade e vice-versa... Afinal toda ficção é humana e, portanto, encerra muito da realidade do ser humano. Com suas possibilidades, seus limites, suas aspirações e desilusões. Como Joana, e também seus patrões.

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  2. Que maravilha de texto!

    Um retrato fiel da rotina capitalista, onde mostra muito bem a relação subordinante-subordinado, além de um grande exemplo de superação por parte de Joana.

    Danilo, é um privilégio conhecer alguém como você.

    Parabéns.

    Beijos.

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  3. Jo, Jéssica, amigos. Obrigado pelos comentários. Fico contente que o texto tenha sido merecedor de palavras tão coerentes. Obrigado.

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