sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Raízes desnudas

E choveu a tarde toda. Há dois dias, segui por caminhos de Cidade A. E. Carvalho, zona leste da cidade, para registrar uma tragédia particular consequente das chuvas que atingem São Paulo há várias semanas: as constantes e prematuras quedas de árvores.


Sei que perdi a conta quando a cifra passava da primeira dezena de árvores caídas. O cenário era composto por troncos tombados, raízes desnudas e galhos arrancados, ruas interditadas e fios de eletricidade e de telefonia dependurados dos postes e espalhados pelo chão. A região ficou sem luz do começo da noite até pouco mais das 23h.


Conversei com pessoas, ouvi histórias e percebi um misto de espanto e tristeza entre os moradores. Um senhor grisalho que foi atingido por um raio e viu o telhado da casa desabar revelava um otimismo curioso: mesmo após o raio o arremessar contra a parede e as pernas não conseguirem pular a janela para fora, quando a água encharcava sua camisa e tudo tencionava ruir, ele se dizia abençoado. É que nenhum tijolo o atingira e ele não sofreu sequer um arranhão.




Pouco antes, conversei com algumas crianças que comentavam o quanto era triste ver uma árvore cair. Porém, mesmo com a tragédia defronte, uma delas enxergava no tronco tombado uma nave espacial. E, piloto experiente, correu para montá-la sorrindo: a imaginação dialogava com a realidade.



Quando a noite caiu, uma tristeza maior correu pela região. Começavam a pulular entre os moradores as primeiras notícias sobre algumas crianças que haviam desaparecido perto do córrego da avenida Caititu que desemboca no Jacu-Pêssego, entre os limites de A. E. Carvalho e Parque Guarani. Saberia-se mais tarde que uma idosa também sumira. O drama atrairia helicópteros ainda naquela noite e ganharia os noticiários de ontem. Já nesta manhã estaria estampado nas bancas de jornal da cidade.


Fotos realizadas por Danilo Vasques em Cidade Antonio Estevão de Carvalho no dia 3 de fevereiro de 2010.

5 comentários:

  1. Lindo, Danilo, lindo!
    Parabéns!
    Pelas fotos, e pelo texto.
    Árvores tombadas é sempre uma visão triste.
    Marciano Vasques

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  2. Muito obrigado pelo comentário e por seus elogios.
    Concordo com sua visão e compartilho de tal tristeza.
    Abraços.

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  3. É triste ver a natureza destruindo a natureza. Que as chuvas deem uma trégua daqui para frente.
    Parabéns pelo belo texto.

    Abraços.
    Jéssica.

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  4. Requiem para os jovens, para os idosos, para a natureza, para a cidade. Ressurgirá, a Fenix, das águas?

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  5. Jéssica, Jo, muito obrigado pelos comentários e considerações! Fortes abraços.

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