quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Revirada

Adentramos ao último dia do ano. A primeira hora desta quinta-feira, 31 de dezembro, começou há pouco: findamos juntos 2009.

Para muitos, o calendário que vira permite um recomeço. Um folhear de livros em que, de algum modo, a página que se deita irmana com a página vindoura. A vida é mesmo um trânsito inexplicável.
Tenho que um dia é um presente indescritível.
Por esse motivo, desejo um excelente novo dia a você que pacientemente lê estas frágeis linhas. Que as próximas horas lhe reservem uma bela manhã. E, tão logo o dia se vá, que recebamos com alegria o novo ano tão próximo.
E que ele traga maravilhas.
Feliz ano novo!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ônibus

O sol estava alto. São Paulo fervia às vésperas do Natal, dia 23. O cansaço e a fome dialogavam com um certo tom aventureiro que começou já quando acordei. Tão logo terminei o café, contei as moedas e ganhei a rua.

O metrô não estava tão cheio, mas o suficiente para uma moça ledora à minha frente ser prensada quando uma leva de gente entrou na estação Brás. Seguimos viagem e pude ainda ouvi-la reclamar baixinho os empurrões que levou. Também precisei abandonar o livro que seguia aberto quando fiquei pressionado contra a porta.

Encontrei a cidade cheia. O comércio tomado pelas bolsas e mochilas que insistem em esbarrar em nossos braços, pernas e costas. O asfalto quente, o céu claro. Conversei com algumas poucas pessoas, mas foi uma viagem solitária. A bateria do telefone havia esvaziado e estive de bem comigo durante as horas que seguiram. Uma boa quarta-feira.

Voltei ao metrô, embarquei. Passadas algumas estações olhei-me refletido no vidro da porta e percebi a gola torta. Eu parecia cansado a olhos alheios. Mas não muito. No meio do caminho, desci num shopping e pouco fiquei por lá. Logo, entrei num ônibus e segui.

Sentei-me no primeiro banco ao lado da dupla de portas que chocalhavam freneticamente. O barulho a cada tomada de acelerador era quase uma rajada de metralhadora. Quando o veículo acertava um buraco ou mesmo quando passava por um desnível de pista, o som das portas se chocando era tão alto que me lembrou a sessão de Avatar que assisti na segunda à noite. Pensei em retomar a leitura, mas, nem me atrevi, sabia que não seria possível se concentrar com aquele gritante trac-trac das defeituosas portas.

Quando vagou um banco à esquerda, imaginei que teria um leve sossego. O sol continuava a queimar o dia: o teto ou a cabeça certamente derreteriam. Um comprimido Dorflex atenuou a dor que se principiava abaixo dos cabelos. Mas, verdade seja dita, eu me sentia feliz.

Nas idas da estrada, subiu um bêbado vestido de camisa vermelha de entregador de Coca-Cola. Arrisco dizer, em idade de aposentos. E, por mais que saibamos que um bêbado pode atrapalhar qualquer viagem, eu senti vontade de rir quando ele passou a reclamar em voz alta. Veja, não ria dele, absolutamente, solidarizei-me prontamente, mas o humor, às avessas talvez, era por conta da situação. Aquela ideia de rir de si mesmo, da situação que nos cabe: o dia de verão extenuante, o ônibus barulhento, a fome apertando, a cabeça latejando e, de repente, surge um bêbado a falar alto.

Mas, ative-me ao que ele dizia. Versava ferozmente sobre as condições precárias do veículo. Leva pra garagem, motorista, troca de carro, esse aqui nem tem mais amortecedores. E persistiu dizendo que não era gado a ser transportado, que o cidadão não havia pago passagem para viajar de carroça, que ele entendia das coisas. Certamente, sua fala demonstrou uma consistência maior do que o silêncio que estávamos acostumados na viagem que já durava quase uma hora.

Ele, mergulhado em sua embriaguez, atacou as autoridades. Primou por responsabilizar os políticos tão distantes do transporte público. Verbalizou contra um veículo impróprio para conduzir diariamente centenas de pessoas aos seus lares.

Quando chegou sua parada, uma emburrada garota bruscamente lhe ordenou que logo descesse e quase o empurrou escada abaixo numa excelente demonstração de falta de educação. A viagem continuou e o cobrador que mantinha fones nos ouvidos riu e fez um comentário jocoso ao motorista. O rapaz da fileira de trás, que havia batido a cabeça no meu banco numa freada que lhe cortou o sono quilômetros antes, balbuciou alguma coisa que parecia uma chacota.

Desci dois pontos depois com as palavras do bêbado em minha mente. Ele estava muito sóbrio.


Texto revisado em 26 de outubro de 2010.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Aventuras

Os olhos marejados fitavam o teto iluminado pelas luzes dos carros que passavam na rua. O mundo ficara turvo depois do diagnóstico. Não, o problema não estava nas vistas, o câncer começara a atacar o estômago.

Foi na favela da Ventosa, em Belo Horizonte, que Ferreira conheceu a vida. Engraxou sapatos alheios, vendeu sorvetes, ganhou trocados. A camisa da seleção gastando no corpo no tempo em que era lavador de carros lhe rendeu o apelido de rei. Virou Pelé.

Das canelas, era mesmo chegado noutro movimento: gostava de dança. Foi com o funk que a vida encorpou. Fez fama por aí, decretou que beijo na boca já não colava, vendeu discos, conheceu palcos no Brasil e no exterior.

Quando deixou as Minas Gerais, antes do sucesso, foi montado numa moto. Chegou na Bahia, dormiu sem cama, viveu dias difíceis com a falta de trabalho. Sabia que os trezentos mangos que trouxera na mochila não segurariam a bronca do desemprego. Até que, determinado como se dizia, passou a ensinar funk num clube de lazer. Primeiro, os idosos, depois, qualquer um interessado. O ofício foi a base para começar a versar.

Logo, tornou-se um mestre de cerimônias, um MC. Sustentou o apelido da infância quando ganhou as rádios e a TV. Bem verdade que da época da graxa e dos sorvetes, já era de curtir rádios comunitárias, até trabalhou nalgumas na cidade natal.

Faltou-lhe o tempo para mais um show no Uruguai. Partiu sem muito comentar a doença que o atacou por dentro. Quarenta e quatro foram os anos que lhe couberam. Uma quinta-feira de primavera foi o seu dia derradeiro. Que as filhas segurem a barra dos anos vindouros
.


Crônica livremente baseada na vida de José Guilherme Ferreira (1965 - 2009), popularmente conhecido como MC Pelé. Inspirada após leitura de matéria de Estêvão Bertoni publicada na sessão de obituários da Folha de S. Paulo em 16/12/2009.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Valente

Ainda que entre grades, é possível sorrir.

Fotografia realizada por Danilo Vasques em 6 de novembro de 2009, São Paulo.