segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Cores


Quando o fim do domingo ganhava corpo, lá por volta das 19h, algumas regiões de São Paulo, ainda sob a fraca chuva que se dissipava, puderam ver um grande arco-íris cortar o céu azul. O fenômeno luminoso que foi assistido de perto por um segundo arco colorido, de cores invertidas e de densidade menor, ficou pairado sobre nós por cerca de vinte minutos no finzinho da tarde de ontem, 29 de novembro.

Imagem: Danilo Vasques

terça-feira, 24 de novembro de 2009

São João

um conto de Danilo Vasques

Observava as brasas ainda luminosas quentando de leve a noite de domingo. Mas já não havia fogo, os tocos, os galhos e as ripas desmancharam-se em cinzas. O vento que vinha do lado começava a ganhar corpo. Estava na hora. Alguns pés rumavam para dentro das casas e o silêncio que de longe espreitava o quintal ia se chegando aos poucos, se assentando, enquanto a lua ficava alta. Sem demora, pegou o galho fino e remexeu os restos queimados. Sacou dali a batata-doce, deixou amornar, descascou uns pedaços chamuscados e mordeu uma, duas, três vezes impiedosamente. Apreciou com cuidado os minutos que se seguiram em novas mordidas até lamber os dedos ao final e ter uma certeza: iria dormir feliz.


revisado em 26.out.2010

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Urubus


Aves registradas há cerca de dois anos em terreno próximo a uma escola municipal na avenida dos Agapantos, em Cidade A. E. Carvalho, zona leste de São Paulo. O espaço atualmente nomeado como Praça Oito de Maio, pois circunda a escola de mesmo nome, é alvo frequente de entulhos e lixos abandonados por anônimos. A limpeza pública no local é escassa e não raro é possível avistar cenas como a da fotografia datada de 22 de dezembro de 2007.

Imagem: Danilo Vasques


Em destaque no Google Maps, local referente à Praça Oito de Maio, assim nomeada em 18 de outubro de 2007, dois meses antes da fotografia.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Apagão

Às 22h13, a Usina de Itaipu sofreu uma pane total no sistema de transmissão de energia e afetou diretamente diversas regiões do país. São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal estão sob um intenso apagão. De acordo com outras mídias, Pernambuco também está sem energia.

Segundo declarações oficiais, a paralisação no abastecimento pode ter ocorrido por conta de um problema climático; suspeita-se que raios e fortes vendavais na região do Paraná tenham atingido uma linha de transmissão.

Lembramos que os semáforos foram desligados e os transportes sobre trilhos ficaram sem funcionamento. Pontos de ônibus e coletivos estão lotados. Já há sinais de ondas de violência em algumas cidades; recomendamos enorme prudência para quem estiver nas ruas.



O bairro de Cidade A. E. Carvalho parcialmente iluminado

Parte da transmissão de energia começa a ser recuperada, mas ainda timidamente. Em São Paulo, sabemos que alguns bairros já estão com a iluminação restabelecida. Por exemplo, em Cidade A. E. Carvalho, na região leste, há cerca de 40 minutos alguns quarteirões foram novamente iluminados, deixando assim o bairro dividido, metade sob luzes, metade às escuras.



Onde você estava na hora do apagão? Participe você também. Envie seu relato sobre o apagão, poste seu comentário logo abaixo.

Leia notas publicadas na sessão de comentários.

Fotos: Danilo Vasques

sábado, 7 de novembro de 2009

Ruína


Homem passa à frente de casa destruída na margem do acesso para a avenida Ragueb Chohfi, sentido São Mateus, leste de São Paulo. A ruína situa-se ao lado das obras de prolongamento da avenida Jacu-Pêssego/Nova Trabalhadores.


Fotografia PB realizada por Danilo Vasques em 6 de novembro de 2009, às 14h15.

Pêssego



Obras do prolongamento da avenida Jacu-Pêssego/Nova Trabalhadores, trecho sul, que permitirá o acesso direto da zona leste de São Paulo ao município de Mauá. A obra tende a ser uma das principais ligações da rodovia Ayrton Senna da Silva (SP-070) e também do aeroporto de Cumbica à Baixada Santista. A desapropriação local é, como já conhecemos de situações semelhantes, uma questão de ordem social. Milhares de casas, estima-se 10 mil, muitas em situação irregular, deverão ser afetadas. E aí sabemos que as famílias ali residentes poderão sofrer as consequências de tal empreitada. Esperamos, pois, o zelo e o respeito dos governos envolvidos ao cumprimento dos direitos à moradia.


O empreendimento em execução, lote 3, está orçado em pouco mais de 445 milhões de reais, como estampado na publicidade das placas situadas próximas à construção do trevo de acesso à avenida Ragueb Chohfi, local registrado nas fotografias em 6 de novembro de 2009, às 14h16.

Imagens: Danilo Vasques

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Café

um conto de Danilo Vasques
 
Lina acordou com um gosto azedo na boca. Foi difícil abrir os olhos. O corpo num estado morno queria continuar dormindo. Contudo, ela estava acordada: o sangue nas veias do cérebro formando os pensamentos, a eletricidade provocando o raciocínio e a primeira sentença do dia: levantar.

Avistou a televisão apagada e o relógio na parede. Reclinou o corpo e agora sentada sentiu-se forte para encontrar o chuveiro queimado. Banho tomado, vestiu rosa e aprontou-se a sair. Antes do trabalho, resolveu ir até a padaria, duas ruas acima.
Lá encontrou seu irmão. Ele planejou fazer uma surpresa para a família comprando os pães da manhã. Desceram juntos e esquentaram a água para o café. A mãe acordou com o barulho das três netinhas que corriam pela cozinha brincando com Sancho, o fiel companheiro. Sentaram-se todos e encheram as xícaras enquanto Sancho, o cachorro, bradava lá fora. O vapor da bebida parecia dançar na luz do sol que entrava pelas frestas da janela.
Conversavam e os pães desapareciam do pacote. Falavam sobre a tia que anuciara na noite passada uma gravidez inesperada: um pequeno que chegaria para acompanhar os irmãos já moços. Todos estavam alegres e parecia ser essa a razão do dia: a alegria.
Lina olhou para o relógio na parede e percebeu que o ônibus estava para passar. Foi ao banheiro e quando molhou o rosto com a água fria da pia sentiu um facho de energia percorrer seu corpo. Entregou-se ao espelho e esboçou um sorriso. Ergueu-se maior do que o costume – mas continuou curvada – e voltou à cozinha. Trazia as pálpebras pesadas de cansaço e sono.
Olhando para todos, percebeu um pouco de satisfação e paz dentro de si. Pensou que não deveria correr e sim viver um pouco mais daquele momento no cômodo com aroma de café: que o ônibus seguisse sem ela. Resolveu encher outra xícara e voltou ao seu lugar. Decidiu faltar no trabalho.



Texto publicado em maio de 2007 no Jornal Notícias–Diadema. Reeditado em 19 de fevereiro de 2009 e revisado em 25 de outubro de 2010.