segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Gato


Descíamos a rua e logo à frente havia um gato atropelado. Ele agonizava em meio à noite alta que se exibia num céu estrelado – ou que assim me recordo. Agonizava por dentro, pois o corpo já imóvel refletia o tempo se esvaindo. Os olhos é que estavam aterrorizados, fixos num ponto equidistante. De pronto, encostamos o carro. Descemos e levei o gato inerte para o baixo das árvores escuras da praça que ladeia a rua larga. Só nós coube, parados, acompanhá-lo até a estrada que, enfim, ele seguiria sozinho.

Não haveria mais telhados e calçadas. Não mais o sereno a cobrir o corpo. O pelo já não cresceria. Os bigodes não se banhariam de leite ou de qualquer outra coisa que fosse. As garras não mais precisariam se revelar. A aventura – porque essa é a mais própria definição da vida de um gato – escapava no momento em que testemunhávamos o brilho fugir de suas vistas.

O gato morreu em minutos. O tempo passou, faço hoje aniversário, e a sua lembrança me veio de súbito dias atrás. Pois, entendi que devo sim continuar firme em minha jornada, não sei dizer se com maior intensidade do que o fez o gato, até o ponto da estrada em que um dia me caberá também seguir só.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Refúgios

Foi uma noite difícil e eu novamente precisei ouvir Nick Cave.

Impressionante como o verde das árvores da praça de logo ali, após a chuva, fica mais vistoso.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Se beber, não case!



A parada é a seguinte: não demora e esta comédia já não estará em cartaz, portanto, restam poucas chances para algumas boas risadas na sala escura.

É comum os jornalistas anunciarmos os filmes no momento de suas estreias. E, ademais, publicarmos críticas logo nos primeiros dias de bilheteria. Hoje, novamente vou contra a corrente. É que assisti no último final de semana ao filme "Se beber, não case!" (The Hangover – "A Ressaca" – no original), dirigido por Todd Philips. E como as tais risadas me envolveram, achei de bom modo compartilhar impressões.

Porém, não conto muito, pois falamos de um filme em que o roteiro mostra-se, a princípio, um quebra-cabeça a ser ordenado ao longo das aproximadas duas horas que lhe cabem. Contar estragaria a surpresa, mas, podemos dizer que tudo começa quando, numa estrada em meio ao deserto curtido de sol, um sujeito liga do celular para uma moça prestes a subir ao altar e lhe conta que ele e seus amigos simplesmente perderam o noivo.


É o reflexo da despedida de solteiro iniciada há dois dias quando noivo (Justin Bartha) e padrinhos – o cunhado e dois amigos – partiram a Las Vegas. Lá, hospedam-se num luxuoso hotel e a história segue reta até o momento de um brinde noturno ao telhado: eis a celebração do bando (de lobos solitários, na visão do problemático – e talvez anárquico – cunhado).

Um corte temporal (já é manhã) e um par de pernas num vestido cor-de-rosa deixa o quarto. O trio de padrinhos acorda e a cena está posta: a baderna é indescritível, diga-se que galinhas ciscam pelo local e um tigre repousa no banheiro. A cabeça lateja e a memória não vem. O noivo desapareceu (e um dente da boca de um dos padrinhos também). Sabe-se apenas, pela desordem, que as últimas horas foram decerto turbulentas (e divertidas).


O barato da jogada acontece a partir daí: o trio precisa recompor seus passos a decifrar o caos e o paradeiro do noivo. O enigma se anuncia com um bebê que dorme solitário dentro de um armário. A primeira pista está nos bolsos: o canhoto do estacionamento encontrado num deles preconiza a confusão. São os fragmentos da noitada que ditarão o tempo restante ao casamento.

E é justamente no agrupamento das partes que a comédia se desenha. Comédia que ridiculariza certos vícios morais e expõe contradições da relação dominador-dominado que configura muitos pares amorosos vida afora (visível no caso do padrinho que mente para a namorada que o traiu e que insiste em lhe ditar regras). Não estamos diante de um filme bobo de riso gratuito. As forçações típicas aparecem de maneira sutil, inteligentes e engraçadas.


Mesmo a polícia não passa ilesa numa sequência curiosa e perturbadora. Já por aí se percebe que não é uma obra moral ou politicamente correta, ao contrário, cumpre seu papel ao retratar a diversão desmedida. No pano de fundo, perpetua a imagem de Vegas como um local de loucuras permeadas por prostituição, jogatina, casamentos relâmpagos e bebidas.

Vale dizer que o filme reforça um pressuposto necessário para a vida toda: (salvo pelo excesso) precisamos todos nos divertir.

E fica a deixa óbvia: se beber, evite casamentos.


ps. Mike Tyson faz às vezes de si mesmo numa participação deveras curiosa.


Imagens: divulgação/reprodução
© 2009 Warner Bros. Ent.

Mercedes Sosa


... uma dama que se curva ao horizonte enigmático, uma vida que se esvai, uma voz que permanece, uma parte fuginte, um canto abafado e uma história que fica...