Descíamos a rua e logo à frente havia um gato atropelado. Ele agonizava em meio à noite alta que se exibia num céu estrelado – ou que assim me recordo. Agonizava por dentro, pois o corpo já imóvel refletia o tempo se esvaindo. Os olhos é que estavam aterrorizados, fixos num ponto equidistante. De pronto, encostamos o carro. Descemos e levei o gato inerte para o baixo das árvores escuras da praça que ladeia a rua larga. Só nós coube, parados, acompanhá-lo até a estrada que, enfim, ele seguiria sozinho.
Não haveria mais telhados e calçadas. Não mais o sereno a cobrir o corpo. O pelo já não cresceria. Os bigodes não se banhariam de leite ou de qualquer outra coisa que fosse. As garras não mais precisariam se revelar. A aventura – porque essa é a mais própria definição da vida de um gato – escapava no momento em que testemunhávamos o brilho fugir de suas vistas.
O gato morreu em minutos. O tempo passou, faço hoje aniversário, e a sua lembrança me veio de súbito dias atrás. Pois, entendi que devo sim continuar firme em minha jornada, não sei dizer se com maior intensidade do que o fez o gato, até o ponto da estrada em que um dia me caberá também seguir só.



