sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Tragédia em Santo André


Destroços. Pedaços de tijolos misturados à lama. Céu nublado, garoa intensa que assola a cidade no ABC Paulista. O sol fugiente parece denotar a atmosfera trágica que neste exato momento, 15h16, é cortada por um dos grandes caminhões vermelhos do Corpo de Bombeiros que passa à minha frente. Uma pequena loja de fogos de artifícios, numa área residencial de Santo André, foi o estopim de uma explosão catastrófica que ceifou duas vidas e atingiu diretamente quatro casas no bairro de nome Vila Pires.

A tinta da caneta enfraquece em contraponto à garoa que engrossa. Em minhas mãos, o papel começa a se desfazer e as palavras se misturam de leve. A roupa molhada ainda protege. Os óculos seguem marejados e a vista turva quando um outro repórter, também de lentes, comenta com inteligência: “embaçado, né”. E não há muito o que responder, estamos a metros da rua Américo Guazelli, local onde ainda há pouco estavam de pé as paredes que sustentavam o comércio que além dos fogos também vendia pipas, armações que levam rabiolas e papel de seda ao céu que, nesta tarde, está coberto por densas nuvens que jogam chuva aos homens situados entre os fragmentos de vidas espalhados pelo chão agora deforme. Já não há fogo.


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A tragédia ocorreu por volta das 12h30 da quinta-feira, 24 de setembro de 2009. Almocei neste horário em São Caetano do Sul, cidade vizinha, com um amigo que fui rever. Foi a televisão que primeiro me pôs a par dos acontecimentos. Logo, o rádio descreveu o quadro. Resolvi assim seguir os helicópteros. Peguei umas folhas de papel que levava, ao acaso, no porta-luvas.

Um guarda civil levantou o cordão de isolamento para que me aproximasse. Havia muita gente (centenas de pessoas, arrisco dizer) à expectativa de notícias atrás das faixas de plástico, listradas de preto e amarelo, que concentravam distantes os, digamos, apreensivos cidadãos. “Minha casa tremeu, as janelas pareciam soltas”, ouvi de uma moradora numa rua próxima.

O caldo enlameado que descia pela rua tingindo o solo com um barro mole, um laranja-marrom, remetia à ideia distante do sangue manchando o chão sob um corpo ferido (e seriam também as ruas as veias de uma cidade). Era a imprópria imagem de um bombardeio, de um quarteirão levado aos ares numa cena de guerra.

Destruição advinda de uma primeira faísca, um primeiro fogo: a pólvora queimando, a combustão, a fumaça, o cinza do dia escuro, as pessoas desoladas – um rapaz me perguntara sobre a Defesa Civil, pois, ao que parece, sua casa rachou.

Saberíamos mais tarde os nomes das vítimas fatais (o dono da loja sobreviveu, a despeito das informações prematuramente espalhadas), veríamos fotos, vídeos, reportagens e viveríamos uma sexta-feira ainda muito nublada.

Agora, são 23h09 do dia seguinte.

domingo, 20 de setembro de 2009

Tijolos

Quando eram 10h40, subi num ônibus e segui direto à Estação da Luz, centro de São Paulo. Quarenta e cinco minutos depois, adentrei à Pinacoteca do Estado. O sábado (19/9/9) começava a esquentar, o sol estava alto.

Não foi rejeição, mas optei por não ver as obras de Matisse, mostra destaque da vez. Fui direto ao acervo em busca dos quadros do brasileiro Almeida Júnior (1850-1889). Decerto, outras pinturas no caminho (com repouso em Berthe Worms) prenderam-me a atenção e algumas esculturas compuseram uma inquietude no olhar do transeunte que fui.

Pois, encontrei Almeida Júnior numa sala exclusiva ao seu trabalho. O artista foi responsável por obras que condizem com um termo caro representativo do universo rural brasileiro: o retrato regionalista. O caipira está lá, defronte do espectador, chapado vivamente em telas pintadas há mais de século.

 

Amolação interrompida (1894), de Almeida Júnior

Na andança, ative-me ao quadro de nome “Saudade”, que só agora pude contemplar num arroubo particular. A tradução do tema é precisa na figura central da comovida mulher, sob um manto preto. As lágrimas, duas gotas a correr em seu rosto, são certeiras da dor que por vezes compõe a palavra “saudade”.

Saudade (1889), de Almeida Júnior 

Atento-me a interpretar a saudade ali tratada como a falta de algo ou alguém. E, numa leitura pessoal, o pedaço do tijolo ausente na parede em primeiro plano ressalta justamente a ideia: a ausência que deixa incompleta a vida (esta construção feita de tijolos cotidianos).


Tal sensação consigo vislumbrar (viajar, eu sei) no pé esquerdo da moça que lê a carta. Levemente descalçado, proporcionando um pequeno vão de sombra entre a sola do pé e o tecido da sapatilha. Pequeno, mas ainda um vão, uma falta que pode desequilibrar.



Insisto na ideia ao observar o livro sobre um móvel, abaixo da mão esquerda, coberto e assim protegido por um manto embranquecido (a cor oposta às roupas da protagonista). Há pequenos espaços vagos entre as páginas (aqui, a subjetividade é realmente intensa) e me parece que uma ranhura se destaca, maior do que as outras.
 

Talvez a carta (ou seria um retrato?) estivesse ali guardada e quando foi retirada permitiu que o ar ocupasse a fenda: o livro fechado, mas não totalmente. Outro vão permitido, retratado. Na soma, a janela aberta ilumina o cômodo e traz o mundo de fora para dentro: o exterior dialoga com o interior. A saudade representada com esmero num belo quadro, em minha opinião.

Quando o sol estava ao pico, resolvi caminhar pelo Jardim da Luz, anexo à Pinacoteca. Pouco minutos depois fui embora. Atravessei a Ponte das Noivas e quando chegava ao finzinho dela vi o ônibus partindo. Fiquei esperando no ponto até uma senhora me indicar outra opção: uma linha mais rápida que já estava de saída.

Porém, antes mesmo desta senhora chegar, passei a observar uma dupla de músicos amadores no outro lado da rua. O tocador de bumbo dava o tom e o saxofonista entoava o solo representativo de um canto popular. Foram quatro canções que ouvi, as duas últimas executadas numa fineza admirável: “Trem das Onze” e “Azul da Cor do Mar”.

Eram dois artistas anônimos e não demorou a pararem de tocar, seguindo andarilhos como vieram. De longe, partindo, o tocador de bumbo me sorriu dizendo algo que não entendi bem, mas pelo entusiasmo e pelo positivo que insistia em fazer com a mão direita, percebi que estava feliz ao se despedir com a música que Tim Maia tão bem gravou no nosso imaginário popular. Coisas de Brasil, urbano e rural.










Registro do ingresso. Ao clicar na imagem, torna-se mais fácil conferir endereço, horário, telefone e site da Pinacoteca. É de graça aos sábados.
Pinturas: Reprodução.

revisado às 16h51 de 28.abr.2011 

domingo, 13 de setembro de 2009

Papéis

um conto de Danilo Vasques

Chovia naquela tarde e a cidade estava um aguaceiro só. Casas úmidas, móveis danificados e sofás destruídos, roupas amarrotadas boiando impiedosamente: a enchente arrastou tudo, lares perdidos, identidades lançadas a esmo: a força da correnteza não se esvai quando o córrego baixa, permanece no tempo, um pouco acima da marca da água na parede. A tinta disfarça, mas certas manchas nem o sol apaga.

No começo da noite, o vento ajudou e a água escorreu. Algumas estrelas até arriscaram aparecer à vã tentativa de clarear a noite escura, fruto da falta de eletricidade nas lâmpadas de mercúrio dos postes públicos.

Dentro de um ônibus que percorria as veias de um corpo confuso, seguia uma gente triste. A alegria era só o azul da camisa do motorista. De um banco alto, no meio do veículo, o cobrador olhava a todos:

Viu, por exemplo, o homem que embarcou no terminal vestindo branco e seguiu acordado meio dormente: sonâmbulo, caso comum na metrópole. Ao seu lado, uma mulher distante (ou esquecida) de todos não ouviu os dois sujeitos uniformizados que reclamavam da exaustão do trabalho.

Atrás deles, um banco vazio. Era dela o assento.

Dela que pisava com força a plataforma suja com restos de lama nas laterais da sola. Ela, que parecia uma moça livre, prendia seus longos cabelos escuros com um adorno em forma de borboleta. Sua blusa era rosa. Por baixo, entretanto, bem à vista, um decote preto. A calça era jeans.

A mão direita trazia uma barra de chocolate. Com vagar o doce foi levado à boca. Antes de morder, ela o deslizou pela língua sensualmente. Quando a ponta que havia tocado os lábios começou a derreter, os dentes cortaram-lhe um pedaço. Em seu âmago, a moça sentia que seus gestos provocavam os espectadores do cotidiano. E gostava disso.

Um chocolate pode valer o dia.

Seis paradas depois, a barra acabou. A moça tirou de sua bolsa uma caixa de lenços, pegou dois deles e limpou a nívea pele do rosto e as pontas dos dedos que exibiam unhas delicadamentes pintadas. Amassou os papéis, fez uma bolinha com eles e com vigor a arremessou através da janela. Um voo extraordinário. A bolinha rolou à valeta e de lá vagou até mergulhar à escuridão da primeira boca-de-lobo que encontrou. Ali, engrossou a massa de lixos perdidos.

Uma certeza ficou: quando as novas chuvas chegassem, a boca iria vomitar.



Anotações: Reedição de conto escrito por Danilo Vasques e publicado originalmente sob o título "Outros Papéis" no Jornal Notícias – Diadema, em maio de 2007, nº 60, p. 6.

Em 19 de fevereiro de 2010 este texto foi revisado e sofreu alterações.

sábado, 5 de setembro de 2009

Noitinha


Ontem, às 18h40, o céu que ficara nublado por quase todo o dia se abriu parcialmente. Havia ainda uma névoa escura, densa, proclamando a noite. Uma de minhas sobrinhas brincava se pendurando num varal; vimos juntos o azul celestial, brilhante e belo do final da tarde. Tentei recortá-lo para compartilhar aqui.

São Paulo aguarda a noite da primeira sexta-feira de setembro


Foto tirada por Danilo Vasques em 4/9/2009