sábado, 29 de agosto de 2009

Inimigos Públicos



Aqui, breves linhas sobre um filme assim nomeado que não tardará a sair de cartaz dos cinemas de São Paulo. Falamos da obra que elege a perseguição do criminoso John Dillinger e seus parceiros pela polícia norte-americana na década de 1930, momento qual eles foram considerados inimigos públicos em evidência.

O filme dirigido por Michael Mann, de "O informante" e "O Último dos Moicanos", aborda as investidas da Agência de Investigação (embrião do FBI) sobre o grupo de assaltantes de bancos que, vestidos numa roupagem de gângsteres, tornaram-se famosos à época. Dillinger, carismático e, digamos, anárquico, no início de sua popularidade transitava entre anônimos nas ruas, fato que permitia, por exemplo, ir ao cinema ver os agora clássicos de Clark Gable – em algumas cenas, Dillinger (interpretado por Johnny Depp), em seus trejeitos e bigode, reverencia a imagem do ator.

Porém, em contraponto ao anonimato, o alcance de seu nome e seus atos o tornaram um ídolo efêmero – lembremos que não havia ainda as proporções midiáticas sob as quais vivemos hoje. Tão logo, Dillinger, à imagem dos sobretudos e chapéus pretos, passou a ser o perseguido público mais visado – e aclamado justamente pelo o que dizemos público.



Johnny Depp como o gângster John Dillinger entre policiais
A obra discorre sobre a chamada inteligência e os aportes tecnológicos que corresponderam à guinada das ferramentas investigativas da polícia de então. Cruzamentos de escutas telefônicas, espionagem e delação coercitiva são apontados numa escola de apuração obscura que iria resultar na tortura em interrogatórios e assassinatos pelas mãos da lei.



O agente Melvin Purvis (Christian Bale) em ação

E é justamente no campo das políticas públicas de segurança que se mostra o outro lado da violência, o lado das relações inescrupulosas e populistas em prol de uma suposta face governamental positiva – seriam eles, os homens da lei encabeçados pela politicagem de J. Edgar Hoover, então diretor da Agência de Investigação, também inimigos públicos? Sim.


O grupo ataca: à frente, "Jack Red" e "Baby Face" Nelson

Quem lidera a caçada – chamemos assim, ainda que o termo não seja lá tão bem-vindo, é um oficial violento, extremado e calculista interpretado por Christian Bale (no início do filme, ele baleia pelas costas um figurão do crime, o que lhe traz reconhecimento imediato no meio policial). Cabe a ele, ao agente Melvin Purvis, a tarefa de minar os passos de Dillinger e seus comparsas, Jack "Red" e "Baby Face" Nelson, entre outros, que ora estão no apogeu dos seus roubos. Roubos, dizem eles para um refém, correspondem ao dinheiro das instituições bancárias: o do cidadão comum não interessa.

Purvis ombreado por cartaz de filme estrelado por Clark Gable

Bem, se há polícia, ladrões e cinema, há também uma personagem clássica: a mocinha. Aqui ganha a vez os olhos da grande Marion Cotillard (a atriz que recentemente vivenciou a cantora Edith Piaf e que por tal papel levou o Oscar).


Marion Cotillard como "Billie", namorada de Dillinger

Em sua primeira aparição, Billie, de vestido vermelho (uma cor quente em meio ao que podemos dizer cinza que denota o filme), encontra Dillinger – ele a vê antes, para ser exato –, e numa volúpia típica dos corações aventureiros que bem cabem à paixão, o romance ganha corpo na trama. (E é a busca por ela, pela paixão, que suscita uma certa fragilidade nos planos do criminoso. Temos aqui algo semelhante já visto no retorno do personagem de Val Kilmer ao encontro de sua "garota" nos finais de "Fogo Contra Fogo", do mesmo diretor).


O casal no início do romance

A trama está posta: perseguição, tiros, encontros e desencontros. É por essas e outras que vale assistir "Inimigos Públicos", na opinião que cabe ser dita: seja pelo recorte de época, pelas interpretações certeiras, pelo roteiro ou pelo drama que se insere nas entrelinhas e que se encorpa ao longo de aproximadamente duas horas e vinte minutos. A exemplo de outras obras, é o protagonista – um criminoso – quem mais envolve o espectador e por quem a torcida se faz. E já por aí se sabe que o final será perturbador.


Imagens: Divulgação © Universal Studios. Todos os direitos reservados. 

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Baldo

Certa vez, comia um cachorro-quente de barraca. Numa conversa, sem muito divagar (mas um pouco, é claro), contei que havia conhecido a Bahia através de algumas páginas de Jorge Amado.

Não consigo precisar quando foi a primeira vez que abri um livro de sua autoria, sei apenas que na adolescência. Tirado da estante, gastou-se em minhas mãos e a capa chegou a cair: Jubiabá.

Depois, consumi outros de Amado, contudo, quero contar que há dias em que me pego relembrando os ares de uma cidade baiana vista pelos olhos de Baldo, o Antônio Balduíno, protagonista de tal livro. Tanto quanto Tia Julia e o Escrivinhador, de Vargas Llosa, também da coleção de minha mãe, Jubiabá, naquele momento, ajudou-me a sentir um pouco mais da vida.

Texto revisado em 25 de outubro de 2010

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Paradoxo*

Há pouco a noite estava tão clara. A lua reluzia alta, as nuvens de longe compunham um céu de formas estranhas. Era uma noite de se namorar, o vento no rosto num frescor outonal no meio do inverno. A noite era de poesia. E ainda é. As nuvens agora encorpam o negrume e compõem um momento de inspiração. Digo, sem dúvidas, que é uma dádiva estar vivo.


*Paradoxo corresponde ao fato de escrever este texto curvado defronte a uma tela de computador, enquanto lá fora, linda, a lua desponta.


Foto realizada por Danilo Vasques na madrugada de 6 de agosto de 2009. Todos os direitos reservados.