quinta-feira, 30 de julho de 2009

Cascas de pão

Se levo jeito é outra história, mas curto desenhar. Aqui, um dia qualquer após o café da manhã.



Foto tirada em 29 de junho de 2008 por Danilo Vasques, autor do desenho. Todos os direitos reservados.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O homem que tomava corticoides


Sabemos que levar “um homem que” ao título de uma obra já não é novidade. Decerto revela uma ação ou acena o perfil de um personagem e, como se espera de uma boa chamada, indica um caminho. Para voltar um pouco, lembramos rapidamente de um homem que virou suco, de outro que sabia demais, de alguém que matou o facínora e de tantos que fizeram algo que valesse nomear um documento cultural.

Cá, nem podemos dizer que se trata de um documento cultural, quando muito, um documento. Um registro, sim, pode-se pensar. E, ademais, tomar corticoides não é nada notável e menos ainda seria falar sobre isso neste espaço. Entretanto, cerca de 7 ml de um xarope que tem na fórmula betametasona, por sua vez, o corticoide da parada, alçam-me à intenção de algumas linhas a mais.

É que ontem voltei a tomar um antialérgico. Fazia duas semanas que eu havia esvaziado o último frasco e logo tornei a sentir o corpo reagir contra um alérgeno – substância que o meu sistema imunológico encara como um ser estranho o qual não me cabe: um oponente a ser combatido. Pois, a ofensiva que minhas células organizam justamente traz a mim essa ebulição que é a alergia. O tal da “melhor defesa é o ataque” não tem sido bom.

Sou deveras preguiçoso, admito, pois, em dois anos seguidos ainda não descobri o principal agente que faz meu corpo responder assim. Claro que junto a muitos médicos – e até que alguns, raros, foram bons – levantei algumas substâncias que me são vilãs, mas, ainda que as evite, não alcancei ainda o oponente principal.

Ando brigando novamente, é verdade, com o leite – não, não é questão de intolerância à lactose. Sugiro-me, apoiado por outras pessoas, que o leite da vaca é o motor que desenvolve aqui dentro um embate o qual chega à flor da pele. Pretendo, mas ainda não consegui, evitar qualquer contato com o tal, ainda que este figure até nas entrelinhas de uma bolacha.

Até vale rememorar um, digamos, doutor. Após a canseira de uma sala de espera – tão comum hoje, consegui adentrar ao consultório para aquele tipo de encontro brevíssimo em que se conta, vá lá, no máximo dois minutos. O médico – tratemos assim, apesar de duvidarmos de que tal denominação lhe caiba – não fez questão de pedir nenhum exame. Até então, clarividente, estava certo do que se tratava: o problema era o leite. Não descarto a ideia: a alergia ao leite é fato conhecido.

Voltemos à cena. Sentado, ele parecia não ter ouvidos e tampouco me olhou nos olhos. Não me viu a cara, não me viu ali, apenas rabiscou – sim, um rabisco, como manda a quase regra – uma receita enorme para uma farmácia de manipulação. Forço a memória para registrar se ele havia indicado, como suponho, um estabelecimento para a venda – era um acionista, talvez. Não consigo precisar.

Ignorei-o, já que esse tipo de profissional que se prolifera em alguns cantos – ao menos, já me deparei com outros tão zumbis quanto – é de longe o que se deve ser alguém que se inclina para cuidar da saúde de uma pessoa. Um médico é mais. Só restou a palavra leite.

Mas, para aliviar o conflito, alguns recomendaram vez ou outra o tratamento com antialérgicos que combatem a histamina (um contragolpe interno, um desmanche do ataque) e que resolvem temporariamente a empreitada, no meu caso, com a ajuda dos corticoides, os quais, numa simplificação, podem ser encarados como hormônios produzidos pelas suprarrenais ou, ainda, derivados químicos de tais.

Bom, já quando novo, dos momentos em que jogava bola em dias quentes, nalgumas vezes, minha pele reagia ao que hoje leio como urticária de sol. O corpo espetando sob a blusa, nariz irritado, espirros e coisas do gênero até me acostumei ainda antes da adolescência.

Agora, é o tal corticoide quem tem sido um parceiro nas horas em que a pele reclama. Contudo, seu uso prolongado, sabemos, é bastante complicado. E, no A + B, estou realmente a fim de parar com essa história de xarope.

Sabor

Curioso, ainda que não tenha gosto, sei exatamente o sabor da água.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Harry Potter

Harry Potter e o Enigma do Príncipe: diálogos e ruídos entre gerações

A madureza vem chegando. Que o menino sobrevivente ao ataque que ceifou seus pais já não era mais menino havia ficado claro nos últimos filmes. Agora, as coisas estão ainda mais próximas da vida adulta. E por isso o velho bruxo Alvo Dumbledore, escondido sob uma extensa barba grisalha, observa ao jovem Harry Potter que este precisa se barbear.

Noutra cena, o adolescente e a carismática dupla de amigos, Rony e Hermione, especulam sobre qual seria a idade do feiticeiro barbudo – uns 150 anos, arrisca o garoto ruivo meio atrapalhado companheiro de quarto do estudante órfão. A conversa ingênua do trio desencadeia uma risada gostosa que revela, tal qual na adaptação anterior, o aconchego da amizade em meio às tormentas advindas do latente retorno do Lorde das trevas.

Trata-se do novo episódio da franquia cinematográfica da série criada por J. K. Rowling, autora inglesa que levou às livrarias do mundo todo o nome do menino que com um ano de idade escapou da morte num sacrifício de sua mãe, assassinada com o marido por um bruxo altamente poderoso, Voldemort. A morte dos pais é o começo da saga de Harry Potter, registrada em sete livros e cuja adaptação do penúltimo chega às telas amanhã.


Os apontamentos lá de cima compõem justamente uma das vias alçadas no sexto filme: o encontramento das duas pontas da vida, da juventude e do envelhecimento. Ambas as partes se completam na obra, fato visível na doação mútua dos personagens centrais e no respeito entre eles.


A valorização do mestre e a confiança incondicional ao adolescente são alguns dos aspectos desenhados nas ações e nas omissões do aprendiz, Potter (Daniel Radcliffe), e de seu professor, Dumbledore (Michel Gambon).


E Dumbledore sabe do seu papel. Tão bem conhece a vida – e estaria disposto a sacrificá-la para Potter cumprir seu destino? – que entende dos sentimentos assim como da razão. É por isso que num momento secundário exclama o descobrimento do amor, segundo ele, quando acontece um jogo de ciúmes entre Hermione (Emma Watson) e outra jovem. Divertido.


Se por um lado há o diálogo entre as gerações, também se observa o ato contrário: o conflito ferino entre as décadas. E não é Potter quem denota tal situação, sim um outro adolescente que leva ao extremo o princípio do choque. Dumbledore, desarmado, está na mira da varinha deste que não revelaremos o nome para não estragar a surpresa.

Esclarecer os anos que se foram pode resolver a sombra que paira sobre o reino mágico. Neste novo capítulo, as memórias ganham evidência justamente por uma missão empregada por Potter sob orientação de Dumbledore. É o passado novamente dialogando com o presente.


Salvo pelas magias e bruxarias, “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, dirigido por David Yates, fala dos desafios da vida, do romance, da paixão, do crescimento, da perda e da superação – esta última bem diga Rony (Rupert Grint) numa passagem pelos campos de quadribol.

A solidão que cabe a todos nós reaparece na trama, a exemplos dos filmes anteriores. Atente-se ao lado obscuro da juventude, pois, o garoto Draco (Tom Felton) é quem imerge ao isolamento que a adolescência por vezes confere.


Há muito de humanidade na parada. Humanidade mesmo no encerramento de uma aranha gigante. O rei dos aracnídeos velado entre lágrimas tem sua morte bebida por Hagrid (Robbie Coltrane) e Horácio Slughorn (Jim Broadbent), professor destaque da vez. E por falar em bebida, Harry, Rony e Hermione conversam num bar entre copos de cerveja amanteigada.



Justamente o trio encabeça as cenas mais intrigantes a r
espeito dos assuntos do coração. Cada qual ao seu modo, sofre e sorri em relação aos sentimentos que se anunciam. Vide o amor está por acontecer.


A beleza plástica do filme também merece atenção – o trem em meio às planícies é quase uma pintura. O orçamento milionário confere uma gama de recursos visuais coerentemente dispostos, já por aí se sabe que se trata de um filme bem aprumado. Há uma cena que rouba o fôlego: professor e aluno em alto-mar.


Há muito, mas o espaço é curto. Ficamos nós, os trouxas¹ do lado de cá, certos de que uma loja de artifícios mágicos é apenas um pequeno chamariz para um universo em que a expressão “era uma vez” não seria inapropriada de se dizer.



¹“Trouxa” aqui empregado não possui o caráter pejorativo que a palavra possa indicar. Trata-se da denominação aplicada na história para quem não é bruxo.


Os jornalistas assistimos à pré-estréia de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” em 7 de julho a convite da Warner Bros.

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