segunda-feira, 25 de maio de 2009

Visitante


Recorte do cotidiano: Final de abril, um boneco em miniatura do personagem criado por Steven Spielberg ilustra a fachada de um depósito de recicláveis e ferro-velho numa avenida da zona leste de São Paulo. Máquina fotográfica na mão, falo com o proprietário acerca do brinquedo. Ele, que veste uma camisa de time de futebol – o Corinthians vencera na noite anterior
, para o trabalho e demonstra um pequeno sorriso, simpático, quando pergunto sobre o E.T. de borracha: conta que não sou o único interessado em fotografar, trata-se de uma cena que presencia constantemente. E me pede breves desculpas. Não entendo. Logo explica: é que o boneco estava muito sujo.


No início de maio, o E.T. descansou: já não é mais visto por ali.



Anotações: "E.T. – o extra terrestre" é um filme dirigido por Steven Spielberg: EUA: 1982.

Fotos em 27 de abril de 2009 por Danilo Vasques. Todos os direitos reservados.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Victor Simón


Início de 2004. Noel Rosa era a pauta: havia cerca de quatro meses que eu estava mergulhado na obra do compositor de “Três apitos” e “Feitio de Oração”. Pesquisas, telefonemas e, de repente, Osvaldinho da Cuíca sugere que eu troque algumas ideias com Victor Simón. Sigo a pista. Já no telefone, Simón acena: conheci Noel Rosa, estivemos juntos por três vezes. Um adendo a saber o quão isso é significante: Noel morreu em maio de 1937.

Logo fui encontrá-lo em Santo Amaro, zona sul de São Paulo, na casa de amigos onde morava. A entrevista deu caldo. Ele até deixou escapar que foi Noel quem lhe sugeriu a palavra “bacana” para fechar um verso de “Tijuca”, uma das famosas que marcam a extensa carreira de Simón: “Minha vida seria um Pão de Açúcar/ Se tu morasses na Tijuca/ Pertinho do meu bangalou.../ Verias o Corcovado de perto/ Jesus de braços abertos abençoando o nosso amor/ Mas tu moras em Copacabana/ Nessa praia bacana”. E Noel, com todo o respeito, deixa o papo aqui.

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Clique no botão "play" e ouça a música "Tijuca"


A conversa com Victor Simón não cabia num dia só, as histórias sequer pareciam caber numa vida. Reencontramo-nos algumas vezes e conseguimos fechar uma edição especial dedicada ao rebelde vagabundo, como ele se autodefiniu numa tarde. O diretor do programa, experiente repórter, sustentou a pauta até vê-la no ar. Fiquei novos meses submerso. Para explicar melhor, eu trabalhava em um programa de televisão semanal chamado Refletor¹: os dois músicos foram temas do primeiro semestre daquele ano.

Simón era homem viajado. Compositor que de vez em quando cantava, gostava de samba e tinha o verbo firme. Tanto firme, que dizia sem pestanejar que lá no nascedouro do ritmo o Donga havia mesmo gravado um... maxixe. Pois, segundo suas palavras, “Pelo Telefone”, ainda que leve a alcunha de primeiro samba gravado, não se trata propriamente de um samba².

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Wando

"Cara que fica apaixonado fica brega", diz cantor

Gosto é algo assim: uns dizem que sim, outros que não. Discutir até vale, sem imposições. E é nesse limiar que se situa um nome de destaque no imaginário popular: Wando.

Mineiro na casa dos 63 anos, catorze deles vividos em São Paulo, o cantor emprega o vozeirão a temas que dialogam com o universo da sedução e é certeiro no romantismo. Ao menos, naquele romantismo dito brega por alguns. "Brega é uma palavra que veio para avacalhar a história da música romântica, da música mais popular", diz.

Alvo de calcinhas que frequentemente chegam aos palcos, ele que transita entre o fogo e a paixão é cuidadoso com as vestes femininas. A cada show, recebe, agradece, guarda e presenteia as moças com novas peças com seu nome estampado no ritual que é quase um zelo pela figura tão cantada da mulher. São cerca de dezoito anos de trocas da roupa tão cobiçada.

No começo da carreira, acenou para o violão clássico, mas trocou de vereda por um franco motivo: queria tocar para as garotas. Ele, que quase sempre canta na linguagem solta como pede a lábia, faz as vezes de um sedutor profissional: é a imagem reverenciada pelo público. Fetiches? "Eu gosto dessa coisa".

No show (Shopping Metrô Itaquera, ontem), maçãs, rosas e gritos dialogavam com o repertório vasto de canções populares. Quase sempre ele fala de amor, mas do amor de todo dia, daquele que se divide entre sorrisos e arranhões. Fala de rosto suado, quando muito enxugado numa calcinha vermelha prometida ao público. Momento ímpar: canções de Roberto Carlos renderam-lhe um pout-pourri que fez cantar a plateia que se divertia com o carisma do intérprete.

No camarim, pouco antes de subir ao palco para versar em homenagem ao Dia das mães (homem também de família, pretende passar a data com a esposa e a filha pequena em Minas Gerais), Wando cedeu uma sorridente e exclusiva entrevista. Escondido atrás dos óculos escuros (os quais tirou apenas após a segunda canção, momento em que as primeiras peças íntimas chegaram ao palco) o cantor falou sobre temas que conhece de perto: música, sucesso, mulher.

Confira a seguir os principais trechos.

Fama

É mais difícil quando vêm os primeiros sucessos, fica-se meio sem jeito. As pessoas tentam modificar você, querem que seja alguém a quem nem sempre você corresponde, o que é muito complicado. Até encontrar o ponto de equilíbrio é difícil: só com o tempo. Eu já tenho trinta e poucos anos de carreira e a cada dia é uma surpresa, tem sempre uma coisa diferente acontecendo. É claro que hoje sei lidar muito melhor com essas coisas e a gente consegue se adaptar rápido. A cada show há mudanças, como mudar de uma casa para outra, e a gente precisa se adaptar velozmente e ensinar os seus vizinhos a gostarem de você. Vizinhos, quero dizer, são as pessoas que vão lhe visitar, vão lhe ver no show. Isso é o que eu faço, não faço outra coisa. Gostaria de ter sido engenheiro, mas não deu tempo (risos). Eu gosto de cantar, gosto de ir ao palco, gosto de conviver com as pessoas.

Música

Acho que todo jovem faz a seguinte pergunta: o que eu vou fazer quando crescer? Ou: o que vou ser? Um dia você descobre que acabou não fazendo aquilo que queria, que aconteceu alguma coisa no percurso. Trabalhei em feira livre, dirigindo caminhões, entre outras coisas. Aí, a música me "atrapalhou" e acabei me envolvendo, me entreguei a ela. Acabei fazendo uma carreira que era para ser apenas de compositor e que logo se tornou de intérprete também: e é muito bom! O destino sabe o que faz com a gente. Eu estudei um pouco de violão erudito e não era minha praia. Era preciso estudar muito e eu queria tocar para as meninas (risos). E acho que continuo tocando para as meninas.

Mulher e filhos

A gente já nasce com a mulher na cabeça (risos). A gente tem o primeiro contato com a mãe da gente. Depois a gente quer ter uma mulher, ou quer ter umas. Na verdade, são sempre elas quem escolhem. Eu já vivi três casamentos e cada um foi diferente, cada um com um tipo de exigência diferente. E minha atual mulher exige menos de mim do que minha filha (Maria, 2 anos e quatro meses). Descobri que depois de uma determinada faixa de idade, o filho cobra muito mais dos pais do que eu imaginava antes, pois eu não tive tempo para ver meus filhos crescerem. Agora é que tenho um pouquinho mais de tempo para ver Maria crescer: dá trabalho, é difícil.

Machismo

O Brasil é um lugar onde há uma luta muito grande pela frente, a mulher ainda tem de se livrar de uma série de preconceitos. Tenho um projeto com alguns amigos em Salvador que vai se chamar Nossa Senhora das Fêmeas. Isso faz parte de uma música que eu fiz há um tempo. Uma oração em proteção às mulheres. A proteção deve ser em todos os sentidos, contra todas as covardias do mundo.

O músico Carlinhos Kalunga

Fetiche

Eu gosto dessa coisa. As pessoas gostam de fantasias. No meu trabalho, eu sempre falo que num relacionamento tem de haver ideias para fazer seu amor feliz. No palco, distribuo até hoje maçãs, rosas, calcinhas. Essa questão da calcinha eu não imaginava que chegaria tão longe. São quase dezoito anos que a gente distribui e recebe essas peças íntimas, o que é muito legal. Acabou virando um negócio bacana. Fiz um show na Virada Cultural (3/5) e o que havia de calcinhas foi impressionante, muita calcinha para um homem só (risos).

Brega

É uma palavra que veio para avacalhar a história da música romântica, da música mais popular. As pessoas começaram a ver de outro jeito. Quem faz música romântica popular é considerado uma pessoa brega, de mau gosto. Acho que todo cara que fica apaixonado fica brega, no sentindo de colocar para fora coisas do coração que podem ser consideradas ridículas de se expor, de ficar meio bobo, de fazer aquilo que o amor lhe pede. A música brasileira romântica é isso. Pode ser piegas, mas não há uma pessoa que um dia na vida, ou em muitos dias, não teve necessidade de cantar uma dessas músicas.


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Clique no botão "play" e veja um trecho do show


Nota: colaborou Jéssica Lima, autora do blog "Publicidade em rosa".

Anotações: Texto e imagens: Danilo Vasques. Todos os direitos reservados. Entrevista realizada em 5 de maio de 2009.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Curva


Recortes do cotidiano: O rosto do piloto Ayrton Senna da Silva ilustra a parede lateral duma pizzaria de nome Tamburello, em uma rua residencial da zona leste de São Paulo.


Curvatura temporal: Fui à padaria que fica duas ruas acima de minha casa, direita, esquerda. Comprei os dez pãezinho
s de costume. Não gastei sequer vinte minutos, o suficiente para não ver em tempo real o acidente na curva. Em pouco, cheguei com os pães. Depois, acompanhamos a televisão até o repórter dizer, passadas algumas horas, que o piloto não havia sobrevivido àquele primeiro dia de maio.


A somar, outro muro, este na avenida Rebouças, zona oeste, também registra numa talentosa pintura o rosto do piloto morto a exatos 15 anos.



O automobilista morreu em primeiro de maio de 1994, após bater violentamente sua Williams no muro da curva Tamburello, autódromo de Imola, Grande Prêmio de San Marino, Itália. Dúvidas destacaram-se na imprensa ao longo dos anos acerca dos motivos que causaram o acidente: um problema na coluna de direção do carro repercutiu como a falha mecânica que impossibilitou a manobra e provocou o acidente. Contudo, outras hipóteses surgiram, como a de um desajuste na altura do veículo, causado pelo desgaste dos pneus devido à baixa aceleração do início da prova atrás do carro de segurança em pista seca. Do todo, é difícil assegurar. Senna tinha 34 anos à época do acidente derradeiro.


Fotos: Zona leste em 27 de abril de 2009. Zona oeste em 11 de dezembro de 2007. Autor: Danilo Vasques. Todos os direitos reservados.

Texto revisado em 21 de outubro de 2010.