quarta-feira, 29 de abril de 2009

Lida

Depois de amanhã, comemora-se o dia do trabalho. Vou aproveitar o clima da sexta-feriado e convidar uns amigos, desempregados, para festejar.

Brasileiros em busca de um lugar ao sol


Nota: Na região metropolitana de São Paulo, 14,9% estão desempregados, segundo dados divulgados hoje, 29/4, pela Fundação Seade e pelo Dieese. O número corresponde ao mês de março, parâmetro da pesquisa. Estima-se que a cifra seja de 1,5 milhão de pessoas desempregadas. É o terceiro mês de aumento
consecutivo da taxa que em fevereiro beirava os 13,5%.

Num recorte mais amplo, do Nordeste para baixo, há pouco mais de 3 milhões de pessoas desempregadas, segundo a pesquisa que abordou somente seis metrópoles desse Brasil profundo: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Para o IBGE, em dados também de março, os números para a área são mais modestos: a população desocupada (quem seguia sem trabalho na semana de referência e havia procurado emprego no último mês) está na casa de 2,1 milhão.


Foto: São Paulo em 25 de agosto de 2008. Autor: Danilo Vasques. Todos os direitos reservados.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Papillonner

" Longe desse escarcéu, no silêncio reconquistado, posso ouvir as borboletas voando pela minha cabeça. É preciso muita atenção e até certo recolhimento, pois o seu adejar é quase imperceptível. Uma respiração mais forte basta para abafá-las. Aliás, é espantoso. Minha audição não melhora, mas eu as ouço cada vez mais. De fato, as borboletas devem dar-me ouvidos.¹"

Jean-Dominique Bauby



Um dia, no ano passado, lia "O estrangeiro", de Albert Camus. Naquela manhã paulista, eu era mais um na congestão de gente que enche os vagões do metrô. Vai estação, vem estação, a leitura avança prazerosamente. De repente, percebo que alguém me observa. Um sujeito acerca de um metro defronte e que também carrega um livro aberto: "O escafandro e a borboleta".


Curiosamente, havia poucas semanas que eu o acabara de ler. Percebi a inquietação do outro e puxei assunto. Comentei que muito tinha gostado da leitura e que era uma obra gigantesca nas suas quase 140 páginas de letras grandes – acho que foi o que eu disse, se não foi, pensei assim. Ele retribuiu dizendo que por sua vez já conhecia o livro de Camus e que também gostara muito. Concordamos que ambos traziam um quê de angústia.

Mas, voltando alguns meses: Não conhecia Jean-Dominique Bauby, autor de “O escafandro e a borboleta”. Quero dizer, nada havia lido do que escrevera e muito menos o sabia pessoalmente. Mas, quando tive a chance de mergulhar os olhos em “O escafandro...”, nem sei narrar o que me acometeu: só que saí crescido da leitura, entendendo – acreditei, ingênuo – um pouco mais da vida.


Só que a história começa ainda antes: senti-me comovido na noite em que acompanhado de alguns pares assisti num cinema ao filme de mesmo nome, dirigido por Julian Schnabel.
Passei dias a recordar a imensidão desenhada pelo ator Mathieu Amalric, representando Bauby entrevado no corpo imóvel, o seu escafandro. Borboletas invadiram a sala escura e as imagens permaneceram na cabeça.

Não me cabe aqui resenhar sobre “O escafandro...” e nem sobre “O estrangeiro”, mas, puxei o assunto só para dizer que me tornei alguém diferente – mas talvez nem dê para notar – após tais leituras. Decerto que jamais serei o mesmo depois de conferir a humanidade profunda nas palavras de Bauby. Foi um dos melhores presentes que já ganhei.


Dos autores, ambos eram jornalistas, trabalharam em Paris e faleceram jovens, na casa dos quarenta e três anos. Foi acidentado de carro que morreu Albert Camus. Jean-Dominique Bauby estava sentado numa BMW cinza-metálica quando sofreu o acidente cerebral vascular que o deixou em coma profundo por alguns dias; quando acordou, estava inerte: perdeu os movimentos do corpo, exceto os do olho esquerdo e também por milimétricos espasmos musculares; morreu após alguns meses entravado na rara locked-in syndrome (trancado em si mesmo, por assim dizer). Intuo que, nalguns momentos, Bauby tenha se sentido um estrangeiro (não o do livro de Camus) dentro de seu próprio corpo.

E foi com a piscadela do olho esquerdo que Bauby estabeleceu um ditado para os interlocutores compreenderem o que sua mente sã dizia. O método era o seguinte: alguém lhe pronunciava o alfabeto (partindo das letras mais utilizadas no idioma francês, começando assim pelo E) e quando a letra correspondia à intenção de Bauby, este piscava uma vez. Letra por letra, palavras, frases e o livro “O escafandro e a borboleta”.

Comecei a relê-lo. Parece que a dor aumenta a cada página.



Nota: Só para registrar, as obras de cada autor são singulares e não seria nada aceitável estabelecer neste espaço correlações. De fato, os ditos acima são apenas paralelos traçados como anotações e que se encerram neles mesmos. As histórias de ambos não se convergem e não arrisco comparações, haja vista, já de início, a distância de anos em que viveram. Camus morreu em 1960, quando Bauby era ainda um garoto nascido em 1952. Este faleceu em 1996.

E S A R I N T U L O M D P C F B V H G J Q Z Y X K W



¹ O escafandro e a borboleta (BAUBY: 2008: p. 105).

Texto revisado em 15 de outubro de 2010.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Verona

A chuva começou a despencar de leve lá fora. Foi um dia difícil.

Numa das voltas para casa, já noite, minhas sobrinhas e minha mãe assistiam ao filme
Romeu e Julieta, de Franco Zeffirelli. Daí, um trechinho que revi e a quentura da casa me fizeram uma coisa boa aqui dentro. O tempo melhorou: chover é também agradável e ajuda a semeadura.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Carro e Flores

um conto de Danilo Vasques 

São Paulo. A primeira tarde de outono. As flores no vestido caiam bem sobre o corpo tingido do sol de outrora. Hoje, a pele seca no tom da fumaça. Carbono. O cinza do carro era da fábrica e da batida: a carreta atravessou a pista marginal na contramão e o choque foi forte o suficiente para esmagar a lateral do veículo que ela guiava: a direção correndo nas mãos e a cabeça girando nos giros do automóvel. Ela, olhos fechados, algo pensou nos poucos segundos antes de desmaiar na confusão do acidente:
Mãe onde está? Você fez carne de panela e eu faltei. O domingo não volta mais. Ai, carro girando. Girando. Girando. Eu um dia girino.
Na infância querida, as histórias de roda faziam par com as cantigas nos bosques logo ali no fim da rua do lazer onde moravam. Era uma menina ativa de esconde-esconde, pega-pega, cabra-cega e outras brincadeiras de hífen. Parece que foi ontem quando saltava no céu da amarelinha. Dos primeiros passos aos doze anos, que saudades. Aprendeu a ler aos seis. Os sorrisos vieram logo no berçário do hospital de nome de santa na zona leste, onde primeiro abriu os olhos.

A adolescência chegou com a turbulência típica: sentia as dores do mundo. Os namoros, os cursos, os rumos... Era a música que mexia com ela: estudou piano, violão, canto –sem contar os laços que fez nas pernas dançando– felicidade de menina-moça.


Cresceu e conheceu a praia no dia em que comprou o carro. Era um sonho antigo. O corpo bronzeado coberto pelo vestido florido em sua primeira viagem solitária ao volante. Andava devagar, preocupada, respeitava os faróis e era gentil com a estrada.


Foi uma carreta que veio na contramão. Veio tão veloz que nem deu para desviar. Acertou sua porta. Amassou tudo, feriu os sonhos que agora sumiam na agonia do asfalto. A luz laranja do sol que pintava os prédios numa tarde de brilho ela não via. E doía as sirenes explodindo em seus ouvidos. O relógio bombeando o peito num tic-tac que se ouve quando se encosta a cabeça –de outro alguém– sobre o peito. O coração abaixo das flores fraco: o sangue pulsando nas veias e a vida quase se esvaindo sob o vestido. Quase.




"Carro e flores" é um conto de Danilo Vasques publicado originalmente no Jornal Notícias-Diadema. Edição nº 58. p. 4. 1º de março de 2007. Todos direitos reservados ao autor. Reeditado em 19 de fevereiro de 2010.

domingo, 5 de abril de 2009

Resquícios



Em novembro de 1996 montei um fanzine. A internet, que hoje possibilita a profissionalização de um zine eletrônico, naquele momento, ainda se encorpava ao uso doméstico. Pois, o fanzine era construído artesanalmente, com fotocópias sobre fotocópias, imagens recortadas e coladas, máquina de escrever e distribuição postal. Eu tinha ali os primeiros contatos com uma publicação alternativa, ao menos, alternativa era a palavra que encontrava para definir aquelas páginas prematuras. Foram duas edições levadas a cabo e a terceira engavetou-se. Releio hoje o LAGARTO, seu nome, e vejo que ali havia uma real e vivaz iniciativa destinada à música.

É certo que muita coisa aprendi com ele.

Bom, por que conto isso? É que na segunda edição, publicada em março de 1997, há um texto escrito e diagramado por Daniela Vasques, designer gráfica. Vale a oportuna reprodução abaixo por conta do aniversário da morte de Kurt Cobain, com datas, sentimentos e texto originais (somam-se então 12 anos):


"Há três anos morria o pai de Frances.

A menina que hoje deve ter cerca de cinco anos provavelmente sente a falta de Kurt Cobain mais do que qualquer um... talvez não.

Foi em 5 de abril de 94 que seu pai, vocalista e guitarrista do Nirvana, se matou com um tiro. Seu corpo só foi achado no dia 8 por um eletricista em sua casa em Seattle (a meca do rock dos anos 90). Mesmo dia em que saía nos jornais a notícia de que David Grohl e Chris Novoselic – baterista e baixista – anunciavam mais uma dissolução provisória da banda devido ao envolvimento de Cobain com drogas.

O Nirvana já faz parte da própria história do Rock. A banda teve papel fundamental no seu renascimento. Kurt Cobain era sinônimo de rock n' roll!

Esse mesmo cara que era fã do melhor do punk rock disse, uma vez, que não conhecia nada que fosse mais bonito do que as canções dos Beatles.

Mas, infelizmente, como Ian Curtis (Joy Division) que se enforcou em 80, Cobain decidiu que não queria mais viver.


Por isso não vou mais ver aquele cara mirrado num palco com suas guitarras, alma, voz. Sua morte representou o fim da maior banda de rock nos últimos dez anos.

Mas não condeno o canhoto Cobain por ter nos deixado. Eu nunca nem mesmo o julguei. Ele anunciou seu suicídio várias vezes, como aquela overdose de champanhe e calmantes em Roma, um mês antes da sua morte. Seu estado depressivo também anunciava. Ninguém o impediu.

Quem, na verdade, foi abandonado?

Quem mais se importa? Da sua morte nasceu o mito e seus discos continuam a vender."

Bem, se bateu curiosidade acerca do sobrenome: trata-se de minha irmã. A saber, no ano seguinte estivemos juntos no apertado Olympia para assistir a outra banda de rock, de dimensões diferentes, porém, de notória energia: Smashing Pumpkins, em 16/8/1998.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Reflexos

Danilo Vasques/1º.abr.2009
Seis da manhã, Cidade A. E. Carvalho, na região leste de São Paulo, assiste à primeira aurora de abril.

Fotografia realizada por Danilo Vasques em 1/4/2009.

Ficção

"hoje, acordei com vontade de mentir: estou feliz"