Os olhos marejados fitavam o teto iluminado pelas luzes dos carros que passavam na rua. O mundo ficara turvo depois do diagnóstico. Não, o problema não estava nas vistas, o câncer começara a atacar o estômago.
Foi na favela da Ventosa, em Belo Horizonte, que Ferreira conheceu a vida. Engraxou sapatos alheios, vendeu sorvetes, ganhou trocados. A camisa da seleção gastando no corpo no tempo em que era lavador de carros lhe rendeu o apelido de rei. Virou Pelé.
Das canelas, era mesmo chegado noutro movimento: gostava de dança. Foi com o funk que a vida encorpou. Fez fama por aí, decretou que beijo na boca já não colava, vendeu discos, conheceu palcos no Brasil e no exterior.
Quando deixou as Minas Gerais, antes do sucesso, foi montado numa moto. Chegou na Bahia, dormiu sem cama, viveu dias difíceis com a falta de trabalho. Sabia que os trezentos mangos que trouxera na mochila não segurariam a bronca do desemprego. Até que, determinado como se dizia, passou a ensinar funk num clube de lazer. Primeiro, os idosos, depois, qualquer um interessado. O ofício foi a base para começar a versar.
Logo, tornou-se um mestre de cerimônias, um MC. Sustentou o apelido da infância quando ganhou as rádios e a TV. Bem verdade que da época da graxa e dos sorvetes, já era de curtir rádios comunitárias, até trabalhou nalgumas na cidade natal.
Faltou-lhe o tempo para mais um show no Uruguai. Partiu sem muito comentar a doença que o atacou por dentro. Quarenta e quatro foram os anos que lhe couberam. Uma quinta-feira de primavera foi o seu dia derradeiro. Que as filhas segurem a barra dos anos vindouros.
Crônica livremente baseada na vida de José Guilherme Ferreira (1965 - 2009), popularmente conhecido como MC Pelé. Inspirada após leitura de matéria de Estêvão Bertoni publicada na sessão de obituários da Folha de S. Paulo em 16/12/2009.
Foi na favela da Ventosa, em Belo Horizonte, que Ferreira conheceu a vida. Engraxou sapatos alheios, vendeu sorvetes, ganhou trocados. A camisa da seleção gastando no corpo no tempo em que era lavador de carros lhe rendeu o apelido de rei. Virou Pelé.
Das canelas, era mesmo chegado noutro movimento: gostava de dança. Foi com o funk que a vida encorpou. Fez fama por aí, decretou que beijo na boca já não colava, vendeu discos, conheceu palcos no Brasil e no exterior.
Quando deixou as Minas Gerais, antes do sucesso, foi montado numa moto. Chegou na Bahia, dormiu sem cama, viveu dias difíceis com a falta de trabalho. Sabia que os trezentos mangos que trouxera na mochila não segurariam a bronca do desemprego. Até que, determinado como se dizia, passou a ensinar funk num clube de lazer. Primeiro, os idosos, depois, qualquer um interessado. O ofício foi a base para começar a versar.
Logo, tornou-se um mestre de cerimônias, um MC. Sustentou o apelido da infância quando ganhou as rádios e a TV. Bem verdade que da época da graxa e dos sorvetes, já era de curtir rádios comunitárias, até trabalhou nalgumas na cidade natal.
Faltou-lhe o tempo para mais um show no Uruguai. Partiu sem muito comentar a doença que o atacou por dentro. Quarenta e quatro foram os anos que lhe couberam. Uma quinta-feira de primavera foi o seu dia derradeiro. Que as filhas segurem a barra dos anos vindouros.
Crônica livremente baseada na vida de José Guilherme Ferreira (1965 - 2009), popularmente conhecido como MC Pelé. Inspirada após leitura de matéria de Estêvão Bertoni publicada na sessão de obituários da Folha de S. Paulo em 16/12/2009.
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