
A parada é a seguinte: não demora e esta comédia já não estará em cartaz, portanto, restam poucas chances para algumas boas risadas na sala escura.
É comum os jornalistas anunciarmos os filmes no momento de suas estreias. E, ademais, publicarmos críticas logo nos primeiros dias de bilheteria. Hoje, novamente vou contra a corrente. É que assisti no último final de semana ao filme "Se beber, não case!" (The Hangover – "A Ressaca" – no original), dirigido por Todd Philips. E como as tais risadas me envolveram, achei de bom modo compartilhar impressões.
Porém, não conto muito, pois falamos de um filme em que o roteiro mostra-se, a princípio, um quebra-cabeça a ser ordenado ao longo das aproximadas duas horas que lhe cabem. Contar estragaria a surpresa, mas, podemos dizer que tudo começa quando, numa estrada em meio ao deserto curtido de sol, um sujeito liga do celular para uma moça prestes a subir ao altar e lhe conta que ele e seus amigos simplesmente perderam o noivo.

É o reflexo da despedida de solteiro iniciada há dois dias quando noivo (Justin Bartha) e padrinhos – o cunhado e dois amigos – partiram a Las Vegas. Lá, hospedam-se num luxuoso hotel e a história segue reta até o momento de um brinde noturno ao telhado: eis a celebração do bando (de lobos solitários, na visão do problemático – e talvez anárquico – cunhado).
Um corte temporal (já é manhã) e um par de pernas num vestido cor-de-rosa deixa o quarto. O trio de padrinhos acorda e a cena está posta: a baderna é indescritível, diga-se que galinhas ciscam pelo local e um tigre repousa no banheiro. A cabeça lateja e a memória não vem. O noivo desapareceu (e um dente da boca de um dos padrinhos também). Sabe-se apenas, pela desordem, que as últimas horas foram decerto turbulentas (e divertidas).

O barato da jogada acontece a partir daí: o trio precisa recompor seus passos a decifrar o caos e o paradeiro do noivo. O enigma se anuncia com um bebê que dorme solitário dentro de um armário. A primeira pista está nos bolsos: o canhoto do estacionamento encontrado num deles preconiza a confusão. São os fragmentos da noitada que ditarão o tempo restante ao casamento.
E é justamente no agrupamento das partes que a comédia se desenha. Comédia que ridiculariza certos vícios morais e expõe contradições da relação dominador-dominado que configura muitos pares amorosos vida afora (visível no caso do padrinho que mente para a namorada que o traiu e que insiste em lhe ditar regras). Não estamos diante de um filme bobo de riso gratuito. As forçações típicas aparecem de maneira sutil, inteligentes e engraçadas.

Mesmo a polícia não passa ilesa numa sequência curiosa e perturbadora. Já por aí se percebe que não é uma obra moral ou politicamente correta, ao contrário, cumpre seu papel ao retratar a diversão desmedida. No pano de fundo, perpetua a imagem de Vegas como um local de loucuras permeadas por prostituição, jogatina, casamentos relâmpagos e bebidas.
Vale dizer que o filme reforça um pressuposto necessário para a vida toda: (salvo pelo excesso) precisamos todos nos divertir.
E fica a deixa óbvia: se beber, evite casamentos.
ps. Mike Tyson faz às vezes de si mesmo numa participação deveras curiosa.
Imagens: divulgação/reprodução © 2009 Warner Bros. Ent.
deu até vontade de ver!
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