Descíamos a rua e logo à frente havia um gato atropelado. Ele agonizava em meio à noite alta que se exibia num céu estrelado – ou que assim me recordo. Agonizava por dentro, pois o corpo já imóvel refletia o tempo se esvaindo. Os olhos é que estavam aterrorizados, fixos num ponto equidistante. De pronto, encostamos o carro. Descemos e levei o gato inerte para o baixo das árvores escuras da praça que ladeia a rua larga. Só nós coube, parados, acompanhá-lo até a estrada que, enfim, ele seguiria sozinho.
Não haveria mais telhados e calçadas. Não mais o sereno a cobrir o corpo. O pelo já não cresceria. Os bigodes não se banhariam de leite ou de qualquer outra coisa que fosse. As garras não mais precisariam se revelar. A aventura – porque essa é a mais própria definição da vida de um gato – escapava no momento em que testemunhávamos o brilho fugir de suas vistas.
O gato morreu em minutos. O tempo passou, faço hoje aniversário, e a sua lembrança me veio de súbito dias atrás. Pois, entendi que devo sim continuar firme em minha jornada, não sei dizer se com maior intensidade do que o fez o gato, até o ponto da estrada em que um dia me caberá também seguir só.
Danilo, seu texto mexe com quem o lê. Leva o leitor a refletir, assim como você refletiu, e a pensar em certas "questões fundamentais", por assim dizer.
ResponderExcluirMas as semelhanças terminam aí. Pois se você, a profundidade que alcança e a beleza do texto são um presente que recebemos, nós, ao contrário, não conseguimos lhe ofertar um outro presente tão valioso em troca, mesmo numa data como esta.
Que aceite o elogio, pelo menos. E Feliz Aniversário!
Estranha, mas pertinente essa reflexão em uma data tão "antípoda". Parabéns, Danilo... Pela ação, pela reflexão, pelo texto e pela data. Grande abraço.
ResponderExcluirDaniel e Jo,
ResponderExcluirmuito obrigado pelos comentários.
Fico sem palavras para externar quão bom é saber que dois amigos que muito admiro tenham lido meu frágil texto e ainda se dado ao trabalho de comentar de formas tão contundentes e profundas. Agradeço de coração.
E agradeço também os parabéns pelo aniversário e que sigamos juntos nesta bela jornada que é a vida. Grande abraço!
Arrepiou aqui. Sério, isso ficou muito bom.
ResponderExcluirMeu caro Ygor, muito obrigado.
ResponderExcluirNão posso deixar de sentir uma certa solidão com as suas palavras. Difícil ler os momentos finais de um gato, ou qualquer animal que fosse. Difícil também é sentir algo como um "pulo" dentro do peito ao ler o fechamento do texto. Contudo, está perfeito. É de uma sensibilidade...
ResponderExcluirParabéns, você é uma pessoa incrível.
Beijos.
Jéssi, obrigado pelo comentário. Fiquei contente que tenha apreciado o texto. Foram muito sensíveis suas observações. Fico agradecido pela delicadeza da leitura. Beijos.
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