Destroços. Pedaços de tijolos misturados à lama. Céu nublado, garoa intensa que assola a cidade no ABC Paulista. O sol fugiente parece denotar a atmosfera trágica que neste exato momento, 15h16, é cortada por um dos grandes caminhões vermelhos do Corpo de Bombeiros que passa à minha frente. Uma pequena loja de fogos de artifícios, numa área residencial de Santo André, foi o estopim de uma explosão catastrófica que ceifou duas vidas e atingiu diretamente quatro casas no bairro de nome Vila Pires.
A tinta da caneta enfraquece em contraponto à garoa que engrossa. Em minhas mãos, o papel começa a se desfazer e as palavras se misturam de leve. A roupa molhada ainda protege. Os óculos seguem marejados e a vista turva quando um outro repórter, também de lentes, comenta com inteligência: “embaçado, né”. E não há muito o que responder, estamos a metros da rua Américo Guazelli, local onde ainda há pouco estavam de pé as paredes que sustentavam o comércio que além dos fogos também vendia pipas, armações que levam rabiolas e papel de seda ao céu que, nesta tarde, está coberto por densas nuvens que jogam chuva aos homens situados entre os fragmentos de vidas espalhados pelo chão agora deforme. Já não há fogo.
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A tragédia ocorreu por volta das 12h30 da quinta-feira, 24 de setembro de 2009. Almocei neste horário em São Caetano do Sul, cidade vizinha, com um amigo que fui rever. Foi a televisão que primeiro me pôs a par dos acontecimentos. Logo, o rádio descreveu o quadro. Resolvi assim seguir os helicópteros. Peguei umas folhas de papel que levava, ao acaso, no porta-luvas.
Um guarda civil levantou o cordão de isolamento para que me aproximasse. Havia muita gente (centenas de pessoas, arrisco dizer) à expectativa de notícias atrás das faixas de plástico, listradas de preto e amarelo, que concentravam distantes os, digamos, apreensivos cidadãos. “Minha casa tremeu, as janelas pareciam soltas”, ouvi de uma moradora numa rua próxima.
O caldo enlameado que descia pela rua tingindo o solo com um barro mole, um laranja-marrom, remetia à ideia distante do sangue manchando o chão sob um corpo ferido (e seriam também as ruas as veias de uma cidade). Era a imprópria imagem de um bombardeio, de um quarteirão levado aos ares numa cena de guerra.
Destruição advinda de uma primeira faísca, um primeiro fogo: a pólvora queimando, a combustão, a fumaça, o cinza do dia escuro, as pessoas desoladas – um rapaz me perguntara sobre a Defesa Civil, pois, ao que parece, sua casa rachou.
Saberíamos mais tarde os nomes das vítimas fatais (o dono da loja sobreviveu, a despeito das informações prematuramente espalhadas), veríamos fotos, vídeos, reportagens e viveríamos uma sexta-feira ainda muito nublada.
Agora, são 23h09 do dia seguinte.
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