Quando eram 10h40, subi num ônibus e segui direto à Estação da Luz, centro de São Paulo. Quarenta e cinco minutos depois, adentrei à Pinacoteca do Estado. O sábado (19/9/9) começava a esquentar, o sol estava alto.
Não foi rejeição, mas optei por não ver as obras de Matisse, mostra destaque da vez. Fui direto ao acervo em busca dos quadros do brasileiro Almeida Júnior (1850-1889). Decerto, outras pinturas no caminho (com repouso em Berthe Worms) prenderam-me a atenção e algumas esculturas compuseram uma inquietude no olhar do transeunte que fui.
Pois, encontrei Almeida Júnior numa sala exclusiva ao seu trabalho. O artista foi responsável por obras que condizem com um termo caro representativo do universo rural brasileiro: o retrato regionalista. O caipira está lá, defronte do espectador, chapado vivamente em telas pintadas há mais de século.
Na andança, ative-me ao quadro de nome “Saudade”, que só agora pude contemplar num arroubo particular. A tradução do tema é precisa na figura central da comovida mulher, sob um manto preto. As lágrimas, duas gotas a correr em seu rosto, são certeiras da dor que por vezes compõe a palavra “saudade”.
Saudade (1889), de Almeida Júnior

Tal sensação consigo vislumbrar (viajar, eu sei) no pé esquerdo da moça que lê a carta. Levemente descalçado, proporcionando um pequeno vão de sombra entre a sola do pé e o tecido da sapatilha. Pequeno, mas ainda um vão, uma falta que pode desequilibrar.

Insisto na ideia ao observar o livro sobre um móvel, abaixo da mão esquerda, coberto e assim protegido por um manto embranquecido (a cor oposta às roupas da protagonista). Há pequenos espaços vagos entre as páginas (aqui, a subjetividade é realmente intensa) e me parece que uma ranhura se destaca, maior do que as outras.

Talvez a carta (ou seria um retrato?) estivesse ali guardada e quando foi retirada permitiu que o ar ocupasse a fenda: o livro fechado, mas não totalmente. Outro vão permitido, retratado. Na soma, a janela aberta ilumina o cômodo e traz o mundo de fora para dentro: o exterior dialoga com o interior. A saudade representada com esmero num belo quadro, em minha opinião.
Quando o sol estava ao pico, resolvi caminhar pelo Jardim da Luz, anexo à Pinacoteca. Pouco minutos depois fui embora. Atravessei a Ponte das Noivas e quando chegava ao finzinho dela vi o ônibus partindo. Fiquei esperando no ponto até uma senhora me indicar outra opção: uma linha mais rápida que já estava de saída.
Porém, antes mesmo desta senhora chegar, passei a observar uma dupla de músicos amadores no outro lado da rua. O tocador de bumbo dava o tom e o saxofonista entoava o solo representativo de um canto popular. Foram quatro canções que ouvi, as duas últimas executadas numa fineza admirável: “Trem das Onze” e “Azul da Cor do Mar”.
Eram dois artistas anônimos e não demorou a pararem de tocar, seguindo andarilhos como vieram. De longe, partindo, o tocador de bumbo me sorriu dizendo algo que não entendi bem, mas pelo entusiasmo e pelo positivo que insistia em fazer com a mão direita, percebi que estava feliz ao se despedir com a música que Tim Maia tão bem gravou no nosso imaginário popular. Coisas de Brasil, urbano e rural.

Registro do ingresso. Ao clicar na imagem, torna-se mais fácil conferir endereço, horário, telefone e site da Pinacoteca. É de graça aos sábados. Pinturas: Reprodução.
revisado às 16h51 de 28.abr.2011
Não foi rejeição, mas optei por não ver as obras de Matisse, mostra destaque da vez. Fui direto ao acervo em busca dos quadros do brasileiro Almeida Júnior (1850-1889). Decerto, outras pinturas no caminho (com repouso em Berthe Worms) prenderam-me a atenção e algumas esculturas compuseram uma inquietude no olhar do transeunte que fui.
Pois, encontrei Almeida Júnior numa sala exclusiva ao seu trabalho. O artista foi responsável por obras que condizem com um termo caro representativo do universo rural brasileiro: o retrato regionalista. O caipira está lá, defronte do espectador, chapado vivamente em telas pintadas há mais de século.
Na andança, ative-me ao quadro de nome “Saudade”, que só agora pude contemplar num arroubo particular. A tradução do tema é precisa na figura central da comovida mulher, sob um manto preto. As lágrimas, duas gotas a correr em seu rosto, são certeiras da dor que por vezes compõe a palavra “saudade”.
Saudade (1889), de Almeida Júnior
Atento-me a interpretar a saudade ali tratada como a falta de algo ou alguém. E, numa leitura pessoal, o pedaço do tijolo ausente na parede em primeiro plano ressalta justamente a ideia: a ausência que deixa incompleta a vida (esta construção feita de tijolos cotidianos).

Tal sensação consigo vislumbrar (viajar, eu sei) no pé esquerdo da moça que lê a carta. Levemente descalçado, proporcionando um pequeno vão de sombra entre a sola do pé e o tecido da sapatilha. Pequeno, mas ainda um vão, uma falta que pode desequilibrar.

Insisto na ideia ao observar o livro sobre um móvel, abaixo da mão esquerda, coberto e assim protegido por um manto embranquecido (a cor oposta às roupas da protagonista). Há pequenos espaços vagos entre as páginas (aqui, a subjetividade é realmente intensa) e me parece que uma ranhura se destaca, maior do que as outras.

Talvez a carta (ou seria um retrato?) estivesse ali guardada e quando foi retirada permitiu que o ar ocupasse a fenda: o livro fechado, mas não totalmente. Outro vão permitido, retratado. Na soma, a janela aberta ilumina o cômodo e traz o mundo de fora para dentro: o exterior dialoga com o interior. A saudade representada com esmero num belo quadro, em minha opinião.
Quando o sol estava ao pico, resolvi caminhar pelo Jardim da Luz, anexo à Pinacoteca. Pouco minutos depois fui embora. Atravessei a Ponte das Noivas e quando chegava ao finzinho dela vi o ônibus partindo. Fiquei esperando no ponto até uma senhora me indicar outra opção: uma linha mais rápida que já estava de saída.
Porém, antes mesmo desta senhora chegar, passei a observar uma dupla de músicos amadores no outro lado da rua. O tocador de bumbo dava o tom e o saxofonista entoava o solo representativo de um canto popular. Foram quatro canções que ouvi, as duas últimas executadas numa fineza admirável: “Trem das Onze” e “Azul da Cor do Mar”.
Eram dois artistas anônimos e não demorou a pararem de tocar, seguindo andarilhos como vieram. De longe, partindo, o tocador de bumbo me sorriu dizendo algo que não entendi bem, mas pelo entusiasmo e pelo positivo que insistia em fazer com a mão direita, percebi que estava feliz ao se despedir com a música que Tim Maia tão bem gravou no nosso imaginário popular. Coisas de Brasil, urbano e rural.

Registro do ingresso. Ao clicar na imagem, torna-se mais fácil conferir endereço, horário, telefone e site da Pinacoteca. É de graça aos sábados. Pinturas: Reprodução.
revisado às 16h51 de 28.abr.2011

Desculpe, gente, pequena alteração: a dupla tocou por último a canção "Azul da Cor do Mar", já corrigida no texto.
ResponderExcluirEu diria que Pinacoteca aos sábados é um dos melhores programas pela manhã que os paulistanos podem fazer.
ResponderExcluirE me agrada muito essa interpretação pormenorizada. Muito bem!
Grande abraço!