um conto de Danilo Vasques
Chovia naquela tarde e a cidade estava um aguaceiro só. Casas úmidas, móveis danificados e sofás destruídos, roupas amarrotadas boiando impiedosamente: a enchente arrastou tudo, lares perdidos, identidades lançadas a esmo: a força da correnteza não se esvai quando o córrego baixa, permanece no tempo, um pouco acima da marca da água na parede. A tinta disfarça, mas certas manchas nem o sol apaga.
No começo da noite, o vento ajudou e a água escorreu. Algumas estrelas até arriscaram aparecer à vã tentativa de clarear a noite escura, fruto da falta de eletricidade nas lâmpadas de mercúrio dos postes públicos.
Dentro de um ônibus que percorria as veias de um corpo confuso, seguia uma gente triste. A alegria era só o azul da camisa do motorista. De um banco alto, no meio do veículo, o cobrador olhava a todos:
Viu, por exemplo, o homem que embarcou no terminal vestindo branco e seguiu acordado meio dormente: sonâmbulo, caso comum na metrópole. Ao seu lado, uma mulher distante (ou esquecida) de todos não ouviu os dois sujeitos uniformizados que reclamavam da exaustão do trabalho.
Atrás deles, um banco vazio. Era dela o assento.
Dela que pisava com força a plataforma suja com restos de lama nas laterais da sola. Ela, que parecia uma moça livre, prendia seus longos cabelos escuros com um adorno em forma de borboleta. Sua blusa era rosa. Por baixo, entretanto, bem à vista, um decote preto. A calça era jeans.
A mão direita trazia uma barra de chocolate. Com vagar o doce foi levado à boca. Antes de morder, ela o deslizou pela língua sensualmente. Quando a ponta que havia tocado os lábios começou a derreter, os dentes cortaram-lhe um pedaço. Em seu âmago, a moça sentia que seus gestos provocavam os espectadores do cotidiano. E gostava disso.
Um chocolate pode valer o dia.
Seis paradas depois, a barra acabou. A moça tirou de sua bolsa uma caixa de lenços, pegou dois deles e limpou a nívea pele do rosto e as pontas dos dedos que exibiam unhas delicadamentes pintadas. Amassou os papéis, fez uma bolinha com eles e com vigor a arremessou através da janela. Um voo extraordinário. A bolinha rolou à valeta e de lá vagou até mergulhar à escuridão da primeira boca-de-lobo que encontrou. Ali, engrossou a massa de lixos perdidos.
Uma certeza ficou: quando as novas chuvas chegassem, a boca iria vomitar.
Anotações: Reedição de conto escrito por Danilo Vasques e publicado originalmente sob o título "Outros Papéis" no Jornal Notícias – Diadema, em maio de 2007, nº 60, p. 6.

Em 19 de fevereiro de 2010 este texto foi revisado e sofreu alterações.
Chovia naquela tarde e a cidade estava um aguaceiro só. Casas úmidas, móveis danificados e sofás destruídos, roupas amarrotadas boiando impiedosamente: a enchente arrastou tudo, lares perdidos, identidades lançadas a esmo: a força da correnteza não se esvai quando o córrego baixa, permanece no tempo, um pouco acima da marca da água na parede. A tinta disfarça, mas certas manchas nem o sol apaga.
No começo da noite, o vento ajudou e a água escorreu. Algumas estrelas até arriscaram aparecer à vã tentativa de clarear a noite escura, fruto da falta de eletricidade nas lâmpadas de mercúrio dos postes públicos.
Dentro de um ônibus que percorria as veias de um corpo confuso, seguia uma gente triste. A alegria era só o azul da camisa do motorista. De um banco alto, no meio do veículo, o cobrador olhava a todos:
Viu, por exemplo, o homem que embarcou no terminal vestindo branco e seguiu acordado meio dormente: sonâmbulo, caso comum na metrópole. Ao seu lado, uma mulher distante (ou esquecida) de todos não ouviu os dois sujeitos uniformizados que reclamavam da exaustão do trabalho.
Atrás deles, um banco vazio. Era dela o assento.
Dela que pisava com força a plataforma suja com restos de lama nas laterais da sola. Ela, que parecia uma moça livre, prendia seus longos cabelos escuros com um adorno em forma de borboleta. Sua blusa era rosa. Por baixo, entretanto, bem à vista, um decote preto. A calça era jeans.
A mão direita trazia uma barra de chocolate. Com vagar o doce foi levado à boca. Antes de morder, ela o deslizou pela língua sensualmente. Quando a ponta que havia tocado os lábios começou a derreter, os dentes cortaram-lhe um pedaço. Em seu âmago, a moça sentia que seus gestos provocavam os espectadores do cotidiano. E gostava disso.
Um chocolate pode valer o dia.
Seis paradas depois, a barra acabou. A moça tirou de sua bolsa uma caixa de lenços, pegou dois deles e limpou a nívea pele do rosto e as pontas dos dedos que exibiam unhas delicadamentes pintadas. Amassou os papéis, fez uma bolinha com eles e com vigor a arremessou através da janela. Um voo extraordinário. A bolinha rolou à valeta e de lá vagou até mergulhar à escuridão da primeira boca-de-lobo que encontrou. Ali, engrossou a massa de lixos perdidos.
Uma certeza ficou: quando as novas chuvas chegassem, a boca iria vomitar.
Anotações: Reedição de conto escrito por Danilo Vasques e publicado originalmente sob o título "Outros Papéis" no Jornal Notícias – Diadema, em maio de 2007, nº 60, p. 6.

Em 19 de fevereiro de 2010 este texto foi revisado e sofreu alterações.
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