quinta-feira, 23 de julho de 2009

O homem que tomava corticoides


Sabemos que levar “um homem que” ao título de uma obra já não é novidade. Decerto revela uma ação ou acena o perfil de um personagem e, como se espera de uma boa chamada, indica um caminho. Para voltar um pouco, lembramos rapidamente de um homem que virou suco, de outro que sabia demais, de alguém que matou o facínora e de tantos que fizeram algo que valesse nomear um documento cultural.

Cá, nem podemos dizer que se trata de um documento cultural, quando muito, um documento. Um registro, sim, pode-se pensar. E, ademais, tomar corticoides não é nada notável e menos ainda seria falar sobre isso neste espaço. Entretanto, cerca de 7 ml de um xarope que tem na fórmula betametasona, por sua vez, o corticoide da parada, alçam-me à intenção de algumas linhas a mais.

É que ontem voltei a tomar um antialérgico. Fazia duas semanas que eu havia esvaziado o último frasco e logo tornei a sentir o corpo reagir contra um alérgeno – substância que o meu sistema imunológico encara como um ser estranho o qual não me cabe: um oponente a ser combatido. Pois, a ofensiva que minhas células organizam justamente traz a mim essa ebulição que é a alergia. O tal da “melhor defesa é o ataque” não tem sido bom.

Sou deveras preguiçoso, admito, pois, em dois anos seguidos ainda não descobri o principal agente que faz meu corpo responder assim. Claro que junto a muitos médicos – e até que alguns, raros, foram bons – levantei algumas substâncias que me são vilãs, mas, ainda que as evite, não alcancei ainda o oponente principal.

Ando brigando novamente, é verdade, com o leite – não, não é questão de intolerância à lactose. Sugiro-me, apoiado por outras pessoas, que o leite da vaca é o motor que desenvolve aqui dentro um embate o qual chega à flor da pele. Pretendo, mas ainda não consegui, evitar qualquer contato com o tal, ainda que este figure até nas entrelinhas de uma bolacha.

Até vale rememorar um, digamos, doutor. Após a canseira de uma sala de espera – tão comum hoje, consegui adentrar ao consultório para aquele tipo de encontro brevíssimo em que se conta, vá lá, no máximo dois minutos. O médico – tratemos assim, apesar de duvidarmos de que tal denominação lhe caiba – não fez questão de pedir nenhum exame. Até então, clarividente, estava certo do que se tratava: o problema era o leite. Não descarto a ideia: a alergia ao leite é fato conhecido.

Voltemos à cena. Sentado, ele parecia não ter ouvidos e tampouco me olhou nos olhos. Não me viu a cara, não me viu ali, apenas rabiscou – sim, um rabisco, como manda a quase regra – uma receita enorme para uma farmácia de manipulação. Forço a memória para registrar se ele havia indicado, como suponho, um estabelecimento para a venda – era um acionista, talvez. Não consigo precisar.

Ignorei-o, já que esse tipo de profissional que se prolifera em alguns cantos – ao menos, já me deparei com outros tão zumbis quanto – é de longe o que se deve ser alguém que se inclina para cuidar da saúde de uma pessoa. Um médico é mais. Só restou a palavra leite.

Mas, para aliviar o conflito, alguns recomendaram vez ou outra o tratamento com antialérgicos que combatem a histamina (um contragolpe interno, um desmanche do ataque) e que resolvem temporariamente a empreitada, no meu caso, com a ajuda dos corticoides, os quais, numa simplificação, podem ser encarados como hormônios produzidos pelas suprarrenais ou, ainda, derivados químicos de tais.

Bom, já quando novo, dos momentos em que jogava bola em dias quentes, nalgumas vezes, minha pele reagia ao que hoje leio como urticária de sol. O corpo espetando sob a blusa, nariz irritado, espirros e coisas do gênero até me acostumei ainda antes da adolescência.

Agora, é o tal corticoide quem tem sido um parceiro nas horas em que a pele reclama. Contudo, seu uso prolongado, sabemos, é bastante complicado. E, no A + B, estou realmente a fim de parar com essa história de xarope.

3 comentários:

  1. boa sorte, que esta vida de alergias já está pra lá de cansativa.

    saudades, grande Dan!

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  2. Gostei de ver que está a fim de parar com "essa história de xarope". Fico feliz.

    Essa alergia vai passar, eu tenho certeza disso.

    Beijos.

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  3. Ygor, Jéssica, queridos. Muito obrigado pelos comentários! Que as alergias caibam bem apenas nas histórias de ficção! Abraços.

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