
Harry Potter e o Enigma do Príncipe: diálogos e ruídos entre gerações
Noutra cena, o adolescente e a carismática dupla de amigos, Rony e Hermione, especulam sobre qual seria a idade do feiticeiro barbudo – uns 150 anos, arrisca o garoto ruivo meio atrapalhado companheiro de quarto do estudante órfão. A conversa ingênua do trio desencadeia uma risada gostosa que revela, tal qual na adaptação anterior, o aconchego da amizade em meio às tormentas advindas do latente retorno do Lorde das trevas.
Trata-se do novo episódio da franquia cinematográfica da série criada por J. K. Rowling, autora inglesa que levou às livrarias do mundo todo o nome do menino que com um ano de idade escapou da morte num sacrifício de sua mãe, assassinada com o marido por um bruxo altamente poderoso, Voldemort. A morte dos pais é o começo da saga de Harry Potter, registrada em sete livros e cuja adaptação do penúltimo chega às telas amanhã.

Os apontamentos lá de cima compõem justamente uma das vias alçadas no sexto filme: o encontramento das duas pontas da vida, da juventude e do envelhecimento. Ambas as partes se completam na obra, fato visível na doação mútua dos personagens centrais e no respeito entre eles.

A valorização do mestre e a confiança incondicional ao adolescente são alguns dos aspectos desenhados nas ações e nas omissões do aprendiz, Potter (Daniel Radcliffe), e de seu professor, Dumbledore (Michel Gambon).
E Dumbledore sabe do seu papel. Tão bem conhece a vida – e estaria disposto a sacrificá-la para Potter cumprir seu destino? – que entende dos sentimentos assim como da razão. É por isso que num momento secundário exclama o descobrimento do amor, segundo ele, quando acontece um jogo de ciúmes entre Hermione (Emma Watson) e outra jovem. Divertido.
Se por um lado há o diálogo entre as gerações, também se observa o ato contrário: o conflito ferino entre as décadas. E não é Potter quem denota tal situação, sim um outro adolescente que leva ao extremo o princípio do choque. Dumbledore, desarmado, está na mira da varinha deste que não revelaremos o nome para não estragar a surpresa.
Esclarecer os anos que se foram pode resolver a sombra que paira sobre o reino mágico. Neste novo capítulo, as memórias ganham evidência justamente por uma missão empregada por Potter sob orientação de Dumbledore. É o passado novamente dialogando com o presente.

Salvo pelas magias e bruxarias, “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, dirigido por David Yates, fala dos desafios da vida, do romance, da paixão, do crescimento, da perda e da superação – esta última bem diga Rony (Rupert Grint) numa passagem pelos campos de quadribol.
A solidão que cabe a todos nós reaparece na trama, a exemplos dos filmes anteriores. Atente-se ao lado obscuro da juventude, pois, o garoto Draco (Tom Felton) é quem imerge ao isolamento que a adolescência por vezes confere.

Há muito de humanidade na parada. Humanidade mesmo no encerramento de uma aranha gigante. O rei dos aracnídeos velado entre lágrimas tem sua morte bebida por Hagrid (Robbie Coltrane) e Horácio Slughorn (Jim Broadbent), professor destaque da vez. E por falar em bebida, Harry, Rony e Hermione conversam num bar entre copos de cerveja amanteigada.

Justamente o trio encabeça as cenas mais intrigantes a respeito dos assuntos do coração. Cada qual ao seu modo, sofre e sorri em relação aos sentimentos que se anunciam. Vide o amor está por acontecer.

A beleza plástica do filme também merece atenção – o trem em meio às planícies é quase uma pintura. O orçamento milionário confere uma gama de recursos visuais coerentemente dispostos, já por aí se sabe que se trata de um filme bem aprumado. Há uma cena que rouba o fôlego: professor e aluno em alto-mar.

Há muito, mas o espaço é curto. Ficamos nós, os trouxas¹ do lado de cá, certos de que uma loja de artifícios mágicos é apenas um pequeno chamariz para um universo em que a expressão “era uma vez” não seria inapropriada de se dizer.

¹“Trouxa” aqui empregado não possui o caráter pejorativo que a palavra possa indicar. Trata-se da denominação aplicada na história para quem não é bruxo.
Os jornalistas assistimos à pré-estréia de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” em 7 de julho a convite da Warner Bros.
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