quarta-feira, 6 de maio de 2009

Wando

"Cara que fica apaixonado fica brega", diz cantor

Gosto é algo assim: uns dizem que sim, outros que não. Discutir até vale, sem imposições. E é nesse limiar que se situa um nome de destaque no imaginário popular: Wando.

Mineiro na casa dos 63 anos, catorze deles vividos em São Paulo, o cantor emprega o vozeirão a temas que dialogam com o universo da sedução e é certeiro no romantismo. Ao menos, naquele romantismo dito brega por alguns. "Brega é uma palavra que veio para avacalhar a história da música romântica, da música mais popular", diz.

Alvo de calcinhas que frequentemente chegam aos palcos, ele que transita entre o fogo e a paixão é cuidadoso com as vestes femininas. A cada show, recebe, agradece, guarda e presenteia as moças com novas peças com seu nome estampado no ritual que é quase um zelo pela figura tão cantada da mulher. São cerca de dezoito anos de trocas da roupa tão cobiçada.

No começo da carreira, acenou para o violão clássico, mas trocou de vereda por um franco motivo: queria tocar para as garotas. Ele, que quase sempre canta na linguagem solta como pede a lábia, faz as vezes de um sedutor profissional: é a imagem reverenciada pelo público. Fetiches? "Eu gosto dessa coisa".

No show (Shopping Metrô Itaquera, ontem), maçãs, rosas e gritos dialogavam com o repertório vasto de canções populares. Quase sempre ele fala de amor, mas do amor de todo dia, daquele que se divide entre sorrisos e arranhões. Fala de rosto suado, quando muito enxugado numa calcinha vermelha prometida ao público. Momento ímpar: canções de Roberto Carlos renderam-lhe um pout-pourri que fez cantar a plateia que se divertia com o carisma do intérprete.

No camarim, pouco antes de subir ao palco para versar em homenagem ao Dia das mães (homem também de família, pretende passar a data com a esposa e a filha pequena em Minas Gerais), Wando cedeu uma sorridente e exclusiva entrevista. Escondido atrás dos óculos escuros (os quais tirou apenas após a segunda canção, momento em que as primeiras peças íntimas chegaram ao palco) o cantor falou sobre temas que conhece de perto: música, sucesso, mulher.

Confira a seguir os principais trechos.

Fama

É mais difícil quando vêm os primeiros sucessos, fica-se meio sem jeito. As pessoas tentam modificar você, querem que seja alguém a quem nem sempre você corresponde, o que é muito complicado. Até encontrar o ponto de equilíbrio é difícil: só com o tempo. Eu já tenho trinta e poucos anos de carreira e a cada dia é uma surpresa, tem sempre uma coisa diferente acontecendo. É claro que hoje sei lidar muito melhor com essas coisas e a gente consegue se adaptar rápido. A cada show há mudanças, como mudar de uma casa para outra, e a gente precisa se adaptar velozmente e ensinar os seus vizinhos a gostarem de você. Vizinhos, quero dizer, são as pessoas que vão lhe visitar, vão lhe ver no show. Isso é o que eu faço, não faço outra coisa. Gostaria de ter sido engenheiro, mas não deu tempo (risos). Eu gosto de cantar, gosto de ir ao palco, gosto de conviver com as pessoas.

Música

Acho que todo jovem faz a seguinte pergunta: o que eu vou fazer quando crescer? Ou: o que vou ser? Um dia você descobre que acabou não fazendo aquilo que queria, que aconteceu alguma coisa no percurso. Trabalhei em feira livre, dirigindo caminhões, entre outras coisas. Aí, a música me "atrapalhou" e acabei me envolvendo, me entreguei a ela. Acabei fazendo uma carreira que era para ser apenas de compositor e que logo se tornou de intérprete também: e é muito bom! O destino sabe o que faz com a gente. Eu estudei um pouco de violão erudito e não era minha praia. Era preciso estudar muito e eu queria tocar para as meninas (risos). E acho que continuo tocando para as meninas.

Mulher e filhos

A gente já nasce com a mulher na cabeça (risos). A gente tem o primeiro contato com a mãe da gente. Depois a gente quer ter uma mulher, ou quer ter umas. Na verdade, são sempre elas quem escolhem. Eu já vivi três casamentos e cada um foi diferente, cada um com um tipo de exigência diferente. E minha atual mulher exige menos de mim do que minha filha (Maria, 2 anos e quatro meses). Descobri que depois de uma determinada faixa de idade, o filho cobra muito mais dos pais do que eu imaginava antes, pois eu não tive tempo para ver meus filhos crescerem. Agora é que tenho um pouquinho mais de tempo para ver Maria crescer: dá trabalho, é difícil.

Machismo

O Brasil é um lugar onde há uma luta muito grande pela frente, a mulher ainda tem de se livrar de uma série de preconceitos. Tenho um projeto com alguns amigos em Salvador que vai se chamar Nossa Senhora das Fêmeas. Isso faz parte de uma música que eu fiz há um tempo. Uma oração em proteção às mulheres. A proteção deve ser em todos os sentidos, contra todas as covardias do mundo.

O músico Carlinhos Kalunga

Fetiche

Eu gosto dessa coisa. As pessoas gostam de fantasias. No meu trabalho, eu sempre falo que num relacionamento tem de haver ideias para fazer seu amor feliz. No palco, distribuo até hoje maçãs, rosas, calcinhas. Essa questão da calcinha eu não imaginava que chegaria tão longe. São quase dezoito anos que a gente distribui e recebe essas peças íntimas, o que é muito legal. Acabou virando um negócio bacana. Fiz um show na Virada Cultural (3/5) e o que havia de calcinhas foi impressionante, muita calcinha para um homem só (risos).

Brega

É uma palavra que veio para avacalhar a história da música romântica, da música mais popular. As pessoas começaram a ver de outro jeito. Quem faz música romântica popular é considerado uma pessoa brega, de mau gosto. Acho que todo cara que fica apaixonado fica brega, no sentindo de colocar para fora coisas do coração que podem ser consideradas ridículas de se expor, de ficar meio bobo, de fazer aquilo que o amor lhe pede. A música brasileira romântica é isso. Pode ser piegas, mas não há uma pessoa que um dia na vida, ou em muitos dias, não teve necessidade de cantar uma dessas músicas.


video

Clique no botão "play" e veja um trecho do show


Nota: colaborou Jéssica Lima, autora do blog "Publicidade em rosa".

Anotações: Texto e imagens: Danilo Vasques. Todos os direitos reservados. Entrevista realizada em 5 de maio de 2009.

3 comentários:

  1. Olá ... Fui nesse show manda mais fotos principalmente do publico eu estava ao lado do palco bem na frente .... bjus

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  2. Olá. Obrigado por se interessar pelo texto e por comentar. Muito boa sua sugestão, agradeço muito. Infelizmente, as melhores fotos que tenho são as que publiquei. Ao menos, o vídeo disponibilizado, em certo momento, apresenta uma visão geral do público. Espero que você esteja entre tais pessoas e consiga se reconhecer. Caso possua outras fotos do show e queira publicá-las, por favor, entre em contato.
    Muito obrigado e sinto não ter conseguido responder imediatamente. Abraços, Danilo.

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  3. Olá tomei a liberdade de fazer uma leitura diferente de uma das canções
    belíssimas de Wando “MOÇA” de certa forma é uma pequena homenagem
    que faço, á esse poeta e cantor tão importante para nossa MPB
    Quer conferir minha versão? Pesquise por vídeos no
    PROJETO MICHELANGELO-2011-DJM no YOUTUBE acesse o meu
    Canal de vídeos no http://www.youtube.com/watch?v=Uh0rmHqUFGA

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