Início de 2004. Noel Rosa era a pauta: havia cerca de quatro meses que eu estava mergulhado na obra do compositor de “Três apitos” e “Feitio de Oração”. Pesquisas, telefonemas e, de repente, Osvaldinho da Cuíca sugere que eu troque algumas ideias com Victor Simón. Sigo a pista. Já no telefone, Simón acena: conheci Noel Rosa, estivemos juntos por três vezes. Um adendo a saber o quão isso é significante: Noel morreu em maio de 1937.
Logo fui encontrá-lo em Santo Amaro, zona sul de São Paulo, na casa de amigos onde morava. A entrevista deu caldo. Ele até deixou escapar que foi Noel quem lhe sugeriu a palavra “bacana” para fechar um verso de “Tijuca”, uma das famosas que marcam a extensa carreira de Simón: “Minha vida seria um Pão de Açúcar/ Se tu morasses na Tijuca/ Pertinho do meu bangalou.../ Verias o Corcovado de perto/ Jesus de braços abertos abençoando o nosso amor/ Mas tu moras em Copacabana/ Nessa praia bacana”. E Noel, com todo o respeito, deixa o papo aqui.
Logo fui encontrá-lo em Santo Amaro, zona sul de São Paulo, na casa de amigos onde morava. A entrevista deu caldo. Ele até deixou escapar que foi Noel quem lhe sugeriu a palavra “bacana” para fechar um verso de “Tijuca”, uma das famosas que marcam a extensa carreira de Simón: “Minha vida seria um Pão de Açúcar/ Se tu morasses na Tijuca/ Pertinho do meu bangalou.../ Verias o Corcovado de perto/ Jesus de braços abertos abençoando o nosso amor/ Mas tu moras em Copacabana/ Nessa praia bacana”. E Noel, com todo o respeito, deixa o papo aqui.
Clique no botão "play" e ouça a música "Tijuca"
A conversa com Victor Simón não cabia num dia só, as histórias sequer pareciam caber numa vida. Reencontramo-nos algumas vezes e conseguimos fechar uma edição especial dedicada ao rebelde vagabundo, como ele se autodefiniu numa tarde. O diretor do programa, experiente repórter, sustentou a pauta até vê-la no ar. Fiquei novos meses submerso. Para explicar melhor, eu trabalhava em um programa de televisão semanal chamado Refletor¹: os dois músicos foram temas do primeiro semestre daquele ano.
Simón era homem viajado. Compositor que de vez em quando cantava, gostava de samba e tinha o verbo firme. Tanto firme, que dizia sem pestanejar que lá no nascedouro do ritmo o Donga havia mesmo gravado um... maxixe. Pois, segundo suas palavras, “Pelo Telefone”, ainda que leve a alcunha de primeiro samba gravado, não se trata propriamente de um samba².
E, se era firme no verbo, a pronúncia social ganhava força em muitas de suas composições, como por exemplo em “Vagalume” (“de dia falta água, de noite falta luz”), em que registrou um problema até então comum no Rio de Janeiro em versos que brincam com a rima: “cidade que me seduz”. A música levou o carnaval local em 1954.
A obra de Simón é vasta e não plenamente reunida. Além do oficial, pensemos também nos papéis não publicados, o livro somente idealizado, as poesias declamadas (mas não escritas) e os esboços vários (lembro de uma grande caixa de papelão repleta de recortes e anotações). E se versava sobre um desajuste social – ou sobre as duas Guerras Mundiais (“os homens criaram o inferno, um inferno de lágrimas, mataram a luz dos olhos que iluminam a vida e fecharam os lábios para sempre de quem tinha amor no sorriso”), também falava de outros temas, como a saudade ou o café – e aqui pensemos em Brasil.
Uma de suas composições que correu o país chama-se “Bom Dia, Café”. Era com orgulho que Simón lembrava de quando a ouvia nas chamadas da Rádio Tupi, de Assis Chateaubriand. A música também foi conduzida pelas mãos do maestro José Catharina Gonçalves Filho na inauguração do teatro da TV Record. O princípio da criação, dizia Simón, foi por conta de uma namorada. Certo amanhecer, ela apareceu vestida de marrom, da cor do grão, e ao vê-la assim ele trocou o habitual “bom dia, amor” por “bom dia, café”. Foi imediato o estalo na mente do artista que tinha no cotidiano o alicerce da arte. Estamos falando de meados do século passado: “Bom dia, café/ O café que a gente toma/ E que tem o doce aroma/ Desta terra primaveril”.
E foi por esses anos que ele crivou que vagabundo era o próprio mundo. A história é a seguinte: o músico havia dormido num banco de praça donde se via navios ao longe (filho de imigrantes árabes, dizia sentir “saudades de viajar de navio”). Na manhã, um casal se aproximou e a moça sugeriu que eles não se sentassem ali, que tomassem cuidados com o “vagabundo”. Simón contava que as palavras foram lâminas aos ouvidos. “Ofendeu profundamente”. Dali, surgiram os versos da canção “O Vagabundo”:
"Que importa saber quem sou/ Nem de onde venho/ Nem pra onde vou/ Eu só quero é o teu amor/ Que me dá a vida/ Que me dá calor/ Tu me condenas por ser vagabundo/ E meu destino é viver ao léu/ Pois vagabundo é o próprio mundo/ Que vai girando no azul do céu".
Simón era homem viajado. Compositor que de vez em quando cantava, gostava de samba e tinha o verbo firme. Tanto firme, que dizia sem pestanejar que lá no nascedouro do ritmo o Donga havia mesmo gravado um... maxixe. Pois, segundo suas palavras, “Pelo Telefone”, ainda que leve a alcunha de primeiro samba gravado, não se trata propriamente de um samba².
E, se era firme no verbo, a pronúncia social ganhava força em muitas de suas composições, como por exemplo em “Vagalume” (“de dia falta água, de noite falta luz”), em que registrou um problema até então comum no Rio de Janeiro em versos que brincam com a rima: “cidade que me seduz”. A música levou o carnaval local em 1954.
A obra de Simón é vasta e não plenamente reunida. Além do oficial, pensemos também nos papéis não publicados, o livro somente idealizado, as poesias declamadas (mas não escritas) e os esboços vários (lembro de uma grande caixa de papelão repleta de recortes e anotações). E se versava sobre um desajuste social – ou sobre as duas Guerras Mundiais (“os homens criaram o inferno, um inferno de lágrimas, mataram a luz dos olhos que iluminam a vida e fecharam os lábios para sempre de quem tinha amor no sorriso”), também falava de outros temas, como a saudade ou o café – e aqui pensemos em Brasil.
Uma de suas composições que correu o país chama-se “Bom Dia, Café”. Era com orgulho que Simón lembrava de quando a ouvia nas chamadas da Rádio Tupi, de Assis Chateaubriand. A música também foi conduzida pelas mãos do maestro José Catharina Gonçalves Filho na inauguração do teatro da TV Record. O princípio da criação, dizia Simón, foi por conta de uma namorada. Certo amanhecer, ela apareceu vestida de marrom, da cor do grão, e ao vê-la assim ele trocou o habitual “bom dia, amor” por “bom dia, café”. Foi imediato o estalo na mente do artista que tinha no cotidiano o alicerce da arte. Estamos falando de meados do século passado: “Bom dia, café/ O café que a gente toma/ E que tem o doce aroma/ Desta terra primaveril”.
E foi por esses anos que ele crivou que vagabundo era o próprio mundo. A história é a seguinte: o músico havia dormido num banco de praça donde se via navios ao longe (filho de imigrantes árabes, dizia sentir “saudades de viajar de navio”). Na manhã, um casal se aproximou e a moça sugeriu que eles não se sentassem ali, que tomassem cuidados com o “vagabundo”. Simón contava que as palavras foram lâminas aos ouvidos. “Ofendeu profundamente”. Dali, surgiram os versos da canção “O Vagabundo”:
"Que importa saber quem sou/ Nem de onde venho/ Nem pra onde vou/ Eu só quero é o teu amor/ Que me dá a vida/ Que me dá calor/ Tu me condenas por ser vagabundo/ E meu destino é viver ao léu/ Pois vagabundo é o próprio mundo/ Que vai girando no azul do céu".
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A música fez sucesso na voz de Altemar Dutra (1940–1983) e no exterior foi gravada pelo Trio Los Panchos, do México. Ernesto Che Guevara (1928–1967) foi um admirador confesso da canção, lembrou Osvaldinho em 2004.
E, seguindo na contramão do capitalismo (o mesmo que o deixou pobre e quase totalmente esquecido do mercado fonográfico), Simón foi um dos primeiros artistas ocidentais a se apresentar na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, nos anos 1960. Por aí, contava com altivez e certa ingenuidade que foi convidado pessoalmente por Mao Tsé-Tung a participar da Revolução Cultural Chinesa.
Sem querer incorrer em reduções ou fragmentações, pode-se dizer que Simón foi dono de sucessos entre os anos 1940 e 1960, quando passou a figurar cada vez menos no cenário musical. No final da sua vida, lutava por receber os direitos autorais e sentia distante a chance de regravações – mas não cessava a produção.
E, seguindo na contramão do capitalismo (o mesmo que o deixou pobre e quase totalmente esquecido do mercado fonográfico), Simón foi um dos primeiros artistas ocidentais a se apresentar na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, nos anos 1960. Por aí, contava com altivez e certa ingenuidade que foi convidado pessoalmente por Mao Tsé-Tung a participar da Revolução Cultural Chinesa.
Sem querer incorrer em reduções ou fragmentações, pode-se dizer que Simón foi dono de sucessos entre os anos 1940 e 1960, quando passou a figurar cada vez menos no cenário musical. No final da sua vida, lutava por receber os direitos autorais e sentia distante a chance de regravações – mas não cessava a produção.
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Vimo-nos poucas vezes, não havia mais anos, porém, foi fácil notar que seus olhos um pouco cansados despachavam sensibilidade. Recordo uma ocasião, na Serra da Cantareira, em que tal como o escritor viu humanidade na Baleia, Simón mostrou “profunda simpatia” por outra cachorra, esta de nome Bolena: “Eu desaparecia e ela me esperava. Uma coisa extraordinária em minha vida: linda Bolena”.
Simón era um artista brasileiro que trazia na bagagem uma história rica e uma obra fundamentada. Conheceu lugares, pessoas, amores e dissabores. Os quase noventa anos foram poucos para o menino Afonso Victor Simón nascido em 1916 em Macaé, Rio de Janeiro, e que já na juventude tomou o gosto pela boemia. Na velhice, por assim dizer, mantinha planos, seguia na ativa, escrevia, anotava e tendia a falar sobre projetos: faltou-lhe o tempo. Morreu no final da noite de 15 de maio de 2005 num hospital em São Paulo vítima de uma parada cardiovascular.
Observação: Todas as músicas apresentadas para audição são de autoria de Victor Simón, o qual autorizou em 2004 uma pré-remasterização simples, resultada no conteúdo acima disponibilizado. São preservados todos os direitos ao compositor, aos músicos, aos parceiros, aos intérpretes e aos editores. A divulgação neste espaço intenciona apenas difundir a produção musical de Victor Simón. Pré-remasterização realizada por Edgar MS e Marcos Kamya em maio de 2004.
Rodapé:
¹ O programa Refletor esteve no ar de 1999 a 2008 pelo CNU-SP.
² Para o pesquisador José Ramos Tinhorão, a parada é diferente: "O primeiro samba com ritmo de samba surgiu na casa da Tia Ciata, como obra coletiva de um grupo de velhos foliões baianos e de gente da moderna baixa classe média carioca (...). Assim quando o compositor Ernesto dos Santos, o Donga, correu em dezembro de 1916 a registrar na Biblioteca Nacional, sob o número de 3.295, a composição intitulada Roceiro, destinada a fazer sucesso no carnaval do ano seguinte com o nome de Pelo Telefone, levando no selo a indicação samba, esse pequeno fato e a subseqüente polêmica em torno da sua esperteza iam revelar uma curiosa particularidade: o novo gênero de música urbana não nascia mais anonimamente, mas entre pessoas que tinham consciência de constituir a sua criação uma coisa registrável. (T, 19–, p. 123).revisado em 21 de outubro de 2010
Cara, sensacional esse post! Acho justíssimo esse trabalho de redescobrir e nessa tarefa ver abrirem-se novos caminhos dentro da descoberta. Vou procurar lá na Tv pra assistir depois.
ResponderExcluirUm abraço, meu caro!
Obrigado, meu caro, suas palavras são para mim muito valiosas. Abraço.
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