" Longe desse escarcéu, no silêncio reconquistado, posso ouvir as borboletas voando pela minha cabeça. É preciso muita atenção e até certo recolhimento, pois o seu adejar é quase imperceptível. Uma respiração mais forte basta para abafá-las. Aliás, é espantoso. Minha audição não melhora, mas eu as ouço cada vez mais. De fato, as borboletas devem dar-me ouvidos.¹"
Jean-Dominique Bauby
Um dia, no ano passado, lia "O estrangeiro", de Albert Camus. Naquela manhã paulista, eu era mais um na congestão de gente que enche os vagões do metrô. Vai estação, vem estação, a leitura avança prazerosamente. De repente, percebo que alguém me observa. Um sujeito acerca de um metro defronte e que também carrega um livro aberto: "O escafandro e a borboleta".
Curiosamente, havia poucas semanas que eu o acabara de ler. Percebi a inquietação do outro e puxei assunto. Comentei que muito tinha gostado da leitura e que era uma obra gigantesca nas suas quase 140 páginas de letras grandes – acho que foi o que eu disse, se não foi, pensei assim. Ele retribuiu dizendo que por sua vez já conhecia o livro de Camus e que também gostara muito. Concordamos que ambos traziam um quê de angústia.
Mas, voltando alguns meses: Não conhecia Jean-Dominique Bauby, autor de “O escafandro e a borboleta”. Quero dizer, nada havia lido do que escrevera e muito menos o sabia pessoalmente. Mas, quando tive a chance de mergulhar os olhos em “O escafandro...”, nem sei narrar o que me acometeu: só que saí crescido da leitura, entendendo – acreditei, ingênuo – um pouco mais da vida.
Só que a história começa ainda antes: senti-me comovido na noite em que acompanhado de alguns pares assisti num cinema ao filme de mesmo nome, dirigido por Julian Schnabel. Passei dias a recordar a imensidão desenhada pelo ator Mathieu Amalric, representando Bauby entrevado no corpo imóvel, o seu escafandro. Borboletas invadiram a sala escura e as imagens permaneceram na cabeça.
Não me cabe aqui resenhar sobre “O escafandro...” e nem sobre “O estrangeiro”, mas, puxei o assunto só para dizer que me tornei alguém diferente – mas talvez nem dê para notar – após tais leituras. Decerto que jamais serei o mesmo depois de conferir a humanidade profunda nas palavras de Bauby. Foi um dos melhores presentes que já ganhei.
Dos autores, ambos eram jornalistas, trabalharam em Paris e faleceram jovens, na casa dos quarenta e três anos. Foi acidentado de carro que morreu Albert Camus. Jean-Dominique Bauby estava sentado numa BMW cinza-metálica quando sofreu o acidente cerebral vascular que o deixou em coma profundo por alguns dias; quando acordou, estava inerte: perdeu os movimentos do corpo, exceto os do olho esquerdo e também por milimétricos espasmos musculares; morreu após alguns meses entravado na rara locked-in syndrome (trancado em si mesmo, por assim dizer). Intuo que, nalguns momentos, Bauby tenha se sentido um estrangeiro (não o do livro de Camus) dentro de seu próprio corpo.
E foi com a piscadela do olho esquerdo que Bauby estabeleceu um ditado para os interlocutores compreenderem o que sua mente sã dizia. O método era o seguinte: alguém lhe pronunciava o alfabeto (partindo das letras mais utilizadas no idioma francês, começando assim pelo E) e quando a letra correspondia à intenção de Bauby, este piscava uma vez. Letra por letra, palavras, frases e o livro “O escafandro e a borboleta”.
Comecei a relê-lo. Parece que a dor aumenta a cada página.
Nota: Só para registrar, as obras de cada autor são singulares e não seria nada aceitável estabelecer neste espaço correlações. De fato, os ditos acima são apenas paralelos traçados como anotações e que se encerram neles mesmos. As histórias de ambos não se convergem e não arrisco comparações, haja vista, já de início, a distância de anos em que viveram. Camus morreu em 1960, quando Bauby era ainda um garoto nascido em 1952. Este faleceu em 1996.
E S A R I N T U L O M D P C F B V H G J Q Z Y X K W
¹ O escafandro e a borboleta (BAUBY: 2008: p. 105).
Texto revisado em 15 de outubro de 2010.
¹ O escafandro e a borboleta (BAUBY: 2008: p. 105).
Texto revisado em 15 de outubro de 2010.
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